Friday, July 27, 2007

E assim se passaram 10 anos...


E assim se passaram 10 anos…

Neste mês de Julho que está acabando, está fazendo dez anos que eu comecei a trabalhar na Air France, onde trabalhei por três anos, de 1997 até o ano 2000, quando vim para a Europa. Foi uma época um tanto divertida da minha vida, e tenho que dizer que, uma coisa sempre leva à outra, provavelmente eu não estaria hoje aqui na Bélgica se não tivesse passado aqueles três anos lá em Guarulhos, aturando passageiro e passando os finais de semana em Paris.

Vou explicar. Antes de trabalhar na Air France, eu havia passado dois anos trabalhando como assistente de auditoria na Arthur Andersen, na época uma das big 5, lá em São Paulo. Foi o meu segundo emprego em São Paulo, depois de uma rápida passagem pelo Banco Pontual, desde à minha chegada àquela cidade, em 1994. Como bacharel em Direito que era, com excelentes notas na faculdade como eu tinha, e falando inglês e francês, consegui o emprego na cobiçada consultoria, que fazia a cabeça dos mauricinhos e patricinhas da paulicéia. Minha família amou a minha conquista – um emprego sério em uma empresa de renome. Tudo bem que o salário era uma miséria de dar dó no Bangladesh, aquilo era mais um auxílio alimentação do que outra coisa. Mais isto não importava muito para os meus colegas filhinhos de papai, todos vivendo às custas dos pais, é claro.

Eu detestei a Arthur Andersen. Houve é claro uma fase inicial de encantamento, afinal de contas ela ERA na época (antes da falência internacional do grupo) uma empresa muito bem estruturada, a gente sentia que fazia parte de algo. O melhor foi logo nos primeiros seis meses, eu fui enviado – assim como todos os meus colegas que tinham um nível bom de inglês – para um curso de duas semanas em Chicago, e foi maravilhoso, foram duas semanas inesquecíveis – qualquer ex Arthur ou ex Andersen que se preze (era assim que a gente chamava à Arthur Andersen e à Andersen Consulting, empresa gémea, hoje Accenture) e foi para o centro de Saint Charles lembra-se do Cadillac Ranch e do bar onde o copo de cerveja custava meros USD 0, 25. Ou seja, a bebedeira na sexta feira a noite era garantida, e no final de semana ia todo mundo pra Chicago, que para quem não conhece, é uma das cidades mais bonitas da América do Norte, uma mini Nova York bem cuidada, que no verão ganha ares de Rio de Janeiro com direito a praia, passeios de barco pelos canais da cidade, muito sol e calor.

Mas aos poucos a realidade do trabalho na Arthur foi se mostrando. Trabalhávamos muito e ganhávamos pouco. Até aí ainda vai. Mas a atmosfera no ambiente de trabalho era terrível, pelo menos pra mim. Sabe o que é um grupo de uns 100 mauricinhos e patricinhas tentando subir a pirâmide social da empresa? Eu não tinha a menor afinidade com aquele povo, com aquelas histórias, com as situações – eu era um peixe fora d´água,e fui aos poucos me afastando do grupo como um todo, me isolando, me isolando, até que um dia ouvi em em uma reunião de trabalho o seguinte comentário – aquele cantor do Legião Urbana tinha morrido (como era mesmo o nome dele? Nossa, esqueci!), e um carinha lá falou – "Ah, bem feito, viado tem que morrer tudo de Aids mesmo". Reação da turma ao comentário? Nenhuma, consentimento geral. Bom, eu que já havia ouvido comentário parecido dentro da minha própria família, em circunstâncias parecidas, pensei "desta vez não dá pra engolir". Alguns meses depois eu pedi demissão, sem ter a menor ideia do que eu iria fazer. Eu simplesmente não aguentava mais trabalhar naquele ambiente tão besta, tão careta, tão falso, tão… blargh.

