Thursday, September 6, 2007

Amsterdam


Se ontem eu quis escrever sobre a Bélgica, a minha mente hoje está voltada para a Holanda. Pois hoje faz exatamente 7 anos que eu deixei o Brasil a fim de completar os meus estudos na área de Relações Internacionais e me aventurar em terras européias. E fui parar em Amsterdam, essa pequena cidade no Norte da Europa, linda e loira, que encanta a todos à primeira vista, choca na segunda, e conquista na terceira, ainda que de uma maneira bem diferente da que a gente possa imaginar. É uma conquista às avessas, mas ainda assim é uma conquista. Por mais que eu goste da minha vida atual na Bélgica, eu não posso negar que sinto muita saudade de Amsterdam, da beleza da cidade, do bucolismo de seus canais, dos grandes amigos que fiz por lá e de quem sinto bastante falta. Faz também um ano que eu praticamente não ponho os meus pés naquela cidade, por uma síndrome de amor e ódio em relação a um país que me deu muita coisa boa, mas que também me exigiu um preço bem alto por tudo no final. Mas esta síndrome felizmente está passando – guardar mágoa no coração não presta, já dizia a minha avó.

Esta é uma história difícil de narrar, porque ainda muito recente, e em muitas partes um tanto dolorida. Coisas piores já aconteceram na minha vida, e eu já escrevi aqui sobre muitas das situações ruins pelas quais já passei. Mas escrevi com certa facilidade (em alguns casos para meu próprio espanto), porque foram coisas que já aconteceram há muito tempo atrás, feridas que praticamente já se cicatrizaram, e se por vezes ainda doem é mais pelas consequências que podem ter me aportado ao longo do tempo do que pelos ferimentos em si. Mas a história dos meus 6 anos de Holanda (seis porque o último ano já foi aqui na Bélgica), tudo o que aconteceu e todas as consequências, é uma história que ainda está fresca na memória, e eu ainda lido com tais consequências. Ainda tenho muitas perguntas não respondidas, sentimentos não correspondidos, sonhos frustrados, situações engatadas na garganta… ainda vai custar um tempinho para digerir tudo. Talvez seja melhor deixar assim mesmo por enquanto, até o tempo curar o que ainda tem que ser curado.

Então não vou entrar em detalhes sobre todas as coisas que eu vivi em Amsterdam e porquê ao final de contas a cidade ainda é para mim como a minha casa mais do que qualquer outro lugar na Europa, mesmo que eu não queira estar por ali neste momento (ou talvez até mesmo por isso? Eu como sempre fugindo de mim mesmo…) Eu diria que se pudesse escolher, provavelmente Paris levasse a honra de ser o meu lar do coração aqui no velho continente (nossa, quanta arrogância minha, achar que vai ser uma honra para Paris se eu me instalasse por lá… quem sou eu…). Mas isto nunca aconteceu, porque eu nunca morei em Paris. Então eu diria que Paris é o meu alter-ego urbanístico, é o que eu gostaria de ser, ao passo que Amsterdam é o meu subconsciente, é o que eu sou mesmo sem querer. Eu acho que não estou conseguindo me fazer entender… então eu vou simplesmente tentar demonstrar o meu sentimento em relação a Amsterdam e à Holanda através de três breves passagens, o meu último dia em Belém, no Brasil e na Holanda, e as diferenças entre um e outro.

Quando eu embarquei em Belém em direção a São Paulo, em 1994, eu não olhei para trás. A minha família inteira foi se despedir de mim no aeroporto, mas quando o avião chegou, eu disse adeus a cada um, virei e fui embora. Eu sabia que minha mãe e minha irmã estavam chorando, e eu evitei o olhar delas, que era para eu não cair no choro também. Eu odiava Belém e eu detestava a minha vida por lá. Eu era muito, muito infeliz, e era uma infelicidade solitária, que eu escondia de todo mundo. Eu me escondia do mundo. Então quando eu consegui sair de Belém, eu não quis olhar para trás. Não olhei porque sabia que se eu olhasse eu poderia ficar tentado a desistir, por amor à minha família, e eu não queria desistir, eu queria muito ir embora e nunca mais voltar. Eu estava arrancando as minhas raízes de um lugar que sempre me tratou mais mal do que bem.
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Quando eu embarquei de São Paulo em direção à Amsterdam, eu chorei. A hora que o avião levantou, estava tocando "Corcovado" no rádio de ouvido do avião, e eu pensei no Brasil, e em tudo o que eu estava deixando para trás, e eu chorei. Mas não foi um choro de tristeza, nem de felicidade, nem de alívio. Foi um choro de perplexidade, de medo, de me dar conta que aos 29 anos eu ainda estava tão perdido na vida e tão sem saber o que fazer comigo mesmo, ao ponto de deixar toda uma vida para trás sem ter a menor idéia do que vinha pela frente, apenas pela sensação da necessidade da mudança. Eu tinha que ir embora, eu tinha que fazer algo da minha vida… Eu queria muito vir para a Europa, mas eu também não queria deixar o Brasil… eu não sabia o que eu queria. Aquele choro foi um choro de se dar conta que em 6 anos de São Paulo eu não tinha conseguido me enraizar naquela cidade da qual eu tanto gostava e onde eu me sentia mais bem do que mal. Foi um choro de não saber o que fazer comigo.

