
Dois exemplos recentes de como a Europa por vezes ainda está também tão longe dos ideais democráticos e liberais que prega mundo afora. A velha prática dos "dois pesos, duas medidas", é bastante aplicada por estas bandas, infelizmente.
Exemplo 1, ou o cúmulo do cinismo
O banco holandês ABN AMRO está à venda. Será uma das maiores rransações comerciais no mundo bancário da história. Inicialmente a direção executiva do grupo havia orquestrado a venda do mesmo para o banco inglês Barclays. Detalhes da transação: nesta operação amigável, tratada publicamente como fusão (se bem que na prática é a simples compra do ABN pelo Barclays, uma "fusão à la Air France-KLM), os acionistas do ABN AMRO seriam pagos sobretudo com ações do Barclays, e a direção do grupo seria mantida na nova estrutura da empresa. Ou seja, cargos mantidos e indenizações milionárias para os altos executivos que saíssem; Só para eles, é claro. Cortes previstos nos baixos escalões.
Acontece que o consórcio liderado pelos bancos Fortis, Santander e RBS entrou na parada, e entrou pra ganhar, os três bancos estando decididos a estragar a festa da direção executiva do ABN. A proposta é de valor mais alto e passa por cima da direção do ABN. Os acionários serão contatados diretamente e pagos com dinheiro, à vista. Irresistível para os acionários, que é claro, preferem vender as suas ações para aquele que pagar o maior preço. Afinal de contas, não é esta uma das bases do capitalismo e do liberalismo, sistema tão defendido pela própria Holanda? Detalhe da proposta: o ABN será repartido entre os três bancos após a venda, dizimando portanto a direção executiva do bando, que sai sem nada e perde o emprego.
Depois de muito vai e vém e muita briga entre a direção do banco e os acionários do ABN, parece que a balança está pendendo a favor do lado do consórcio, pois afinal a proposta deles é mais alta, e a palavra final é dos acionários. Eis que entra em cena Rijkman Groenink, o CEO do ABN, em entrevista à mídia holandesa (e prestes a perder o emprego), se dizendo indignado com o andar dos fatos, e supreso com a falta de apoio da população local, intimando os holandeses e mesmo o Governo da Holanda a defender o banco!!! Todos às ruas em prol do ABN! No mundo em que vivemos, não está certo ficarmos todos à mercê do capitalismo puro e selvagem, o ABN não pode simplesmente ser vendido pelo menor preço e liquidado em seguida, algo tem que ser feito!!!
Gente, banqueiro reclamando das mazelas do neoliberalismo e reclamando da possibilidade de perder o emprego em função de mais uma onda de capitalismo selvagem e de aquisições inimigas, não é o cúmulo do cinismo??? Como dizem os holandeses, "wat een omgekeerde wereld!" (Isto é o mundo de cabeça pra baixo!) Pois eu digo, que o ABN seja vendido pelo maior preço e que os acionários ganhem o máximo possível, que o banco seja dividido em três e que o sr; Rijkman Groenink (e os seus) vá postular por um emprego novo na CWI, a central de emprego da Holanda. Eu espero realmente que o Governo da Holanda não entre nesta onda furada do Sr. Groenink, de "salvar o ABN". Ora bolas, era só o que faltava, a gente ter que ter pena de banqueiro mal sucedido. O liberalismo econônico é a base ideológica do governo holandês e da União Europeia, vamos então ser coerentes com as nossas posições, por favor?
Exemplo 2, ou o cúmulo da hipocrisia.
Há alguns dias atrás foi publicada uma charge em uma revista de piadas da Espanha. A charge, de capa, fazia alusão à nova medida anunciada pelo governo daquele país, para estimular as taxas de natalidade, tendo em vista o envelhecimento da população espanhola e a futura crise no sistema de pensões, se a tendência não for invertida: para cada novo nascimento na Espanha, o governo nacional pagará EUR 2.500,00 ao casal provedor. Isso mesmo, o governo da Espanha está pagando aos espanhóis para que eles tenham filhos (ninguém se lembra que se os Europeus estão tendo cada vez menos filhos é porque o custo de escolas, creches e moradias de família é cada vez maior…aí, nenhuma medida é tomada).
Bom, vem a charge. Nela, aparece o príncipe Felipe, futuro herdeiro do trono, transando com a princesa Letícia, ela de quatro (doggie style legaaal) e a frase, "Escuta Letícia, você se dá conta de que se você engravidar agora, isto será provavelmente o mais perto que eu terei chegado na vida a ter um trabalho de verdade?"
