Wednesday, September 26, 2007

Síndrome de Barbie


Este da foto aí ao lado não sou eu, não (quem me dera…). Mas eu sei de um brasileiro aqui na Europa que, acreditem se quiser, tem um corpo ainda mais escultural. É o Fábio, um conhecido meu que mora também aqui em Bruxelas, depois de ter vivido em Amsterdam. Nós malhávamos na mesma academia e frequentávamos as mesmas festas. Fábio era muito simpático, apesar do corpão de Adónis que provavelmente amedrontava metade dos interessados. Sua origem certamente humilde o tornava uma pessoa absolutamente agradável, em todos os termos. Fábio trabalha como ator e modelo (é assim mesmo…) e malha umas 2 ou 3 horas por dia, todos os dias. Dorme 12horas por dia para compensar. A vida de Fábio é a malhação. Também pudera, é o seu ganha-pão aqui na Europa. Fábio vive viajando pelo continente para fazer fotos, filmes eróticos, apresentar-se em festas e eventos de todo tipo. Fábio vive do seu corpo, através do seu corpo e para o seu corpo. Fábio é o sonho de consumo do mundo gay. Todo mundo quer ter um corpo igual ao dele e ser o sucesso de todas as festas.

Eu nunca cheguei a ter este corpo escultural como o do Fábio ou o do rapaz aí em cima, mas houve uma época na minha vida, há uns 3 anos atrás, em que eu estive muito perto disso. Eu malhava 1 hora e meia, cinco vezes por semana, ou seja, de segunda a sexta, sempre depois do trabalho, religiosamente. Eu tomava de dois a três copos de proteína condensada por dia. Eu me alimentava de acordo com o meu treino, ou seja, o máximo possível de proteínas, para ajudar na construção da massa muscular. Eu também tomava todo o tipo de suplementos vitamínicos que eu encontrasse pela frente. Eu malhava pesado, freneticamente. E sim, eu cheguei a tomar esteróides, como aliás a grande maioria da população gay que frequenta academias de ginástica. Tomei dois ciclos entre 2004 e 2005, que me ajudaram a aumentar na época em quase 4 kilos a minha massa muscular. 4 kilos de massa muscular adicional é muito. Eu estava com um corpo de modelo, a ponto de até eu mesmo não me reconhecer. Pela primeira vez na vida eu chamava a atenção de todos em bares e festas pelo meu visual, e devo admitir que a sensação é inebriante. É maravilhoso quando a gente se sente desejado pela festa inteira.

Eu quando era adolescente me sentia e me achava muito feinho. E eu era mesmo. Eu era alto e magro demais, portanto totalmente desengonçado. Eu era novo demais em relação aos meus colegas de escola (estava um ano adiantado), portanto totalmente tímido e sem graça. Eu tive sérios problemas de acne que me deixaram sequelas, que carrego na face até hoje. Eu usava óculos. Eu tinha (e ainda tenho) o queixo torto. Eu era o nerd perfeito. Eu acho que nos tempos de colegial eu só fugi da gozação total (eu que já tinha sido vítima de chacota no primário) porque eu era o melhor da classe e eu sempre dava cola pra todo mundo que pedisse. Eu era o bonzinho; eu ajudava a tudo e a todos. Eu apresentava trabalhos em grupo nos quais o único que tinha trabalhado de verdade era eu. Eu comprei a minha aceitação com a minha oferta intelectual. Mas isto tudo só funcionava para garantir uma certa tranquilidade, a camaradagem da turma, mas de nada adiantava em relação a conquistas amorosas. Naquela época eu ainda não tinha total consciência da minha homossexualidade (ou se tinha, reprimia) e assim como qualquer outro garoto de minha idade, eu tentava alguma conquista do sexo oposto. Para o meu mais absoluto fracasso. A minha timidez complicava tudo. Eu nunca consegui conquistar ninguém, eu só levava fora atrás de fora, até desistir, literalmente. Eu me lembro até hoje da noite em que eu tirei uma menina pra dançar em uma festa, e ela recusou, disse que não estava com vontade. Cinco minutos depois veio outro carinha, e ela aceitou na hora. E na minha cara. Larissa, era o nome da guria.

Foi com este complexo de inferioridade e esta falta de amor próprio que eu entrei no mundo gay, já com mais de vinte anos, em São Paulo. Ah, pra quê? Se as aparências no mundo dito "normal" contam mais do que a essência, no mundo gay elas não só contam, como ditam e escravizam. Se alguma mulher acha que mulher sofre, é porque nunca se colocou na pele de um gay. O julgamento pela comunidade e a condenação sumária são implacáveis com todos aqueles que não se adaptam ao padrão visual geralmente aceito. Para ser admitido no mundinho gay nós temos que ter peitos, bíceps, coxas, pernas e bundas dignos de um Paulo Zulu, no mínimo. Se tiver um rosto bonito ainda pode relaxar um pouquinho mais, mas se não tiver, tem que compensar com o tórax mesmo. Quem não tem competência, não se estabelece. Vai daí que os gays são em geral os alunos mais bem aplicados das academias de ginástica, e a maioria dos fortões que são vistos pelas ruas e praias de qualquer lugar são gays.

