Monday, July 23, 2007

Allons enfants de la formidable, fabuleuse, incroyable patrie Belge...!


Estava na hora de eu comentar um pouco mais a respeito deste pequeno e esquisito país onde estou morando, a Bélgica. Para quem não sabe, a Bélgica é um minúsculo país que consegue ser ainda menor que a Holanda (portanto menor que o estado do Rio de Janeiro), onde ao se partir de trem de Bruxelas em qualquer direção, em menos de duas horas se atinge a fronteira. E principalmente, onde se falam três línguas oficiais: o neerlandês, falado em Flandres, a região norte do país, de cultura neerlandesa; o francês, falado majoriariamente na região de Bruxelas e na Wallonia, no sul do país, e também o alemão, falado no extremo leste do país, junto à fronteira alemã. Esta salada linguística e cultural é a arma que os políticos usaram ao longo do tempo para institucionalizar sete esferas diferentes de governo ) isto mesmo, a Bélgica, menor que o Rio de Janeiro e com uma população de 10 milhões de habitantes, tem sete governos diferentes. O sistema federal Belga é orquestrado da seguinte ,maneira: há três comunidades (francesa, neerlandesa e alemã), três regiões (Flandres, Wallonia e Bruxelas-capital), e mais o governo federal em si, cada um com ministérios diferentes e competências diferentes. Ou seja, há sete ministros da saúde, por exemplo, sete ministros do trabalho, e por aí vai… ah, acho que os políticos brasileiros iam adorar a Bélgica. Nem precisa explicar que toda esta complicada estrutura administrativa gera muita confusão, e muita corrupção, como era de se esperar. A Bélgica é o país do Norte da Europa com os índices mais altos de corrupção. Ok, nada comparável ao Brasil e suas CPIs, mas ainda assim, digno de menção.

A barreira linguística também serve para alimentar o calcanhar de Aquiles dos Belgas: os eternos ataques mútuos entre as comunidades neerlandesa e francesa, as principais do país. Os motivos são históricos. Desde a independência na revolta de 1830 contra a dominação holandesa (que tinha ganho a Bélgica de bandeja no espólio napoleônico de 1815), a elite francófona dominava o país e a maioria flamenga (o neerlandês falado na Bélgica é chamado de flamengo, é idêntico ao holandês gramaticalmente falando, mas a pronúncia é bem diferente) vivia subjugada. Com o advento das duas Grandes Guerras no século XX e principalmente com a consequente degradação econômica do sul do país (de língua francesa e indústria obsoleta), a região neerlandesa de Flandres, mais ligada às áreas de serviços e distribuição (vide o Porto de Antuérpia, segundo maior da Europa), tomou a liderança política e econômica do país – e agora é tempo de pay back time nas mentes nacionalistas flamengas. As brigas entre os flamengos e os wallões são quase que diárias, por qualquer pretexto, algo realmente difícil de engolir em um país tão pequeno e tão, seja dita a verdade, desimportante no cenário mundial, principalmente nestes tempos de globalização. Tudo aqui é motivo de controvérsia. Nada é decidido facilmente, pois o que uma comunidade apoia, a outra rechaça. Mas o atraso administrativo não importa . Desde sempre, falar mal dos francófonos é voto certo em Flandres e vice versa. Haja populismo em um país tão pequeno. Bom para nós, estrangeiros em Bruxelas. Pois se na Holanda o alvo do populismo barato são os imigrantes, aqui são os próprios belgas, flamengos e wallões se atacando mutualmente e felizmente deixando Bruxelas e seus habitantes mais ou menos em paz.

Pois bem, este final de semana tivemos o dia nacional da Bélgica. 21 de Junho, feriado nacional, caiu no sábado, foi um dia bem agradável de sol e um calor normalzinho. A maior parte das comemorações é feita dentro e em volta do Parc Royal, ou Warandeberg, como chamam os neerlandeses à principal areal verde do centro da cidade, entre o Parlamento e o Palácio Real. Saí para ver a festa– é uma grande festa nacional, um pouco nos moldes do Dia da Rainha na Holanda, só que mais comportada. Eu diria que é um evento mais família, com menos bedebeira e mais comilança… há varias barraquinhas vendendo comida de todos os lugares do mundo (pois Bruxelas é a sede da União Europeia, portanto Europeu de todos os cantos é o que não falta por aqui) – eu tive o prazer de me deleitar com três rissolis de camarão e um pastel de nata na barraquinha de Potugal; há demonstrações de grupos de dança folclórica, e também o inevitável desfile militar em frente ao Palácio Real (a Bélgica gritando "quero ser França!!!)".Foi um dia bastante divertido, uma festa de rua agradável de se ver, dessas que não deixam ressaca no dia seguinte.