Eu não vou reproduzir a charge original aqui porque eu a achei de extremo mau gosto, se bem que engraçada, sem dúvida. E por um segundo problema – a charge foi proibida por um juiz da Espanha, que mandou recolher todas as revistas. E eu não quero ter problemas com a justiça espanhola.
Peraí… como é que é? A charge foi proibida???
Há algum tempo atrás houve comoção no mundo inteiro em função da publicação por um jornal da Dinamarca das charges chacoteando o profeta Maomé, lembram? À parte o extremo mau gosto dos cartoons, e os motivos dúbios que levaram à sua publicação, eu concordei com a posição da maioria dos governos Europeus na época, de condenar moralmente o mau gosto da piada, mas de apoiar a Dinamarca em nome da liberdade de expressão. Eu pessoalmente acho que aqueles cartoons são sim prova da falta de respeito e ignorância da Europa em relação às culturas alheias, mas também acho sim que vivemos em países democráticos e que portanto a publicação de qualquer tipo de charges não pode ser proibida. Liberdade é liberdade, vamos ser coerentes com as nossas posições.
E quer dizer que agora falar mal do profeta Maomé pode, mas falar mal da família real espanhola não pode? Cadê a liberdade de expressão tão defendida no mundo Ocidental? Isto é o que eu chamo do cúmulo da hipocrisia… a velha história, "no dos outros, é refresco…"
Eu acho que pode falar mal da família real sim, assim como pode falar mal do Maomé também. Não deveríamos, mas poder, pode. A liberdade de expressão é uma das bases da democracia.. E daí que eles são os chefes de Estado? A Espanha é uma democracia, de forma que eles são chefes de Estado porque o povo assim o quer, e o povo pode mudar de ideia a qualquer momento. Em tese, é assim que funcionam as monarquias democráticas. Ou deveriam. Pelo menos neste ponto, a Holanda é mais coerente: há alguns anos atrás, foi decidido também em juízo que é sim permitido chacotear a família real holandesa, ainda que charges de mau gosto sejam desaconselhadas por uma simples questão de princípios.
Bom, pelo menos uma coisa: a tal da decisão proibitiva do juiz espanhol, só fez chamar mais atenção ao caso… a charge já é conhecida na Europa inteira. Pobre Letícia, vai ter que ficar várias horas naquela posição ingrata, se Felipe pegar gosto pelo trabalho. Vai ver, ela gosta.
Exemplo 1, ou o cúmulo do cinismo
O banco holandês ABN AMRO está à venda. Será uma das maiores rransações comerciais no mundo bancário da história. Inicialmente a direção executiva do grupo havia orquestrado a venda do mesmo para o banco inglês Barclays. Detalhes da transação: nesta operação amigável, tratada publicamente como fusão (se bem que na prática é a simples compra do ABN pelo Barclays, uma "fusão à la Air France-KLM), os acionistas do ABN AMRO seriam pagos sobretudo com ações do Barclays, e a direção do grupo seria mantida na nova estrutura da empresa. Ou seja, cargos mantidos e indenizações milionárias para os altos executivos que saíssem; Só para eles, é claro. Cortes previstos nos baixos escalões.
Acontece que o consórcio liderado pelos bancos Fortis, Santander e RBS entrou na parada, e entrou pra ganhar, os três bancos estando decididos a estragar a festa da direção executiva do ABN. A proposta é de valor mais alto e passa por cima da direção do ABN. Os acionários serão contatados diretamente e pagos com dinheiro, à vista. Irresistível para os acionários, que é claro, preferem vender as suas ações para aquele que pagar o maior preço. Afinal de contas, não é esta uma das bases do capitalismo e do liberalismo, sistema tão defendido pela própria Holanda? Detalhe da proposta: o ABN será repartido entre os três bancos após a venda, dizimando portanto a direção executiva do bando, que sai sem nada e perde o emprego.
Depois de muito vai e vém e muita briga entre a direção do banco e os acionários do ABN, parece que a balança está pendendo a favor do lado do consórcio, pois afinal a proposta deles é mais alta, e a palavra final é dos acionários. Eis que entra em cena Rijkman Groenink, o CEO do ABN, em entrevista à mídia holandesa (e prestes a perder o emprego), se dizendo indignado com o andar dos fatos, e supreso com a falta de apoio da população local, intimando os holandeses e mesmo o Governo da Holanda a defender o banco!!! Todos às ruas em prol do ABN! No mundo em que vivemos, não está certo ficarmos todos à mercê do capitalismo puro e selvagem, o ABN não pode simplesmente ser vendido pelo menor preço e liquidado em seguida, algo tem que ser feito!!!
