Tuesday, October 23, 2007

Folhas de Outono, e idéias na cabeça


Dia de muito sol e muito frio aqui em Bruxelas. Um belo dia de Outono; as árvores estão todas amareladas, as folhas começam a cair e a luminosidade do sol realça os diferentes tons de verde, amarelo e marrom que vão se substituindo uns aos outros na paisagem floral da cidade. O céu é está completamente azul e não há uma nuvem sequer no céu. Apenas as linhas brancas que os aviões deixam pra trás em seus trajetos ao cruzar o espaço aéreo belga comprometem a monotonia celestial. Intervalo de almoço, estou escutando no rádio a outra de minhas composições prediletas, Pavane, de Fauré, que tenho em um CD, na versão do pianista Bill Evans, também um dos meus CDs favoritos. Essa música me lembra a Espanha, não sei exatamente o porquê. Sempre que a ouço, penso em Madrid e Barcelona. Penso em um amplo apartamento em uma das duas cidades, com uma grande varanda e cortinas brancas balançando suavemente com a brisa. É como se eu morasse neste apartamento, e abrisse as portas da varanda toda vez que a música toca. Freud explica? A verdade é que eu tenho uma certa capacidade de visualisar mentalmente lugares abstratos, e de relacioná-los com situações específicas, que chega aos detalhes. Em sonhos também, sou capaz de sonhar com cidades inteiras, lugares onde nunca estive – e nunca mais esqueço.

Agora me veio à mente a Calle de Ibiza em Madrid, e esta é uma rua que eu conheço, sim. Ela fica perto do Parque Retiro, onde estive uma vez no ano passado procurando apartamento. A Calle de Ibiza é uma rua com uma praça bem ao meio, toda arborizada, um tipo de rua que se vê com frequência nas cidades espanholas, em Buenos Aires ou em Paris, e que me lembra bastante uma das ruas pelas quais passo no caminho para o trabalho aqui na Agência todos os dias. Isso é muito característico daqui de Bruxelas, uma cidade que devido às sucessivas ondas de dominação política e cultural tem aspectos muito variados. Assim temos bairros com a cara da Holanda, outros que mais parecem um pedacinho de Paris, algumas áreas modernosas querendo ser Manhattan (e não conseguindo), e pasmem, há até mesmo áreas que me fazem lembrar as belas e verdes áreas residenciais de Madrid. Sim, há também os bairros onde eu me pergunto se ainda estou na Europa ou se já passei pro outro lado da fronteira turca… enfim, é tudo Bruxelas.

Ontem tive um almoço especial com os meus colegas de departamento. É que o chefe da unidade está mudando de departamento, ele fica aqui na unidade Cidadania até o final de Outubro, e em Novembro passará para a unidade de Cultura. Então ontem fizemos um almoço de despedida, com direito a cartão de lembranças e presente, rateados pelo grupo. Detalhe, eu também estarei mudando de departamento, pois vou acompanhá-lo na missão junto ao departamento de Cultura, de modo que a festa foi para mim também. Ganhei um belo cartão com dedicatória dos meus colegas, uma agenda para 2008 e um CD de música clássica, duplo, com sonatas para violoncelo e piano de Beethoven. Adorei. O local onde o almoço foi realizado era muito interessante. Chama-se Cook and Book, fica no elegante bairro de Woluwe Saint Lambert, em frente ao Woluwe Shopping e ao lado do metro Rodebeek, em uma área nobre da cidade. O lugar é um misto de livraria, loja de discos, loja de artigos domésticos, bar e restaurante. Parece estranho, mas a coisa acaba funcionando, de uma maneira bastante insólita e original. Adorei o local. Pena que é tão longe de casa, eu moro no centro e para chegar no Woluwe é uma boa meia hora de metrô. Não acho que eu vá voltar lá tão cedo, infelizmente. Mas fica a dica para qualquer internauta lusófono que esteja de passagem pela capital Belga.

A parte do restaurante onde almoçamos ficava no meio da livraria, e ao lado da seção de artigos de banho. Assim sendo pudemos almoçar entre livros das literaturas latino-americana e japonesa (aqueles que estavam mais perto da nossa mesa), bem como ao lado de stands com recipientes para sabonete e toalhas de banho. Sobre a mesa, amarrados ao teto, uma série de livros de todas as partes do mundo nos convidavam para um bom momento de descanso e satisfação física e mental. Folheei alguns livros no balcão principal, comi um penne alla rabiata e de sobremesa um petit gateau de chocolate. Na saída ainda dei um pulinho na loja de discos, onde um DJ tocava jazz. Deparei com um CD de Oscar Peterson, bem à minha frente. Oscar Peterson sempre me faz pensar no Outono, não sei porquê. Eu vejo um CD dele e penso no Outono. Por quê isso? Eu penso que pode ser um fruto do meu subconsciente. Talvez alguma vez eu tenha ouvido alguma gravação de Autumn Leaves por Oscar Peterson e a relação se fez na minha cabeça, "Oscar Peterson = Autumn leaves" e uma imagem das folhas de Outono caindo no Central Park de Nova York, é esta a imagem que me vem à cabeça. Muito embora eu nunca tenha ouvido Autumn Leaves por Oscar Peterson enquanto passeava pelo Central Park em um Outono nova iorquino. Isto nunca aconteceu, portanto só pode ser fruto da minha imaginação e nada mais.

