
Quem andar por estes dias pelas ruas de Bruxelas, vai notar que há bandeiras espalhadas por todo o lado. Em todos os bairros, em todo tipo de prédio, em tamanhos variados. O preto-amarelo-vermelho das bandeiras belgas está por toda parte, e principalmente em um belo dia de sol como o de hoje fica difícil de deixá-las passar em branco. Elas estão lá, nas janelas, varandas e portões dos moradores da cidade, para nos fazer lembrar que o país ainda esta sem governo – já são uns quatro meses desde a eleição – e que apesar de tudo a maioria da população é contra o separatismo e não quer o fim da Bélgica. É uma forma de pressão aos políticos locais, para que eles deixem as picuinhas regionais de lado e se concentrem na solução dos problemas nacionais, respeitando a unidade do país.
Eu admiro este tipo de patriotismo. Não gosto de patriotada, ufanismo barato do tipo "nosso país é o melhor lugar do mundo" e coisas assim, porque acho que não há paraíso no mundo e que portanto qualquer lugar pode ser o melhor ou o pior lugar do mundo, dependendo do ponto de vista, até mesmo Bangladesh. Sempre fui crítico demais pra entrar nesta onda, sempre gostei de ser do contra e bancar o advogado do diabo quando alguém começa com este tipo de discurso, seja de que nacionalidade for. Mas eu admiro quando vejo que há um povo com um senso cívico, ainda que mínimo, uma noção de valores comuns e de deveres, sim, deveres (e não apenas direitos) em relação ao lugar onde se vive. O respeito pela cidadania e pela nação. O senso de sociedade civil.
Eu tenho a impressão de que isto é algo que só se conquista, infelizmente, com muitos e muitos anos de história, luta e sofrimento. Acho que estou falando uma tremenda obviedade, mas ainda assim... A Bélgica é um país de história ao mesmo tempo curta e longa. Já no final da Idade Média a região exercia sua influência por todo o noroeste da Europa e Bruxelas chegou na época de Carlos V a ser a sede informal de um vasto império, uma vez que o Habsburguiano rei da Espanha e Imperador do Sacro Império Romano Germânico era natural da cidade flamenga de Gent. Carlos V passava grande parte do seu tempo aqui em Bruxelas, no palácio que atualmente abriga o Museu da Cidade, em plena Grand Place. Mas como nação independente a Bélgica só existe deste 1830, pois foi por muitos anos objeto de disputa entre os governos espanhol, francês e holandês. A História que pode explicar a atual defesa da unidade do país, tão arduamente conquistada, também explica a tensão política entre as duas principais regiões, Flandres e Walonia. Mas é tocante ver a população da capital, Bruxelas, defendendo a Bélgica unida da maneira que encontram, seja com simples bandeiras nas janelas.
Na Holanda também há um enorme senso cívico, acho que ainda maior que aqui. Os holandeses são realmente orgulhosos de seu país (vai entender…), um orgulho que beira a arrogância (quando não extrapola de vez). É só ver a festa nacional, o Dia da Rainha, festejado tradicionalmente em 30 de Abril (embora o aniversário da Rainha atual, Beatrix, seja na verdade em Janeiro). As bandeiras holandesas estão por toda parte, juntamente com elas as fitas cor de laranja que fazem alusão à família real, os Oranje-Nassau. Toda a população se veste de laranja e sai pelas ruas para beber, dançar, festejar. Em um dia de sol (lembrem-se de que estamos falando da Holanda) a festa é contagiante. Os holandeses adoram a família real e adoram o próprio país. Um país que sempre precisou da união nacional para defender a terra de seu inimigo natural número um, o mar. A Holanda é um país que literalmente transformou o que era mar em terra, e isso só pôde ser feito coma união da população em torno de um fim comum. Acho que essa origem do esforço coletivo como única forma de sobrevivência explica em grande parte a forte noção de senso cívico que ali existe. Eu sei que há motivos de sobra para criticar a Holanda e os holandeses, mas eu tiro o chapéu pra eles quando vejo o respeito ao cidadão que por lá existe, o respeito às liberdades individuais que consegue caminhar juntamente com o respeito pela coletividade.
Eu admiro este tipo de patriotismo. Não gosto de patriotada, ufanismo barato do tipo "nosso país é o melhor lugar do mundo" e coisas assim, porque acho que não há paraíso no mundo e que portanto qualquer lugar pode ser o melhor ou o pior lugar do mundo, dependendo do ponto de vista, até mesmo Bangladesh. Sempre fui crítico demais pra entrar nesta onda, sempre gostei de ser do contra e bancar o advogado do diabo quando alguém começa com este tipo de discurso, seja de que nacionalidade for. Mas eu admiro quando vejo que há um povo com um senso cívico, ainda que mínimo, uma noção de valores comuns e de deveres, sim, deveres (e não apenas direitos) em relação ao lugar onde se vive. O respeito pela cidadania e pela nação. O senso de sociedade civil.