E se no iníciozinho dos anos 90 a cena gay de São Paulo ainda era mais ou menos parecida com a cena hétero, ao longo da década ela foi mudando (ou será que fui eu que mudei?). Vieram as raves, vieram as drogas, vieram as barbies, aqueles grupos de gays hiper musculosos que sempre dançam juntos, sempre sem camisa, sempre abafando. As barbies começaram a ditar a moda nas festas do chamado circuito gay. O grupo que no início era pequeno, foi aumentando, foi aumentando… e de repente você se sentia envergonhado de ir a uma festa se não tivesse coragem de tirar a camisa e mostrar os músculos dilatados. Daí para a obsessão com o corpo e com a aparência física – e com as conquistas sexuais decorrentes, porque esta é na verdade a base de tudo, a boa e velha testosterona - é um pulo. A gente se inscreve em uma academia e pensa que vai malhar três vezes por semana… mas ao chegar lá vê que metade dos frequentadores têm corpos muito melhores que o seu e você quer ter o mesmo corpo, quer fazer sucesso assim como eles em qualquer festa… aquela coisa bem adolescente mesmo da "aceitação pelo grupo", ainda que cronologicamente falando você já devia ter passado desta fase… então você começa a treinar mais, começa a se preocupar cada vez mais com a alimentação, com o programa de treinamento, com as proteínas, creatinas e durabolinas da vida e quando vê, pronto, você já é uma barbie em fase de crescimento.

Este processo em mim até que durou bastante tempo; eu diria que das barbies em processo, fui uma das menos aplicadas. Sim, entrei no mesmo processo de culto ao corpo; sim, passei a controlar a minha alimentação; sim, cheguei ao cúmulo de selecionar as minhas amizades pela aparência mais do que pela essência. Mas algo me incomodava nisto tudo. Ir a festas era divertido, paquerar era ótimo, mas era tudo também muito vazio. Eu sempre gostei de um bom livro, um bom filme e de uma boa conversa, e não me deixei levar muito pela coisa. Melhorei o visual, mas sem neuras, e consegui manter uma distância saudável em relação aos exageros cometidos por boa parte dos meninos. Isto continuou assim até 2003, quando eu, já na Holanda e vendo a minha primeira relação afetiva estável desmoronar, entrei em uma crise de depressão da qual só consegui sair através da malhação. E aí não teve jeito. Eu fui com tudo. Malhei feito um condenado, tomei tudo o que me passou pela frente para ficar mais forte – e até o que eu não devia, fiz tudo o que estava a meu alcance para finalmente chegar ao visual de Apolo. E consegui. Aos 33 anos eu tinha um corpo fantástico. Eu me lembro que uma vez em Barcelona, eu me olhei de longe no espelho e eu não acreditei que era eu mesmo. Mas quem vê a minha foto do Orkut, daquela época, bronzeado em uma praia da Itália, de óculos de sol e corpão sarado, não sabe o turbilhão de emoções que se passava por baixo.

Foi uma época, eu tenho que concordar, divertidíssima. Eu viajei pela Europa me desbundando e me esbaldando na minha recém conquistada versão Deus Grego. A minha preocupação maior era quando seria a próxima festa e onde. E com quem eu voltaria pra casa no final da noite. As conquistas sexuais foram se somando com uma facilidade até então inimaginável. Eu podia realmente ficar com que eu quisesse. Eu me deslumbrei totalmente com aquele mundo de perfeição física e inocuidade mental. Nunca foi tão fácil ser perfeito. Porque no mundo gay de hoje em dia perfeição é isto; ter um corpão de ferro e nada mais. Quem tem; leva os louros da glória. Quem não tem, corre pra academia. E eu, que era o patinho feio, virei o cisne mais belo e cheio de si que já houve um dia.

Esta fase de "barbie em seu apogeu" durou mais ou menos um ano. Em meados de 2005 eu conheci o meu atual parceiro, M, e nossa relação teve um início pra lá de atribulado, o que complicou o meu cotidiano e me tirou da rota física e mentalmente (Deus escreve certo por linhas tortas? Será que Deus existe?). Além disso tive um problema no ombro direito, causado por excesso de treinamento, e tive que deixar os pesos e ferros de lado por 6 meses. Mas até aí eu ainda estava conseguindo controlar a situação. Só que paralelamente a isto, uma espiral de negatividade que se instaurara na minha vida (retorno de Saturno?) – e que pelo jeito felizmente já se foi, afetou a minha saúde e o meu auto controle. Em um período de igualmente um ano, eu praticamente perdi tudo o que até então tinha conquistado. A breve passagem pela Espanha e a chegada na Bélgica sem um tostão no bolso foram o golpe final na minha carreira de barbie. A mistura de falta de estabilidade, falta de dinheiro, falta de motivação e excesso de problemas é mortal para quem quer estar com o corpo em dia, e eu não fugi à regra. A minha condição física se deteriorou a tal modo que no início deste ano, por ocasião de uma visita à minha querida amiga A, em Amsterdam, a sua primeira frase foi "Nossa, mas o que aconteceu com você?" Eu havia perdido quase 10 quilos e estava acabado.