Eu acho interessante essa capacidade que algumas músicas têm, de nos remeter a um outro lugar, a uma outra época, a uma simples ideia abstrata que se forma na nossa cabeça, muitas vezes sem que nós mesmos sejamos capazes de saber o porquê. Não é o caso de músicas que nos trazem lembranças específicas. A Rhapsody in Blue por exemplo, da qual comentei em meu último post, faz sempre com que eu me lembre da minha mãe, e já falei o porquê. Mas me lembra também a Nova York e a Paris. Nova York por causa do filme Manhattan, de Woody Allen, e Paris devido ao clássico Sinfonia de Paris, com Gene Kelly. São lembranças causadas por motivos específicos. Mas a música Pavane me faz pensar na Espanha, e eu não sei explicar o porquê. É uma relação que se formou na minha mente sem qualquer motivo aparente, e que não tem como sair. Da mesma forma, toda vez que eu ouço a música "Só tinha de ser com você", eu penso em um apartamento em Copacabana, daqueles típico dos anos 50, com colunas esverdeadas no salão principal, e uma mulher que anda de um canto para o outro da sala, vestindo um daqueles vestidinhos típicos dos anos 60 e com aquele corte de cabelo em coque e tudo o mais. Ok, qualquer música de bossa nova vai sempre me fazer pensar no Rio de Janeiro, mas porquê a imagem que se formou na minha cabeça para registrar isto é um apartamento em Copacabana com colunas verdes no salão principal e uma cantora do B 52´s, é algo que foge à minha compreensão.

Cada ideia que passa pela nossa cabeça… às vezes eu me pergunto qual é a verdadeira distância entre a loucura e a lucidez. Quando é que alguém deixa de ser "normal" e passa a figurar na categoria dos "malucos"? Ou até que ponto imagens gravadas pelo nosso inconsciente vêm `a tona de uma maneira que não sabemos explicar. Uma vez eu estava conversando com um amigo, tempos atrás, e ele me revelou que padece do mesmo mal que eu em relação à duas idéias fixas que tenho, bastante macabras. Eu comentava que eu detestava viajar na saída de emergência de um avião, mesmo apesar do espaço maior para as pernas. Isso porque eu sempre tinha a impressão de que eu ia empurrar a maçaneta e abrir a porta. Mas não é a impressão de que vai haver um acidente e que eu vou ter que abrir a porta. É pior que isso. Eu tenho a impressão simplesmente de que vai me dar uma vontade louca de abrir aquela porta, e eu vou acabar fazendo isso, e provocando o acidente eu mesmo. Ele admitiu que tem o mesmo problema. Outro ponto: eu não gosto de me debruçar em varanda de apartamento alto. Por quê? Não é que eu ache que eu vá cair; nem que eu queira me jogar. É simplesmente a impressão de que eu vou me jogar, mesmo que contra a minha vontade… eu simplesmente não vou resistir à tentação de me jogar. Ele confessou que tem também o mesmo "problema". Eu sei que nem um nem outro nunca vão acontecer, eu nunca vou abrir uma porta de emergência sem necessidade nem vou pular de prédio algum, mas de qualquer modo, são situações que me incomodam.

Eu e minhas idéias loucas na cabeça… uma música que me remete a um país específico sem qualquer explicação, uma vontade de me jogar de uma janela sem que eu tenha qualquer interesse em me matar, os sonhos sequenciados, quase como que em capítulos, a respeito de lugares onde eu nunca estive… acho mesmo que o melhor que eu faço é esquecer isto tudo, e voltar ao trabalho. As folhas de Outono vão continuar a cair, com ou sem Oscar Peterson.

5 comments:

Andrea Drewanz said...

Engraçado...
Eu também tenho algumas "neuras" com relação a varandas de andares altos. Aqui em casa até instalei uma tela de proteção!
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Além da música ser um instrumento para resgatar minhas lembranças, certos cheiros também me remetem a passagens da minha vida (infância, principalmente) que ficaram guardadas na memória.
O sabonete Phebo é um deles.
******
Bjs
:D

Unknown said...

Oi Cacá:
Queria te falar sobre o seu comentário do post O Mundo é Masculino. Não é verdade que o Brasil não ligou e eu acompanhei sim o caso de discriminação do cara que foi tirado do time porque era gay. Na verdade este caso foi até muito mais divulgado que o do juiz, foi parar nas televisões e muita gente se manifestou publicamente contra. O caso do juiz de Sete Lagoas é que não foi muito divulgado, por isso acho importante falar sobre ele agora. Todos os casos de discriminação tem de ser combatidos, e as mulheres tem de ser defendidas da mesma maneira que os gays, os negros ou qualquer pessoa que seja vítima de violência, tanto física quanto verbal.Não concorda?;-)

Antonio Da Vida said...

Oi Julia,
Concordo plenamente! :-) Se for assim mesmo, que bom, espero que o Brasil esteja acordando, finalmente...

***

hmmm, sabonete Phebo, que delícia... lembro do cheiro que saía da fábrica, que ficava perto da casa da minha avó.

XXX/A

Unknown said...

Ei Cacá, lí o seu post e adorei, pelo jeito a loucura é de familia, pois tb tenho uns pensamentos assim malucos...

Unknown said...

Fala Cacá:
Tem uma indicação e uma missão à sua espera lá no meu blog, passa lá. E eu mal vejo a hora de te levar lá no meu bar!!!Beijos,