
E neste verão imprevisível de Bruxelas, onde chuva e sol, frio e calor alternam-se com a mesma frequência com que trocamos de roupa, a vida também continua a me pregar peças desagradáveis de vez em quando.
Este final de semana passado era para ter sido um final de semana especial. A minha sogra completava 70 anbos, e em função disto M foi para a Itália na quinta-feira, onde ficaria até domingo. Eu resolvera ficar na Bélgica, não por falta de vontade de ir à Itália (quem não teria vontade de passar um final de semana descansando em uma casa maravilhosa no alto de uma montanha, com vista para o lago de Lugano e para a Suíça?), mas porque queria aproveitar o tempo livre para descansar, curtir um pouco a minha própria companhia, e para arrumar o apartamento para minha mãe, que chegaria para uma visita de um mês na segunda feira.
Chegou a sexta feira, e a minha garganta começou a sabotar os meus planos. O que era uma inflamaçãozinha foi virando uma tosse daquelas, que não te deixa respirar direito e te impede de dormir à noite. Resultado, a idéia de passar o final de semana simplesmente descansando e aproveitando o tempo livre foi pro espaço - quem consegue curtir um sábado de paz entre um acesso de tosse e outro? Paciência. Mas pensei, pelo menos tenho tempo de arrumar o apartamento pra chegada de minha mãe, posso ir comprar a cama que faltava pro quarto de hóspedes, etc.
Então sábado à tarde lá fui eu munido da minha tosse e das minhas últimas energias para a Ikea, o paraíso mobiliário da classe média que num sábado à tarde e de sol e calor mais parece um pequeno inferno. Entre móveis e famílias fui desviando o meu caminho o mais rápido que pude até conseguir chegar ao depósito e separar as caixas de que eu precisava. Bom, tudo no carrinho, vou aos check outs, pago, entro no taxi vert - 30 euros a corrida até o centro, mas eles transportam tudo - e volto pra casa.
Chegando em casa, o elevador não está funcionando. Eu moro no quinto e último andar. Impossível carregar todas as caixas, uma cama inteira, cinco lances de escada, sozinho. Resolvo trancar tudo no depósito no subsolo. Finalmente subo pra casa, exausto. Ainda tive que arrumar a sala, a cozinha, o quato de hóspedes, enfim, preparar a casa para a visita ilustre.
Chega o domingo, eu no meio da minha arrumação, toca o telefone... é minha querida mamãezinha me avisando que teve mais um ataque de coluna, na véspera da viagem, e que portanto teve que cancelar tudo. Sem previsão de uma nova data. Eu, controlando a tosse no telefone (porque minha mãe é quase hiponcondríaca), só consigo dizer, que pena... paciência...
Faz quatro anos que eu não vejo a minha mãe.
Há sentimentos que são muito difíceis de descrever. Frustração é um deles. Principalmente quando vem misturado com uma passiva aceitação da realidade, uma aceitação decorrente de anos de treino, de anos de frustrações e decepções seguidas. A minha mãe tem mesmo um sério problema de coluna, ela vive tendo crises, de ter que passar até quatro dias deitada... mas também essas crises sempre acontecem quando ela vai viajar; eu acho que elas são psicológicas.
Enfim, não há nada a fazer, a não ser aceitar a situação. Ela não tem culpa. Ao mesmo tempo, não consigo evitar uma sensação de decepção. Não é a primeira vez que os meus pais me decepcionam com algo e certamente não é a última. Toda vez que eu espero algo de um ou de outro, eu sempre me decepciono no final. Já aprendi a não esperar nada; mas às vezes a vida nos trai. Meu pai esteve aqui me visitanto há alguns meses atras e também me decepcionou muito no final, pois percebi que a viagem DELE era mais importante para ele do que EU. Eu não passei de um mero pretexto para que ele pudesse viajar e se divertir. E agora a minha mãe, de novo adiando a viagem, por causa das crises de coluna. Sei que não é culpa dela. Sei que não é culpa de ninguém. Mas não consigo evitar um gosto amargo na boca. E a sensação de que eu vou me afastando cada vez mais da minha família, e este é provavelmente um caminho sem volta.
Bom, a semana continua. Então já tenho a tal da cama para o quarto de hóspedes, mas ainda tenho que montá-la, o que pretendo fazer no final de semana que vem.
Tenho passado dias muito quietos. Trabalho, casa, casa, trabalho. Com esta tosse nem dá pra ir à academia. Chega o final do dia e a única coisa que eu quero fazer é chegar em casa, tomar um banho, trocar de roupa, e me deitar, avançar na leitura do meu livro (ainda White Teeth), e esquecer da vida. Aproveitar os belos fins de tarde no meu terraço. Mais e mais eu adoro a minha casa e o meu terraço mais do que qualquer outro lugar no mundo. No domingo passado eu fui encontrar com minha amiga N para um café em um terraço perto de casa; quando ela chegou, me perguntou: "então, como é estar fora de casa?" Eu respondi: "Estranho." Eu estou cada vez mais na minha, as pessoas me interessam cada vez menos, o noticiário eu vejo de vez em quando, os dias são todos iguais e eu não estou reclamando, estou apenas atravessando uma fase de calmaria, de falta de interesse, de observação. Adoro ler, e tenho sonhado muito ultimamente, sonhos um tanto estranhos. Um dia eu sonhei que eu virava vampiro. Outro dia sonhei que eu era o melhor amigo da família real, e era convidado para todas as festas. Logo eu. Ontem sonhei que estava em outro planeta, e tinha conseguido um meio proibido de me locomover pelo planeta; eu não podia ser descoberto senão me matariam.
Não tenho ido ao cinema, nenhum filme tem me interessado.
A vida vai seguindo o seu curso. Chove, faz sol.
Eu acho que eu preciso de férias. Que esta tosse chata passe logo.



2 comments:
Oi Cacá, gostou da noca cara do meu blog? Estou tendo uma média de 60,80 visitantes por dia, estou animada.Vá lá e dê a sua opnião.
Beijos,Julia
Chéri, sobre a visita frustrada eu sinto muito. Mas na IKEA vc não poderia ter mandado entregar? A gente comprou uma cama recentemente, e a entrega na nossa porta (subindo os 4 andares de escada e tudo) saiu 50 euros.
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