Daí fiquei desempregado. Minha família – como sempre – caiu em cima, "como eu podia deixar um emprego daqueles?" A minha (in)felicidade não contava, isto era um mero detalhe. Pois bem, para não ficar sem ter o que fazer e sem salário no final do mês, resolvi ir trabalhar com traduções, enquanto não aparecia nada, e enquanto eu decidia o que fazer da vida. O caminho natural seria ter ido procurar emprego em algum escritório de advocacia, mas eu não queria trabalhar como advogado (mesmp problema, o problema de sempre na minha vida, eu me sabotando profissionalmente em função de não ter que conviver com idiotas e wannabes), então fui trabalhar para uma empresa chamada Estúdio de Cinema, que fazia os letreiros de filmes e seriados de TV. Trabalhei uns 6 meses com eles, inclusive fiz os letreiros de séries como A Gata e o Rato, Faulty Towers (dificílimo!!!) e One Foot in the Grave (Hilário). Também fiz uns episódios de French & Saunders, inclusive me lembro de um em que a Dawn Frnech ia se casar e explicava como ela queria o casamento, começando com a igreja sendo TOTALMENTE coberta de flores. Fiz também os letreiros para alguns documentários e um que ficou na minha lembrança foi um documentário da BBC sobre órgãos, e eu que já gostava de Bach, passei a gostar mais ainda depois de tudo o que aprendi.

Mas bem, trabalhar como free lance não era fácil, nem sempre havia trabalho e como eu também não dispunha de um escritório bem equipado, ficava às vezes difícil de me sustentar o mês inteiro à base das traduções. Então continuei procurando um emprego, até que encontrei um anúncio para ir trabalhar no departamento comercial da Air France. Achei a proposta interessante, e como eu falava francês e gostava do ramo da aviação, me empolguei e me inscrevi para o processo seletivo. Houve uma prova de conhecimentos gerais (uma das questões foi moleza para mim, eu tinha que identificar os países e cidades do mundo em um mapa – doce de leite…. – e uma entrevista, eu me lembro muito bem, foi com o Júlio e com a KT, que vieram a ser meus chefes depois. Quando eles me disseram que a vaga era para o departamento de operações no aeroporto – eu até então estava pensando que era para o escritório comercial no centro – eu me assustei, pois não estava preparado para a novidade, nunca tinha pensado em ir trabalhar fazendo check in de passageiro. Mas como eu não tinha nada em vista e como achei a proposta um tanto inusitada, resolvi aceitar a parada, até por uma questão de curiosidade, queria ver como era o trabalho no aeroporto, e principalmente, eu estava decicido a encontrar um trabalho que me forçasse à comunicação direta com as pessoas (este que também sempre foi um dos meus grandes problemas na vida, me comunicar com as pessoas).

Minha família, cheia de preconceitos como é, mais uma vez me condenou. "Como eu podia ter largado um emprego daqueles para ir trabalhar agora no balcão do aeroporto?" Eu resolvi me fazer de desentendido, mas é claro que fiquei chateadíssimo com a falta de apoio. Enfim, lá fui eu trabalhar no aeroporto. No início foi meio barra, toda aquela gente, aqueles horários loucos, o stress do fechamento dos voos, e na esfera privada a minha família falando mal de mim e me classificando como um fracassado porque eu tinha abandonado a advocatura. Eu custei a me adaptar à minha nova realidade. Mas o tempo foi passando, eu fui aprendendo o trabalho, fui conhecendo os meus colegas melhor… e não é que no final eu gostei? De novo, o salário era um lixo (mas pasmem, o salário da Arthur era ainda menor, com todo aquele falso glamour), o trabalho era por vezes bem puxado, o reconhecimento por parte da empresa ou dos superiores era NENHUM, mas o ambiente de trabalho era divertidíssimo, eu fiz ótimas amizades com alguns dos meus colegas, amizades que perduram até hoje, eu me senti muito mais à vontade naquele meio bem mais descontraído e alternativo que o ninho de cobras da Arthur. Também aprendi muito sobre o ser humano, e lidando diariamente com passageiros cheguei à conclusão de que 90% da humanidade é feita de malucos, os loucos estão por toda parte, e ninguém há me fazer mudar de idéia. Eu vi mulher aos prantos porque perdeu o ursinho que ganhara do namorado, eu vi passageiro atirando mala no balcão, eu vi gente totalmente arrasada porque só conseguiu um assento no meio, eu vi chinês fugindo pelo banheiro, eu vi boliviano se passando por argentino (carrega no sotaque!), eu vi cobras e lagartos (mesmo!!!), eu vi passageiro atrasando o vôo de propósito, eu vi travesti tentando fugir da imigração na França (todas indo invariavelmente pra Itália...), eu vi discussão de marido e mulher na hora do embarque, eu repórter da Globo fazendo escândalo porque não tinha suco de laranja, eu vi bêbado sendo repatriado, eu via cada coisa... e é incrível a quantidade de pessoas que andam por aí com um problema na perna... todos precisando de mais espaço, sabe?