Gente, banqueiro reclamando das mazelas do neoliberalismo e reclamando da possibilidade de perder o emprego em função de mais uma onda de capitalismo selvagem e de aquisições inimigas, não é o cúmulo do cinismo??? Como dizem os holandeses, "wat een omgekeerde wereld!" (Isto é o mundo de cabeça pra baixo!) Pois eu digo, que o ABN seja vendido pelo maior preço e que os acionários ganhem o máximo possível, que o banco seja dividido em três e que o sr; Rijkman Groenink (e os seus) vá postular por um emprego novo na CWI, a central de emprego da Holanda. Eu espero realmente que o Governo da Holanda não entre nesta onda furada do Sr. Groenink, de "salvar o ABN". Ora bolas, era só o que faltava, a gente ter que ter pena de banqueiro mal sucedido. O liberalismo econônico é a base ideológica do governo holandês e da União Europeia, vamos então ser coerentes com as nossas posições, por favor?
Exemplo 2, ou o cúmulo da hipocrisia.
Há alguns dias atrás foi publicada uma charge em uma revista de piadas da Espanha. A charge, de capa, fazia alusão à nova medida anunciada pelo governo daquele país, para estimular as taxas de natalidade, tendo em vista o envelhecimento da população espanhola e a futura crise no sistema de pensões, se a tendência não for invertida: para cada novo nascimento na Espanha, o governo nacional pagará EUR 2.500,00 ao casal provedor. Isso mesmo, o governo da Espanha está pagando aos espanhóis para que eles tenham filhos (ninguém se lembra que se os Europeus estão tendo cada vez menos filhos é porque o custo de escolas, creches e moradias de família é cada vez maior…aí, nenhuma medida é tomada).
Bom, vem a charge. Nela, aparece o príncipe Felipe, futuro herdeiro do trono, transando com a princesa Letícia, ela de quatro (doggie style legaaal) e a frase, "Escuta Letícia, você se dá conta de que se você engravidar agora, isto será provavelmente o mais perto que eu terei chegado na vida a ter um trabalho de verdade?"
Eu não vou reproduzir a charge original aqui porque eu a achei de extremo mau gosto, se bem que engraçada, sem dúvida. E por um segundo problema – a charge foi proibida por um juiz da Espanha, que mandou recolher todas as revistas. E eu não quero ter problemas com a justiça espanhola.
Peraí… como é que é? A charge foi proibida???
Há algum tempo atrás houve comoção no mundo inteiro em função da publicação por um jornal da Dinamarca das charges chacoteando o profeta Maomé, lembram? À parte o extremo mau gosto dos cartoons, e os motivos dúbios que levaram à sua publicação, eu concordei com a posição da maioria dos governos Europeus na época, de condenar moralmente o mau gosto da piada, mas de apoiar a Dinamarca em nome da liberdade de expressão. Eu pessoalmente acho que aqueles cartoons são sim prova da falta de respeito e ignorância da Europa em relação às culturas alheias, mas também acho sim que vivemos em países democráticos e que portanto a publicação de qualquer tipo de charges não pode ser proibida. Liberdade é liberdade, vamos ser coerentes com as nossas posições.
E quer dizer que agora falar mal do profeta Maomé pode, mas falar mal da família real espanhola não pode? Cadê a liberdade de expressão tão defendida no mundo Ocidental? Isto é o que eu chamo do cúmulo da hipocrisia… a velha história, "no dos outros, é refresco…"
Eu acho que pode falar mal da família real sim, assim como pode falar mal do Maomé também. Não deveríamos, mas poder, pode. A liberdade de expressão é uma das bases da democracia.. E daí que eles são os chefes de Estado? A Espanha é uma democracia, de forma que eles são chefes de Estado porque o povo assim o quer, e o povo pode mudar de ideia a qualquer momento. Em tese, é assim que funcionam as monarquias democráticas. Ou deveriam. Pelo menos neste ponto, a Holanda é mais coerente: há alguns anos atrás, foi decidido também em juízo que é sim permitido chacotear a família real holandesa, ainda que charges de mau gosto sejam desaconselhadas por uma simples questão de princípios.
Bom, pelo menos uma coisa: a tal da decisão proibitiva do juiz espanhol, só fez chamar mais atenção ao caso… a charge já é conhecida na Europa inteira. Pobre Letícia, vai ter que ficar várias horas naquela posição ingrata, se Felipe pegar gosto pelo trabalho. Vai ver, ela gosta.



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