Eu tenho a impressão de que isto é algo que só se conquista, infelizmente, com muitos e muitos anos de história, luta e sofrimento. Acho que estou falando uma tremenda obviedade, mas ainda assim... A Bélgica é um país de história ao mesmo tempo curta e longa. Já no final da Idade Média a região exercia sua influência por todo o noroeste da Europa e Bruxelas chegou na época de Carlos V a ser a sede informal de um vasto império, uma vez que o Habsburguiano rei da Espanha e Imperador do Sacro Império Romano Germânico era natural da cidade flamenga de Gent. Carlos V passava grande parte do seu tempo aqui em Bruxelas, no palácio que atualmente abriga o Museu da Cidade, em plena Grand Place. Mas como nação independente a Bélgica só existe deste 1830, pois foi por muitos anos objeto de disputa entre os governos espanhol, francês e holandês. A História que pode explicar a atual defesa da unidade do país, tão arduamente conquistada, também explica a tensão política entre as duas principais regiões, Flandres e Walonia. Mas é tocante ver a população da capital, Bruxelas, defendendo a Bélgica unida da maneira que encontram, seja com simples bandeiras nas janelas.
Na Holanda também há um enorme senso cívico, acho que ainda maior que aqui. Os holandeses são realmente orgulhosos de seu país (vai entender…), um orgulho que beira a arrogância (quando não extrapola de vez). É só ver a festa nacional, o Dia da Rainha, festejado tradicionalmente em 30 de Abril (embora o aniversário da Rainha atual, Beatrix, seja na verdade em Janeiro). As bandeiras holandesas estão por toda parte, juntamente com elas as fitas cor de laranja que fazem alusão à família real, os Oranje-Nassau. Toda a população se veste de laranja e sai pelas ruas para beber, dançar, festejar. Em um dia de sol (lembrem-se de que estamos falando da Holanda) a festa é contagiante. Os holandeses adoram a família real e adoram o próprio país. Um país que sempre precisou da união nacional para defender a terra de seu inimigo natural número um, o mar. A Holanda é um país que literalmente transformou o que era mar em terra, e isso só pôde ser feito coma união da população em torno de um fim comum. Acho que essa origem do esforço coletivo como única forma de sobrevivência explica em grande parte a forte noção de senso cívico que ali existe. Eu sei que há motivos de sobra para criticar a Holanda e os holandeses, mas eu tiro o chapéu pra eles quando vejo o respeito ao cidadão que por lá existe, o respeito às liberdades individuais que consegue caminhar juntamente com o respeito pela coletividade.
Esse sempre foi o meu calcanhar de Aquiles na minha relação com o Brasil, e mais especificamente com a terra onde eu nasci, Belém, já alcunhada por uma amiga da minha sobrinha como "ante-sala do inferno", uma expressão que eu adorei (um dia ainda escrevo mais a respeito, da minha relação com a cidade onde nasci, que não foi nem será nunca a minha cidade natal porque ali eu sempre fui um estrangeiro total). No Brasil quase não se vê bandeiras nas janelas. Também pudera, não há motivo pra isso. Ali há sim um forte senso de patriotada, mas no meu entender o senso de patriotismo é nenhum. Neguinho grita forte quando é para defender as cores nacionais, e ai de quem ouse falar mal do país (porque afinal de contas Deus é brasileiro e todo mundo sabe disso) mas na hora H de se mostrar o respeito pela coletividade, pelo cidadão, pelo indivíduo e pelo todo, fica difícil de encontrar alguém. O desrespeito pela coisa pública no Brasil é flagrante e ultrajante. Vai desde o transeunte que joga o lixo na rua sem qualquer preocupação com o meio ambiente ou com a saúde pública, à jornalista amante de senador que ganha a vida mamando pensão alimentícia dos cofres públicos e posando pra Playboy porque virou notícia. Ou seja, ao invés de tentar se esconder depois do escândalo (vergonha???), não, pelo contrário, escancara mais ainda a própria perniciosidade, o próprio oportunismo. E isso para o puro encantamento da plateia. Eu digo, pior que um Renan Calheiros que entra em um governo somente pra se locupletar são os outros 180 milhões de Monicas Velosos, coniventes com a bandidagem em que se tornou (ou que sempre foi) o país e que só estão procurando uma chance para mamar também. Neste sentido o Brasil é um país repugnante.