E, principalmente, eu pude VIAJAR. Sim, porque é claro, uma das maiores vantagens de trabalhar para uma companhia aérea são as facilidades de viagem. Para mim, que amo viajar, era o paraíso na Terra. Em um só ano eu fui 7 vezes a Paris (acho que no total eu fui umas quinze, eu ia quase todo mês, passava um final de semana prolongado e voltava), e também fui à Grécia, fui ao Norte da Europa, fui à África do Sul (Cape Town é uma cidade maravilhosa), fui à Argentina, fui a Nova York, passeei pelo Brasil, enfim, eu pus o pé no mundo.


E em uma dessas minhas andanças pelo mundo eu encontrei um certo Hans, um rapaz com olhos da cor do céu e cabelos da cor do sol, e este Hans un dia me convidou para conhecer a sua casa em Amsterdam, e eu fui, e depois fui de novo, e de novo, e de novo, e me encantei não só com o Hans como também com este pequenino país que é a Holanda, tão pequeno e tão bonito e tão complicado e tão difícil e tão diferente, a Holanda que com todos os seus problemas – e são muitos, muitos… - continua sendo o meu lar aqui na Europa (aliás são dois, Amsterdam e Paris, são as duas cidades em que eu me sinto em casa na Europa), e fui tanto que mesmo depois que não tinha mais Hans algum na parada (aquela velha história, fui chupado e jogado fora como uma laranja…dia 14 de Outubro de 1999, o golpe final em Paris, eu havia jantado com a minha irmã no Buddha Bar, e depois fui ao seu encontro no Xème arrondissement e daí… um dia eu conto esta história), eu continuei indo à Amsterdam, até que um dia, passeando pelo centro, me dei de cara com o prédio da Univerdidade. E aí eu já tinha três anos de Air France, já estava cansado de um trabalho que era divertido mais repetitivo e sem perspectivas de melhoria, e eu que sempre gostei de estudar, estava sentindo falta de um livro. Então estava pensando na oportunidade de talvez ir cursar um mestrado no exterior, me aproveitando do fato de que na época o real estava forte e as finanças do meu pai também – sim, neste caso tenho que dar a mão à palmatória, meu pai me ajudou nos meus estudos na Holanda e se não fosse a sua ajuda eu nunca teria podido ir (obrigado, meu pai…) E então eu postulei para uma vaga no curso de mestrado em Relações Internacionais da Universidade de Amsterdam, assim, por acaso, como quem não quer nada, só porque eu já estava ali mesmo, e bingo, fui aceito. Assim, por acaso. Se não fosse a Air France, se não fosse o Hans, se não fosse eu estar à toa àquele dia em Amsterdam… se eu tivesse feito um caminho diferente… E bem, arrumei minhas malas, dei adeus à Air France, peguei o voo da KLM no dia 6 de Setembro do ano 2000 e atravessei o oceano… e o resto é história. E assim se passaram 10 anos.

Nossa, ficou longo este post, né? Pois bem, 10 anos são 10 anos. E hoje em dia eu adoro viajar com a Air France. Como passageiro. :-)

5 comments:

Emilia said...

e em bruxelas... que fazes?

Antonio Da Vida said...

Trabalho pra uma agência européia.

Annix said...

Haha, a Arthur Andersen representa tudo o que eu não considero importante na vida :-)
Olha, eu gostava de trabalhar no aeroporto naquela época, mas não é algo que eu faria de novo hoje (ainda mais que passageiro é igual no mundo todo). Mas a AF é top, e sempre será!
hahahaha

Anonymous said...

Cacá, eu não entendí a parte do golpe final em Paris, em que vc me menciona...Dá pra refrescar a minha memória? Se for particular, pode ser por e-mail mesmo.Eu relamente não lembro de nada de diferente neste dia e fiquei curiosa.Não deixe de me responder...

Antonio Da Vida said...

Oi minha irmã,
Não se preocupe, a história de Paris não se refere a vc... foi só coincidência de ter acontecido na mesma noite em que eu saí pra jantar com vc... desencana... :-)
beijo!