Sunday, July 29, 2007

Tour de France, tour da vida


Hoje termina o Tour de France, o maior evento ciclístico do ano. Todos os telejornais do domingo à noite estarão noticiando quem terá sido o vencedor deste que foi o Tour de France mais problemático da história. Quantos casos de doping foram identificados neste Tour? Quantos ciclistas foram alijados da corrida, pegos com a mão na massa? Fora aos impostores, e viva o novo vencedor. É tudo um grande circo.


Nós vivemos em um mundo louco em que somos obrigados a ter cada vez mais, mais e mais. Todos queremos ter tudo ao mesmo tempo agora. A sociedade e a mídia nos cobram isso. Temos que ter - sim, TEMOS QUE TER - um grande emprego com um ótimo salário, temos que viver em um ótimo apartamento na área central da cidade, temos que malhar regularmente e ter corpos de aço, temos que ter férias espectaculares em lugares maravilhosos, temos que andar sempre na última moda e com muito estilo, temos que investir em nossas carreiras e também temos que cuidar da saúde e do bem estar, temos que ter filhos lindos e saudáveis ou compensar a falta dos mesmos com férias ainda mais espetaculares e roupas ainda mais caras, temos que ter tempo para ler livros interessantes e instigantes, temos que ir a restaurantes badalados pelo menos uma vez por semana, temos que ter ipods e outros tantos gadgets, temos que ter tempo para nos divertir e para repousar, temos que ver o último filme do Almodóvar, temos que agir com a mesma desenvoltura em Londres, Parati ou nas Maldivas, temos que, temos que, temos que, temos que... e quem não consegue é um perdedor, carta fora do baralho. Mas não há com o que se preocupar, há inúmeros livros de auto ajuda disponíveis em todas as livrarias do mundo inteiro prontos para nos ensinar a fórmula do SUCESSO. Entre um Harry Potter e outro, por favor.


De volta para o Tour. Sempre agradável de se assistir, o pelotão de ciclistas passando pelas belas paisagens ensolaradas do Sul da França. Milhões investidos em patrocínio, merchandising, exposição na mídia, imagens de sucesso e glamour de uns poucos cruzando os Champs Elysées no final. Milhões, milhões, milhões. Tudo para o vencedor, a glória extrema, o sucesso absoluto, a possibilidade de finalmente chegar "lá", o Olimpo do mundo moderno. E quem se lembra dos segundos lugares? Todo mundo sabe que Lance Amstrong ganhou o Tour várias vezes. Lance Armstrong, também suspeito de ter usado doping, suspeita que nunca pôde ser comprovada. Alguém se lembra quem foi o segundo colocado em cada um daqueles anos? Ao vencedor, tudo. Ao resto, nada. A todos aqueles que participaram honestamente e nunca passaram do quinto, sexto lugar, nenhuma menção.


E eis que neste mundo louco, em que não há tempo nem espaço para perdedores, nesta espiral de consumo desenfreado e ambições inalcançáveis, nesta corrida desenfreada rumo ao sucesso absoluto ou o fracasso total, é cada vez maior o número de atletas que tenta recorrer a métodos heterodoxos para conseguir alcançar suas metas. O negócio é não ser descoberto. E manda ver na testosterona, na nandrolona, no EPO, nas injeções de tudo o que for possível para dar "aquela"ajuda, "aquele" sprint no final. Da mesma forma que modelos cheiram cocaína e fumam para não engordar, atrizes passam por cirurgias plásticas para continuar a receber papéis no cinema ou na TV, políticos viram de casaca em função de cargos no governo, empresários molham a mão de políticos em nome de contratos milionários, social climbers apunhalam seus colegas pelas costas em nome de promoções no trabalho, etc, etc, etc... nós temos que ter, nós temos que ter, nós temos que ter. O sucesso é obrigatório.


Os fins justificam os meios, já dizia Machiavel. E num mundo em que os fins são cada vez mais difíceis de se alcançar, os meios têm que ser cada vez mais extremos. A glória absoluta para o vencedor, o esquecimento para os perdedores, é a imposição da mídia. A mesma mídia que agora cobra a prática limpa do esporte. A mesma mídia, o mesmo circo. O mesmo circo que promoveu Tours cada vez mais difíceis e metas cada vez mais inalcançáveis. Se houvesse uma terceira cadeia de montanhas na França, por lá passaria também o Tour, os Alpes e os Pirineus não seriam suficientes. O mesmo circo que investiu cada vez mais na construção artificial de heróis de curto prazo - até o Tour do ano que vem - tudo em nome de percursos cada vez mais difíceis, de performances cada vez mais espetaculares, do interesse cada vez maior do público, de contratos cada vez mais milionários, de intervalos comerciais cada vez mais caros. Mais, mais, mais. O mesmo circo que vai perder milhões em patrocínio e merchandising, se agora o público em geral perder o interesse pelo Tour. Fora aos impostores, viva o novo vencedor. É tudo um grande circo.


Alguém se lembra da Florence Griffith Joyner? Campeã olímpica de atletismo em 1988, falecendo 10 anos depois, em 1998, aos 38 anos. Suspeita de doping, suspeita nunca comprovada.


Os fins justificam os meios.









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