Tuesday, October 2, 2007

One day in my life


Tem dias em que a gente acha que não deveria ter saído da cama, não é mesmo? Hoje pelo jeito é um dia desses. Estava tendo um sonho delicioso quando acordei… não me lembro mais dos detalhes, mas eu me lembro que estava em um lugar super bonito e confortável, em ótima companhia, e comendo doces maravilhosos… daí o despertador tocou e voltei à minha realidade. 7 da manhã, hora de levantar.

O problema desta época do ano é que começa a fazer frio durante a noite e os dias começam a amanhecer mais tarde, então vai ficando mais difícil de levantar no horário. Isso sem falar na chuva, que cai toda manhã. Estava tão gostoso na cama, enrolado na coberta, fingindo que eu ainda estava no meu sonho, bem longe daqui, bem longe de tudo, bem longe da vida. Enrolei na cama por uma meia hora, o que não costumo fazer nunca (eu sou daqueles que levanta quase que imediatamente após o despertador tocar, não por vontade, mas por senso de responsabilidade… sou crica, mesmo). Parece que a vida resolveu se vingar de mim esta manhã, pela minha insolência em querer desrespeitar o ritmo das coisas.

Primeiro logo de cara uma discussão com M por causa de uma papelada que ele precisava, não encontrava, e resolveu colocar a culpa em mim. Olha, eu não sei se eu deveria estar falando de briga de casal aqui neste blog, (minha querida amiga A, na sua sábia opinião, será que eu estou me expondo? Ainda escrevo a respeito disto, a por vezes tênue linha entre o público e o privado…) mas quer saber de uma coisa? Todo casal tem brigas, quem não tiver ou está mentindo, ou é amor novo (e portanto ainda vai ter) ou tem um sério problema de dominação e submissão a tratar, então não acho que eu esteja falando nada demais. Briga de casal é uma das únicas coisas na vida em que realmente podemos dizer que "faz parte". Então vamos parar com esta história de "somos todos felizes para sempre o tempo todo" e encarar a vida como ela é? Assim como todo mundo, eu e M temos brigas também (felizmente são raras, ultimamente), e como tanto eu como ele somos bastante esquentados quando o assunto é "defender o ponto de vista", o termômetro de casa sobe vários graus quando isto acontece. A de hoje, por um destes motivos básicos e idiotas de briga de casal no mundo inteiro – o stress da correria da manhã, a frustração de não se conseguir fazer o que se tem de fazer no tempo certo, e a necessidade de se encontrar uma válvula de escape, um bode espiatório para os nossos próprios problemas. Ai, que saudade dos meus tempos de solteiro nessas horas. Tem dias em que eu realmente acho que não nasci pra vida de casal. Enfim.

Pois bem, saímos de casa brigados e no caminho eu me dou conta de que na verdade dormi de mau jeito e estou com dor nas costas. Isto aumentado pelo stress da briga, somado ao fato de que eu fui à academia ontem à noite e malhei um pouco mais pesado que de costume. Nada demais, mas eu tenho o péssimo hábito de somatizar o stress, então sempre que me vejo em uma situação estressante acabo com dor muscular em alguma parte do corpo. Pois bem, vou na pressa em direção ao metro porque já estou atrasado, pego um metro lotado de crianças, um grupo de uma escola que deveria estar indo a alguma excursão, umas 30 crianças na faixa etária de 10 anos gritando e pulando dentro do metro, e uma professora – isso mesmo, apenas uma – inconsolável tentando controlar o grupo. Grupo de crianças saindo de excursão é sempre a mesma coisa no mundo inteiro. Não tem lugar pra sentar. Fico no meio das crianças. So nice. Just to remind me why I won´t have kids. Great. Whatever. Suspiro fundo. Desço do metrô e corro até o ponto de ônibus – sim, porque eu ainda tenho um ônibus lotado pela frente, antes de chegar ao escritório.

Ao atravessar a rua vejo que o ônibus já está para chegar e me posiciono bem ao lado da parada, para poder conseguir entrar na frente e arrumar um lugar para sentar. A parada está lotada então estão todos muito próximos uns aos outros. A chuvinha que não pára de cair melhora tudo, ah que gostoso. Chega o ônibus, ele vem com tudo em direção à parada, e não é que ele me bate na cabeça com o retrovisor direito? Foi de leve, nem doeu nem nada, mas só o susto já valeu a encrenca. Podia ter sido sério, ele podia ter quebrado os meus óculos na minha cara. É claro que seguiu-se uma discussão acalorada entre eu e o motorista, ele tentando se eximir do erro e colocando a culpa em mim porque eu estava perto demais da rua (assim como todo mundo), e eu o chamando de imbecil e incompetente e se ele não enxerga direito, isso no meu melhor francês (e eu não estou acostumado a brigar em francês). Todo mundo olha pra mim, eu olho pra todo mundo com uma cara de "so what?" e enfim todos se sentam e voltam à leitura de seus livros, jornais, etc. Por favor, me esqueçam. Humpft. Ônibus assassino.