De lá para cá, foi um lento mas positivo e incontornável retorno à boa forma física e mental, desta vez sem neuras. Barbie nunca mais, mas isto não quer dizer que eu não tenha que me preocupar com a minha aparência. Aparência conta no mundo em que vivemos e esta é uma verdade da qual não se pode fugir. Mas principalmente, é sempre bom quando a gente se sente bem consigo mesmo. Voltei a malhar, desta vez não mais 5, 6 vezes por semana como antigamente, mas 3 vezes por semana, e acho que está de bom tamanho. Voltei a tomar os meus shakes de proteína, mas é o único suplemento que uso. E principalmente, recuperei o meu tempo livre, antes dedicado exclusivamente à malhação, para a prática de outras atividades tão ou mais saudáveis, como a leitura. Atualmente sei que posso ir a uma festa se quiser e posso tirar a camisa e não vou fazer feio, mas também não vou fazer nem a metade do sucesso que eu fazia em 2004. E tudo bem. Sei que posso me divertir igualmente lendo um bom livro, assistindo a um bom filme, ou jantando com amigos. Quero estar bem comigo mesmo e isto é o mais importante. E quero poder chegar em um dia como hoje, em que eu deveria ir à academia (eu normalmente vou às segundas, quartas e sextas), e simplesmente poder dizer a mim mesmo que hoje eu não vou porque não estou a fim. Simples assim.

Resumindo, eu quero ter um corpo legal e uma aparência saudável, mas não quero entrar na Síndrome de Barbie. Sei que nem sempre é fácil resistir à tentação de entrar no circuito outra vez, principalmente quando vou à academia e vejo aqueles corpos maravilhosos desfilando à minha frente ( e eu sei exatamente o quanto custa chegar lá). Afinal de contas eu não sou nenhum velhinho escrevendo a minha autobiografia, eu tenho apenas 36 anos, isto aqui é apenas um blog e eu ainda devo ter muito o que vivenciar. Quem sabe o auge da minha forma física ainda está por vir? Mas quero me controlar para que o culto ao corpo não vire neura. Eu tenho que me lembrar que ser gostosão é delicioso, mas não é fundamental. Been there, done that… Posso passar sem isto. Não preciso mais ser o sucesso da festa. Aliás, nem sequer preciso mais ir a festas.

Ah, mas que foi bom enquanto durou, isso foi.

4 comments:

Annix said...

Ótimo o post. Mas o mundo gay não se restringe às barbies, né? Os meus amigos que nunca embarcaram na neura do corpo (a maioria) são os que acabaram encontrando alguém maravilhoso pra casar e estão felizes. Sem brincadeira, gordinhos ou magricelas, eles estão TODOS casados e apaixonados. E quando estavam solteiros também não ficavam sozinhos não. É questão de círculos, barbie geralmente só gosta de barbie.

Quanto a vc, sempre te achei uma mistura curiosa. Nunca tinha visto alguém tão introspectivo com corpão :)

Labelle® Paz said...

Meu melhor amigo é gay e não se inclui nesse padrão Barbie. Já teve um casamento de oito anos, se separou e está casado novamente com outro cara extremamente gente boa e muito bonito. Nunca fica sozinho. Nunca teve corpão (é bem gordinho) e realmente não é nenhum padrão de beleza. Mas faz sucesso e é um cara espetacular. Meu xodó!

Concordo com a Annix sobre os círculos. Barbie frequenta lugares onde outras Barbies estão... Patricinhas onde Mauricinhos estão.. Os nerds onde nerds estão e por aí vai...

Twanna A. Hines | FUNKYBROWNCHICK.com said...

Hey Antonio,

I don't speak Portuguese, so I don't know what this post says. But, I just wanted to drop by and say hi and say the guy is this photo is HOT HOT HOT!!! :)

Me

Unknown said...

Pois é...Acho injusto dizer que os gays sofrem mais pela aparência do que as mulheres.Acho que sofrem igual. A mulher, meu caro irmão, tb tam que ficar com os peitos em cima, bumbum lisinho,barriga sarada, exatamente como vcs. E para isso, enfrentamos todos os tipos de cirurgia, lipos dolorosíssimas,exercícios que parecem torturas, corridas,massagens, drenagens, fora que a gente depila tudo ( vc não imagina o quanto dói), das pernas à sobrancelha.Cabelo? Só se for liso e escovado, cinturinha de pilão,e sabia que já inventaram permanentes para cílios?CÍ-LI-OS!!!