Tuesday, October 16, 2007

Domingo na feira


Este último final de semana fez sol e tempo bom de novo aqui em Bruxelas. Outono assim é ótimo, eu não tenho problema algum com a rotina de dias de semana chuvosos e finais de semana ensolarados. Pode continuar assim. Então aproveitei o domingo de sol e 15 graus para fazer um passeio que eu quase nunca faço, meio por preguiça, meio por chatice: fui à feira do Midi, a maior feira de rua de Bruxelas, em volta da Gare du Midi. Fica a apenas uns 10 minutos de caminhada do meu apartamento, portanto não posso reclamar que seja longe. Eu evito ir à feira de rua por um motivo muito bobo, mesmo: detesto a confusão e a bagunça que imperam por lá, como aliás na maior parte das feiras de rua mundo afora. Acabo sendo indo ao supermercado, que pode ser mais insosso como ambiente, mas é mais organizado, mas limpo, não tem xepa nem gritaria.

Na Holanda era uma exceção, eu quando morava em Amsterdam morei perto de duas feiras, e ia com muito mais boa vontade à feira do que aqui. Isto porque as feiras na Holanda são mais arrumadas, dá mais gosto de passear do que aqui no caos do Midi. Ah, velhos tempos… em 2002, no segundo ano do mestrado, eu morei em um apartamento lindo, de cobertura, duplex e vista para o Sarphatipark, um belo parque no bairro de De Pijp, um bairro da moda lá em Amsterdam. Era o apartamento de um amigo, que estava trabalhando em uma missão da União Européia na Macedônia, e eu como estudante fiquei tomando conta do apartamento por 6 meses. O apartamento ficava bem pertinho da Albert Cuyp, que é a maior feira de rua da Holanda (dizem os holandeses que é a maior do mundo, mas eu acho que é mentira, já estive em uma feira de rua em Roma que era muito maior). Eu de vez em quando ia passear por lá com duas colegas de mestrado que moravam no mesmo bairro, Nina e Edith. Era sempre muito divertida, a gente via de tudo naquela feira. Fora que a rua inteira é ultra-holandesa, é uma mini Amsterdam, aqueles sobrados em tijolinho se sucedendo um após o outro. E ao final N e E sempre gostavam de vir ao meu apartamento para um café. O meu apartamento fazia um sucesso enorme entre meus colegas, porque era dentre todos os apartamentos da minha turma de mestrado o melhor, e era lá que fazíamos a maior parte das reuniões do grupo. Foi uma época de festas memoráveis.

Depois morei também no Indische Buurt, lá pertinho de onde mora a A.O Indische Buurt era um bairro de imigrantes, uma misturada danada. Na minha rua haviam casaizinhos de holandeses recém casados, famílias turcas enormes, alternativos de todo o tipo, gays em ascensão, professores universitários (inclusive a minha professora de introdução às Relações Internacionais, Marianne, neo zelandeza, figuraça) e um ou outro antilhano que morava do outro lado da rua e ouvia música reggae no volume máximo nas tardes de sábado, a rua inteira ouvia… mas era um bairro divertido na sua multiculturalidade. Pertinho do Indische Buurt havia uma outra feira, a Dapper Markt, uma mini Albert Cuyp, um pouco menos interessante mas ainda assim dava pro gasto. O problema da Dapper Markt era o mesmo da Gare du Midi aqui em Bruxelas (só que aqui elevado à vigésima potência): árabes em excesso.

Eu sei que o que eu acabei de escrever parece de um racismo horroroso, mas não é. Quem me conhece sabe que eu estou longe de ser racista, inclusive já escrevi aqui a respeito. Sempre defendo toda e qualquer minoria (pois afinal eu também faço parte de uma minoria, aliás de uma não, mas de duas). Sempre procuro respeitar o direito de todos. Sempre prefiro acreditar na ideia de que nós todos, independente de sexo, raça, religião ou corte de cabelo podemos sim co-existir pacificamente. Mas tenho que admitir que quando a gente passa a ter que cohabitar diariamente com uma população cujos hábitos e valores são bem diferentes dos nossos, fica difícil de administrar a coisa sem cair no lugar comum do preconceito e da generalização. E principalmente quando esta população aparentemente não se dá ao menor trabalho de tentar adaptar os hábitos e valores pessoais aos hábitos e valores locais. Eu sei que esta população é uma população que não teve acesso à boa educação em seus países de origem. Eu sei que as diferenças no final são muito mais de ordem sócio-econômica que de ordem cultural. Eu quero acreditar que a origem árabe da maioria (que na verdade nem é árabe, "árabe" é modo de falar, os muçulmanos aqui neste canto da Europa são quase todos marroquinos e turcos) não é o motivo pela maneira mal educada, grosseira e suja com a qual esta parcela da população imigrante aqui na Europa se relaciona com vizinhos, com estranhos, com a rua onde vivem, enfim, com o meio ambiente. Mas no final, acaba dando no mesmo, infelizmente. Eu gostaria de acreditar que é tudo um grande preconceito da minha parte… mas quando estive há alguns anos atrás no Cairo e me dei conta de que mesmo os melhores bairros da capital egípcia são de uma imundície digna de Cascão, me dei por vencido. Prédios suntuosos… e as ruas fétidas. É difícil ter que conviver com um povo que tem uma noção de higiene bem diferente da nossa, pra falar o mínimo.