Pois bem, foi com este espírito – duas discussões inócuas dentro do prazo de uma hora na mesma manhã e logo no iníciozinho – que eu cheguei ao escritório. Sento-me à minha mesa, ligo meu computador, começo a trabalhar, etc, e logo em seguida chega minha colega J, sempre tão simpática, sempre tão alegre, sempre tão falante, sempre tão tagarela, sempre tão insuportável. Eu na busca de paz e calmaria, e J me contando sei lá o quê à exaustão, aos detalhes. Pois bem, J também começa a trabalhar e logo começa a reclamar, porque J tem o agradável hábito de passar o dia inteiro reclamando das tarefas do trabalho, de como isto e aquilo poderia ser melhor e como está tudo uma zona e como era tudo melhor e mais interessante lá onde J trabalhava antes. Eu com a minha delicadeza de elefante respondo: "Ah, J, pára de reclamar, ok? ´É assim e pronto, se você não está satisfeita, vai procurar outra coisa pra fazer". Dá licença que de reclamação já bastam as minhas.

J me olha com uma cara de quem não acredita no que ouviu e eu me arrependo imediatamente das minhas palavras. O problema é que apesar da sua evidente insatisfação diária com o trabalho, e o irritante costume de expressar tudo isto verbalmente durante a jornada, J é sempre um doce, especialmente comigo, é sempre suuuuper simpática, é sempre suuuuper amiga, é sempre suuuuper legal. Todas estas qualidades que tornam uma pessoa adorável na maior parte das vezes, mas definitivamente intragável quando você está de mal com o mundo. Ah, que saco, será que eu tenho o direito por favor de estar de mau humor??? Em todo caso peço desculpas a J pelo meu rompante de antipatia, ela é claro entende porque afinal de contas J é suuuuper tolerante, é suuuuper compreensiva, J é suuuuper tudo.

Ok, chega a hora do almoço e eu finalmente consigo relaxar um pouco. Desço para a cafeteria, chego atrasado, pego uma fila enorme. Escolho o de sempre; prato do dia com sopa e salada de frutas de sobremesa. A atendente até já me conhece, eu sempre almoço lá. Espero a minha vez, na hora de pagar tem duas mulheres na minha frente criando caso por causa de um vidrinho de geléia e de quem ia pagar o quê. Eu sempre gostei da companhia feminina mais do que da masculina, mas se tem uma hora em que eu me sinto um misógino absoluto é na hora da fila da cafeteria. Homem é sempre simples e rápido, eles pedem prato do dia ou prato de massa, pagam, próximo. Mas mulher, não. Elas vêm sempre em grupos (parece que as mulheres aqui têm uma dificuldade enorme em comer sozinhas). Elas nunca sabem o que querem. Quando finalmente escolhem, é sempre algo especial, difícil, demorado. É o prato do dia "mas dá pra trocar a batata por salada?" Essa é clássica. Ou então, "não tem sanduíche de atum? Só de queijo e presunto?" (isso quando já está escrito no cardápio que o sanduíche do dia é de queijo e presunto). Dá pra trocar o presunto? Dá pra esquentar? Pode pedir a sopa sem o prato do dia? Dá pra tirar o molho? A gelatina é dietética? E aqui na agência onde eu trabalho há muito mais mulheres do que homens. Eu sempre tento ir almoçar cedo, porque senão, já sei o resultado: eu acabo passando mais tempo na fila do que comendo.