Quando eu embarquei de Amsterdam para Madrid, há um ano atrás, eu chorei. E chorei muito. Foi um choro que começou quando eu fechei a porta do meu apartamento, que aumentou no caminho do aeroporto, e que só terminou quando eu já estava a 10.000 metros de altitude, sobrevoando a França. Pela primeira vez eu chorei de tristeza. Chorei por ter me dado conta tarde demais que os 6 anos que eu tinha passado na Holanda me marcaram mais do que eu pensava. Porque se foram apenas 6 anos na linguagem cronológica, foi uma vida inteira na linguagem sentimental. Foi na Holanda que eu aprendi a duras penas a ser adulto, e foi na Holanda que eu vivi até hoje as experiências mais intensas da minha vida, para o bem e para o mal. Eu que estava tão deslumbrado com a idéia de morar na Espanha não me dei conta de que em 6 anos de Amsterdam eu tinha criado em volta de mim uma vida que, ainda que difícil, me fazia feliz ao final, pelo menos naquele exato momento. Eu tinha amigos, eu tinha uma casa, eu tinha um trabalho do que gostava, eu tinha um parceiro, eu tinha uma vida completa. Eu tinha vários problemas, mas eu também tinha várias conquistas. E eu tinha me habituado à minha vida por lá. Eu tinha criado raízes sem nem sequer ter me dado conta, e quando eu senti estas raízes sendo (de novo) arrancadas, eu chorei.

E hoje em dia eu estou aqui em Bruxelas, e aprendi que o melhor para mim (ou talvez seja simplesmente o meu destino, e já que é o me destino o melhor que eu faço é ser feliz com ele mesmo) seja mesmo o de não ter raízes, o de ser um eterno estrangeiro. Estrangeiro eu fui na minha cidade natal, Belém. Estrangeiro eu fui na minha cidade adotiva, São Paulo. Estrangeiro eu fui na minha cidade de criação, Amsterdam. E estrangeiro eu fui na Espanha e continuo sendo aqui na Bélgica. E talvez tenha mesmo que ser assim. E Amsterdam por enquanto é uma passagem da minha vida, uma passagem importantíssima, que de muitas formas determinou o curso de minha vida, e vai continuar determinando por muito tempo. E se foi um lugar que me deu muita coisa boa e muita coisa ruim, eu só posso dizer que atualmente é um lugar do qual sinto muita, muita saudade. Um lugar aonde não preciso estar, mas do qual gosto de pensar como sendo um pouco o meu lar. Como diz Maria Bethania na música de Gil, "se eu morresse de saudade, não poderia dizer, que bom morrer de saudade, e de saudade viver…"

2 comments:

Annix said...

O que importa é que os seus amigos, onde quer que eles morem, vão te acompanhar onde quer que vc esteja. Pronto.

Beth Blue said...

Nossa, me identifiquei enormemente com este texto, é um pouco a estória da minha vida. E Amsterdã pra mim também é tudo isso e muito mais: onde passei os melhores e piores momentos da minha vida, onde enfrentei (e continuo enfrentando) meus fantasmas, onde ri muito e chorei também. E onde continuo morando, há 13 anos! Onde vivi as fases mais importantes da minha vida (inclusive a maternidade), e onde estou começando uma nova fase este ano...

E como bem disse a Anna aí encima, os amigos de verdade te acompanham por toda parte (nem que seja só no coração e na vontade de estar juntos)

regards from Amsterdam...