Na rua em que eu morava em Amsterdam metade da população era imigrante muçulmana e a outra metade era holandesa. Basta dizer que o lado holandês da rua estava sempre limpo e arrumado, ao passo que o lado muçulmano estava sempre sujo e emporcalhado. Uma vez eu briguei com um vizinho porque ele resolveu jogar todo o lixo da casa, inclusive móveis caindo aos pedaços, no meio da rua, sem qualquer preocupação com o dia da coleta; ou a natureza do material. O lixo ficou lá no meio da calçada por uns 5 dias. A minha vizinha do andar térreo, holandesa, queria plantar flores na entrada do prédio, mas desistiu, porque a garotada "árabe" (na falta de termo melhor) vinha e destruía tudo sistematicamente. E no meu prédio aqui em Bruxelas vivia até a semana passada uma família de paquistaneses que tratava o espaço público como se fosse a lixeira de casa, ao ponto que uma vez nós mesmos (eu e M) nos vimos obrigados a lavar o elevador para tirar o mau cheiro.

Enfim, não quero generalizar nem entrar em controvérsias, mas o motivo principal pelo qual eu evitava um passeio pela feira du Midi nos domingos de manhã era pela sujeira e bagunça que imperam no local e arredores, ponto de encontro da comunidade muçulmana de Bruxelas. Aquela gritaria, os frutos e verduras amontoados de qualquer jeito em qualquer canto, aquelas mulheres baixinhas passando apressadas com seus carrinhos e seus véus, acotovelando os outros para furar a fila a qualquer custo, aqueles moleques que comem sanduíche e jogam o papel no chão e as mães que não dizem nada… e o aspecto abandonado dos prédios em volta... confusão demais pro meu gosto… confusão que eu sei, é igual à sujeira e bagunça que imperam no mercado do Ver o Peso em Belém do Pará, e no Largo da Concórdia em São Paulo. Lugares que eu sempre evitei, naturalmente. Na Holanda eu gostava de ir à feira da Albert Cuyp, acho que foi a única feira de rua mais ou menos civilizada que eu frequentei. Aqui em Bruxelas tem uma feira ótima de se passear na Place du Chatelain, mas é mais longe de casa, e um pouco afetada demais, já nem parece feira, é uma feira yuppie, onde as pessoas (digo os mauricinhos e patricinhas belgas) vão no final da tarde para tomar um trago, beliscar algo e paquerar. Mas tenho certeza que existem feiras legais mundo afora, autênticas e ao mesmo tempo organizadas, me lembrei de uma agora em Londres, mas esqueci o nome, e tenho certeza de que há outras por aí).

Pois bem, neste domingo estava fazendo sol e bom tempo, eu tinha mesmo que comprar frutas e verduras, então me enchi de ânimo e fui junto com M à tal da feira do Midi. No início a mesma confusão de sempre – lixo por todo lado, feirante gritando pelo melhor preço, a mulherada disputando cada penca de banana como se fosse diamante, criança chorando, enfim… eu estava resignado… até que M quis comprar morangos e disse, "venha comigo, eu sei onde há dos bons". Andamos até um dos cantos da feira, e ali, um pouco separado da confusão, vi um enorme trailer de feira, todo arrumado, todo limpinho, branquinho e iluminado, as frutas todas postas em ordem, os funcionários atentos e educados, os clientes pacientemente esperando a sua vez. Uma coisa. Nem parecia mais que eu estava na feira du Midi. Daí a gente se aproxima e uma das atendentes dispara:

"- Goede Morgen!"

Era o vagão dos feirantes flamengos. Nem precisa dizer que eu fiz o resto das minhas compras todas ali. Olha, esses holandeses e esses flamengos podem ser uns chatos cheios de minhoca na cabeça… mas que eu gosto do senso de limpeza e organização deles, principalmente se comparado ao de outros povos sulistas, ah, eu gosto. Não é questão de ser árabe ou holandês ou flamengo ou brasileiro ou turco ou chinês ou marroquino ou coreano, a procedência do vagão pouco me importa... é questão de limpeza mesmo. Final de semana que vem estarei lá de novo.

1 comment:

Annix said...

DapperMarkt > Albert Cuyp Markt.
O AC praticamente só vende roupas e tranqueiras. A única coisa boa são os peixes.