Corrupção, escândalos, tráfico de influência, isto tudo tem aqui na Europa também. Certamente em proporções menores que no Brasil, mas também tem. A diferença aqui é que raramente a coisa acaba em pizza, quando descoberta. E principalmente, a população não é conivente com o escárnio, como no Brasil. Um político que é pego com a mão na massa sabe que tem seus dias contados. No Brasil, é só esperar a próxima eleição. Todo mundo esquece, todo mundo vota de novo. Faz parte, diz a cultura local, afinal de contas todo mundo rouba mesmo. Rouba mas faz. Todo mundo rouba porque são praticamente todos ladrões, dentro e fora do governo. E quem não se preocupa em jogar o lixo no cesto de lixo e não no meio da rua, dá uma prova diária da falta de respeito que nutre em relação ao lugar onde mora. Mais um apenas esperando a chance de chegar lá e roubar também. Porque quem não tem respeito para com a própria rua onde mora, jamais conseguirá ter respeito pelo país inteiro. Triste Brasil.
Hoje a minha colega J me perguntou se eu tenho saudades do Brasil. Eu infelizmente tive que responder que não, que e não tenho saudade nenhuma do Brasil. Tenho saudade sim da minha família, dos meus amigos em São Paulo, da natureza e da comida. E pára por aí. Não tenho saudade nenhuma da sociedade brasileira, dos seus cinismos, dos seus falsos ufanismos, da hipocrisia que grassa em todos os níveis. A socidedade brasileira é podre e merecia ser jogada fora no meio da rua, bem emblematicamente, para fazer justiça com o lindo país que poderia ser tudo e não consegue ser nada. Eu sonho com o dia em que isso vai acontecer: o lindo país Brasil, o gigante adormecido, vai acordar, e vai jogar fora no meio da rua a nojenta sociedade brasileira, se livrando de uma vez por todas de todos os Renans e Monicas que povoam o Brasil. Vai sobrar muito pouca gente. Mas pelo menos os que sobrarem, terão a chance de aprender a não mais jogar o lixo na rua, a se respeitarem uns aos outros, e que pode sim ser bonito pendurar bandeiras na janela, por puro patriotismo e sem nenhum risco de pieguice ou ufanismo barato. Neste dia eu vou sentir saudades do Brasil. Sei que é utopia, mas sonhar ainda é de graça.



7 comments:
Soube que teve uma festa brasileira em Paris, para lavar as escadarias da Igreja de Madeleine, tipo como fazem com a do Bonfim, com baianas e tudo. Sabia que um repórter brasileiro que mora lá viu gente deixando garrafa de cerveja na rua, a menos de 50 metros de uma lixeira bem à vista?O repórter que mora há anos em Paris, disse até este momento estava achando a festa meio fake, mas quando viu isso, se sentiu por um instante estar realmente no Brasil. Dizer o quê?
Sonhar que o Brasil se torne um lugar perfeito não ajuda em nada, em termos práticos.
(tá, pode me odiar depois dessa)
... e vc acha realmente que eu iria passar a odiar vc por causa do Brasil? Tá loca, fia? O Brasil não merece tudo isso não... ;-)
Concordo com vc, sonhar não adianta nada em termos práticos... e perfeição não existe em lugar algum... mas aceitar e engolir tudo como se fosse a coisa mais normal do mundo, também não resolve nada.
'ante-sala do inferno' foi a melhor!!!
oi Cacá, te passei um même, que é uma brincadeira entre os blogueiros, os detalhes estão lá na minha página, dá uma olhada e repassa Beijos...
Ma quem disse que é pra aceitar e engolir? Aceitação é importante pra se estabelecer o problema - daí, parte II : fazer algo. Qualquer coisa - de abordar o cara que joga lixo na rua e dar um esculacho a criar ONG, whatever. O que estiver ao alcance. A maioria das pessoas não faz nada pensando "ah, só o meu esforço não vai fazer diferença". Uma hora faz...
Beijo!
Antonio,
Faz tempo que não deixo um comentário aqui.
Leio, mas acabo não comentando. Seus pensamentos são sempre de muita lucidez e fico até constrangida de acrescentar mais alguma coisa.
Concordo com praticamente tudo o que vc escreveu.
Só faltou dizer que o brasileiro adora manifestar seu patriotismo quando está viajando ou quando é Copa do Mundo. Nestes casos adoram ostentar um símbolo verde-amarelo e dizer que é do Brasil.
Agora, aqui, quando a gente precisa de patriotismo de verdade, de gente com garra para lutar e gritar por todas as baixarias que este governo tem deixado rolar... nada acontece. E assim a vida continua.
Concordo com a Annix, se cada um fizesse um pouquinho, já estaria dando sua contribuição por um país melhor.
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