Daí, vem o evento do dia. O provável futuro primeiro ministro da Bélgica (ganhou as eleições para o governo federal no mês passado; o novo governo está em fase de formação), o flamengo Yves Leterme, adorado pelos flamengos e odiado pelos francófonos (durante a campanha soltou pérolas do tipo "os francófonos não são intelectualmente capazes de aprender o neerlandês"... mas como os flamengos são 60% da população, são eles que decidem qualquer eleição a nível federal) foi perguntado pelo reporter da RTBF (difusora estatal de língua francesa) se ele sabia o motivo da festa do 21 de Junho. Resposta errada na lata: "É a proclamação da Constituição". "Não", conserta o reporter, "tem a ver com o primeiro rei dos Belgas, Leopold I". Outro fora do Leterme, sem idéia do que poderia ser, e o repórter o salva: "foi o dia em que ele prestou sermão oficial". Bom, até aí tudo bem, em uma recente pesquisa foi constatado que apenas um quinto dos Belgas sabe o porquê do 21 de Junho – é como se os brasileiros não soubessem o porquê do Sete de Setembro. Mas paciência, é a Bélgica, aparentemente eles não são lá muito ligados às datas nacionais, até por causa do nacionalismo regional exacerbado. Daí vem o escorregão final, o vexame nacional estampado hoje em todos os jornais do país e manchete dos telejornais de ontem. O repórter continua: "o senhor sabe cantar a Brabançonne, o hino nacional da Bélgica"? Ao passo que Leterme responde, "um pouco". O repórter força: "o sr. pode cantar um pouco pra mim por favor?" E daí um sorridente Leterme (lembrem-se, este é o futuro primeiro ministro da nação…) começa…

"Allons enfants de la patrie, le jour de gloire, est arrivée…"
Pára tudo.
A Marseillaise????

Isso mesmo, Yves Leterme, o ministro presidente da região de Flandres, recém eleito futuro primeiro ministro do país, defensor árduo dos interesses flamengos no governo federal, instigador da incapacidade intelectual francófona, confundiu o hino nacional do país, a Brabançonne, com a Marseillaise, o hino nacional da França, isso na celebração do dia nacional do país, cujo motivo ele aliás não havia conseguido identificar... isto é o que eu chamo de babado forte federal... É como se o Lula entonasse agora o hino nacional da Argentina durante o desfile do Sete de Setembro. Gente, nem Lula seria capaz de uma tamanha escorregada (espero que não…). E para piorar, durante a missa oficial comemorativa, não só o nosso querido Leterme não cantou o hino (e olhem que desta vez ele tinha a letra disponível...), como ainda saiu falando no celular, no meio do hino, no meio da missa. Esta foi realmente a gafe do ano aqui na Bélgica. Na Europa. Hilário. Inacreditável. Fantástico. Os franceses devem ter adorado. Ao ser lembrado de que estava cantando o hino nacional do país errado, Leterme, com aquela cara de político que foi pego fazendo besteira, apressou o passo e fugiu do repórter. Sem comentários.

É claro que as imprensas francófona e neerlandesa estão se deliciando com o evento: a francesa indignada e protestando, e rindo e chacoteando, e a neerlandesa perplexa, sem saber o que dizer, tentando defender o queridinho dos flamengos e dizendo que não é pra tanto… ai, ai, ai, políticos e mídia, é quase tudo igual mesmo no mundo inteiro.

E viva a Bélgica, esse pequeno e divertido país, com direito a muita cerveja, muito mexilhão, muita batata frita e muitos waffles recheados com o melhor chocolate do mundo. Sim, os Belgas têm motivos de sobra pra comemorar a data nacional deles, ainda que não saibam o porquê.
PS - coloaquei o link com a reportagem da RTBF no YouTube, pra quem quiser ver.

5 comments:

Annix said...

*ROLANDO DE RIR*
Essa foi a melhor do ANO!

Beth Blue said...

Hilário. Inacreditável. Fantástico. Os franceses devem ter adorado. Ao ser lembrado de que estava cantando o hino nacional do país errado, Leterme, com aquela cara de político que foi pego fazendo besteira, apressou o passo e fugiu da repórter. Sem comentários.


Hilário é pouco!!! rsrsrsrs. Antônio, muito bom teu texto hein...do nosso ilustre correspondente internacional em Bruxelas.

beijos

Anonymous said...

Achei seu texto por acaso, muito bom... Eu sempre disse que a Bélgica nao é um país de verdade, as pessoas nao se amam!

Parabéns e tudo de bom!

Emilia said...

Menino... a Cecilia me falou de seu blog -essa que comentou aqui tb-.
ó... vc colocou o cartaz do dia 21 de julho mas no texto vc só esceveu que era 21 de junho. Pq hein? :P 21 de junho vc lembra que choveu e foi o primeiro dia do verão? Uó!
Eu tb moro em Bruxelas e acho que os belgas são criaturas estranhamente doces :)
\o/ vivabéélgica
sim! dia 21 de julho foi meu aniversário tb! todos aqueles fogos só pra mim :)

Antonio Da Vida said...

Oi Emilia,
Se eu escrevi 21 de junho foi um erro de datilografia, peço desculpas pelo engano. A data correta é 21 de julho.
Parabéns pelo seu aniversario...
XX/A.