Enfim, como – até que consigo ter uma agradável conversa durante o almoço com colegas de outra unidade, um mexicano e duas espanholas, me contando sobre seus planos de viagem para o fim de ano e eu contando os meus, e volto para o escritório. M telefona, fazemos as pazes. Melhor assim. O dia continua, estou hoje ocupado o dia inteiro com o trabalho que eu menos gosto, que é controlar o trabalho dos outros. Basicamente eu tenho que controlar todos os contratos já preparados para corrigir os eventuais erros. Tipo caçando em sopa de letrinhas. Checando nomes, valores, datas, cálculos… é uma tarefa de cão, eu tenho que checar tudo minuciosamente, e os erros são muitos (alguém aí já tentou escrever algo como "prefeitura municipal" em húngaro, búlgaro ou grego?) Polgarmesteri hivatal, varos onkormanyzata… são palavras que eu nunca achei que um dia viesse a aprender, mas hoje em dia não só aprendi como corrijo (a propósito, para os curiosos, é tudo em húngaro). Mas pelo menos já estou mais calmo, o mau humor da manhã já passou. Sei que tenho ainda um segundo round de tarefas estressantes após o trabalho, pois ainda tenho que ir ao correio e ao supermercado, então é melhor relaxar mesmo. Ao supermercado porque a geladeira de casa está totalmente vazia, então sem supermercado não tem jantar. Ao correio para responder a uma carta da prefeitura de Amsterdam e tentar explicar para eles pela enésima vez que eu não preciso mais pagar imposto urbano porque já não moro mais lá e nem sequer mais sou o proprietário do apartamento onde eu morava. E claro, eu tenho que juntar cópia de todos os documentos comprovantes. Eles lançam a dívida e a gente é que tem que correr atrás pra provar que está errado, mas tudo bem. Também tenho que enviar cópia do meu passaporte para o meu consultor fiscal porque ele precisa controlar a minha identidade quando do lançamento da minha declaração de imposto na Holanda. Ele já tem cópia da minha cédula de identidade mas aparentemente isso não basta. Quer dizer que o Governo da Holanda não aceita a identificação feita pela cédula de identidade emitida pelo Governo da Holanda? Legal, isso. Ah, esqueci de comentar que eu vou ter que sair correndo pra conseguir chegar no correio antes do horário de fechamento.

Ao chegar em casa, trocar de roupa e ir ao supermercado, depois voltar e preparar o jantar. Aí já serão umas 9 da noite. Tempo pra mim mesmo, hoje? Só se for o tempo que eu gastei escrevendo este post, rapidinho entre um contrato e outro, para descansar a vista… Descansar de verdade, ler um pouco, ver TV que seja? Só em sonho, mesmo…. Pois que para fechar o dia ainda terei que realizar a minha boa ação da semana. A faxineira de casa é romena (vai uma vez por semana), assim como o marido, e nós a convencemos a tentar uma das competições da União Européia para cargos de serviços gerais. Principalmente nesta época, com a recente entrada de Roménia e Bulgária na União, a busca por todo e qualquer tipo de profissional com tais nacionalidades é grande. Pois bem, tanto ela como o marido se inscreveram e ambos passaram na primeira fase. Agora eles têm que introduzir os currículos online, e isso aparentemente é tarefa complicada demais para ambos. Então teremos que ajudá-los. Isto significa que depois de um dia estressante e cansativo como o de hoje (ou será que sou eu que estou chato demais?), eu vou passar a noite ajudando dois romenos a preencher um formulário na Internet. Massa.

6 comments:

Beth Blue said...

Todo casal tem brigas, quem não tiver ou está mentindo, ou é amor novo (e portanto ainda vai ter) ou tem um sério problema de dominação e submissão a tratar, então não acho que eu esteja falando nada demais. Briga de casal é uma das únicas coisas na vida em que realmente podemos dizer que "faz parte". Então vamos parar com esta história de "somos todos felizes para sempre o tempo todo" e encarar a vida como ela é?


Que coincidência, o post de hoje no meu blog foi justamente sobre uma briga que rolou (mas graças a Deus já colocamos os pingos nos iiis)...E sim, briga é normal, o importante não é a briga em si mas como conseguimos (ou não) resolvê-la!

E quanto a se expor demais, como você eu também tenho este mau hábito (como já disse uma vez nossa amiga em comum A.). Um dia a gente aprende, né?

Annix said...

P-Q-P, que dia de cão! Ainda bem que acabou! Eu gritei alto aqui na hora que vc disse que o retrovisor do ônibus te acertou, ai.
Quanto a se expor, acho que briga de casal é tão comum que não é exposição não, é prova de humanidade ;-)

Labelle® Paz said...

Amei o texto e desculpe-me, mas fiquei rindo sozinha, e reconhecendo J no meu trabalho também. Figuras tão dispensáveis e ao mesmo tempo, tão indispensáveis... Acho que de exposição eu nem posso comentar...rs
Boa semana para vc!

Andrea Drewanz said...

Antonio,
tem dias que a gente preferia nem ter acordado. Mas qual a graça também se tudo for sempre perfeito e igual?
O que seria do universo se não fosse o caos?
Bjs.

Unknown said...

dá uma olhada no meu blog hoje, no clip da minha viagem pra Argentina,vc vai gostar...

Unknown said...

Oi Antônio!
Sua irmã fez uma bela propaganda de vc no blog do Alex, por isso eu estou aqui. Não li tudo ainda, estou em pleno horário de trabalho (e com muuuuuuuuito trabalho) , no entanto, pretendo voltar com mais calma. Jà dá para perceber que você gosta de escrever , e o faz muito bem.
Até breve
Um beijo direto da serrinha !