
É engraçado como há certas coisas que estão tão impregnadas em nossa alma que não saem nunca da gente, mesmo que a gente queira. Religião é assim, pelo menos comigo. É algo que se aprende desde muito cedo, e que acompanha a nossa vida o tempo todo, seja de perto ou de longe. A gente cresce, a gente experimenta uma porção de coisas e se desilude com tantas outras, a gente sai de casa, viaja e e pensa que se livrou das amarras do condicionamento familiar e social, do qual a religião é apenas a arma mais poderosa. E o mundo dá voltas, e voltas e voltas e mais voltas, e assim a nossa vida, e um dia a gente se vê refazendo exatamente os mesmos costumes de quando era criança, e a gente nem sequer sabe o porquê. Faz por osmose, porque nos parece a coisa "certa" a fazer, e seguimos em frente.
Eu nasci em uma família hiper católica. Minha avó materna tem uma estátua de Santo António enorme no quarto, e reza todos os dias pela manhã, quando se levanta. Seu filho, meu tio, leva o nome de António, assim como eu. E todas as filhas têm o nome de Maria, sempre seguido por um nome começando pela letra S. Todos os domingos a minha avó vai à missa das 9 da manhã na igreja de Sant´Anna, uma bela igreja barroca no centro de Belém. Quando eu era criança houve uma época em que eu morava com os meus avós, e todo domingo era dia de missa, sempre contra a minha vontade. Eu e minha irmã detestávamos ter que levantar mais cedo para ir à missa justamente em um domingo, e fingíamos que ainda estávamos dormindo, na tentativa de ser poupados. A minha avó andava de um lado para o outro na sala do pequeno apartamento onde morávamos, enquanto se preparava para a missa, e reclamava sozinha "esses meninos não querem ir a missa, eles vão crescer ateus!" Às vezes ela deixava passar, mas na maior parte dos casos ela não se conformava, ia lá e nos acordava, e nos empurrava com ela para a missa. A igreja era linda, mas eu tinha medo de uma estátua de Cristo enorme que havia bem na entrada, carregando a cruz. E havia também uma estátua de Verónica, ao lado, que me impressionava muito, e uma de Sant´Anna, é claro, mais ao fundo. Eram tantas estátuas e imagens de santos dentro e fora da igreja…
Minha mãe já não era tão católica assim, ela nunca ia à missa. Mas em todo caso tinha, como tem até hoje, uma fé católica muito grande. Quando criança, ia sim à missa com a minha bisavó, e no caso dela era pior, porque a missa era às 5 da manhã. Acho que isso deve ter cansado a minha mãe, ela raramente ia à missa depois de adulta. Mas até hoje ela sabe cantar uma música em latim, que aprendera na época de criança, e que começa com algo como "tantum ergum sacramentum…". Isso ficou gravado pra sempre na memória da minha mãe. Minha tia Sílvia, que é para mim e minha irmã como uma segunda mãe, era mais aplicada, ela ia mais frequentemente à igreja, no seu caso a igreja de Santo António, perto do apartamento onde ela morava. E minha tia organizava também as novenas de Nossa Senhora na época do Círio de Nazaré. A imagem da santa ia até a casa dela e havia uma reza conjunta, todas as irmãs e primas e amigas e vizinhas da minha tia rezando juntas em volta da estátua da Virgem Maria.
Eu fiz o ginásio em colégio católico, o Colégio Marista de Belém, e como o nome já indica, a devoção à Maria é enorme naquela escola. Para mim foi um pouco estranho no início de me habituar à rotina de aulas de religião e missas regulares dentro da escola, eu que tinha feito o primário em uma antiga escola americana, presbiteriana de origem e laica de fato. Havia também uma igreja naquela escola, mas ela era simples e estava sempre fechada. Já a igreja do Colégio Nazaré, o Marista, era ampla, bonita, estava sempre ornamentada e ali haviam missas frequentes. Eu me lembro do funeral de um colega de escola, o André, que morreu em um acidente de carro aos 15 anos, e de como me impressionou o aspecto desolado do pai dele, que chorava sem parar, olhando para a imagem da Virgem Maria e provavelmente se perguntando "por quê"?
E como o meu colégio era católico e era marista, participava todos os anos da procissão do Círio de Nazaré, que quem acompanha o blog da minha irmã ("tudo o que eu aprendi", veja o link ao lado) já sabe que se trata da maior manifestação religiosa do mundo, e já sabe que é uma data que não passa incólume a nenhum paraense, onde quer que ele esteja no mundo. Eu adorava participar da procissão, e ia todos os anos no bloco da escola. No dia marcado – sempre o segundo domingo de Outubro - eu acordava mais cedo, punha o uniforme, e tomava o café da manhã reforçado que a minha mãe preparava. Daí a minha mãe me dava carona até o local mais perto da aglomeração. E de lá eu seguia sozinho, a pé, primeiro até o início da romaria, depois já dentro do bloco da escola, acompanhando a procissão inteira até o fim. Uma época da qual eu tenho muitas saudades, e a minha mãe certamente, mais ainda. Tenho a impressão de que os nossos pais, ou as nossas mães pelo menos, nunca conseguem aceitar totalmente o fato de que os filhos cresceram e se foram, a viver suas vidas.
Pois eu cresci e me fui, e nunca mais fui à missa, e fui me decepcionando com a igreja católica, e fui me desligando aos pouquinhos. Mas a devoção à Nossa Senhora persistia. Em São Paulo eu sempre procurava ir a uma igreja qualquer na época do Círio, só para sentar e rezar e agradecer por tudo e pedir proteção por mais um ano. Eu morava perto da Catedral Ortodoxa, no Paraíso, então era ali mesmo que eu ia, sem em importar de estar na igreja "errada". Ia, rezava, e saía. Fiz isto durante todos os anos em que morei na capital paulista. Eu não ia nunca à missa, mas eu sempre rezava para Nossa Senhora na semana do Círio.
Depois, na Holanda, minha vida deu tantas reviravoltas e tudo mudou tanto… eu entrei em contato com a calvinista mentalidade holandesa, a mais materialista do mundo, dominante em um belo país onde já não há mais igrejas, uma vez que metade da população é oficialmente ateísta e as igrejas fecharam por falta de público, tornando-se museus, salas de recepção, escritórios. E aprendi a duvidar da existência de Deus, pois não consigo entender um "Deus" que permita tanta injustiça e tanta miséria neste mundo infeliz. Se fosse mesmo Deus teria que ser piedoso e se fosse piedoso não permitiria tudo isso, nem que seja a título de lição. Porque uma coisa é deixar o próprio filho sem comer um dia para aprender o valor da comida, outra coisa é deixar ele morrer de fome. Se não tem piedade de nós, não merece ser Deus.
E aprendi algumas coisas sobre a filosofia budista, que me parece racionalmente falando a mais correta (sublimação do desejo, me parece mesmo a única chave para se alcançar a paz de espírito), e me desiludi ainda mais com a igreja católica, e passei por momentos difíceis onde eu perguntei ao Deus que todos adoram "por quê?" E nunca obtive resposta porque este Deus é cego e surdo e mudo. E como diz me amiga A, deixei de acreditar em religião, pelo simples motivo de que deixei de procurar respostas. Simplesmente procuro aceitar a vida como ela é e com o que ela nos traz; tento aproveitar ao máximo possível os momentos bons, e tento conviver com os momentos ruins. Não sei o que vem depois, e nem quero saber. A vida é aqui e agora, e não na eternidade. É, de nada adiantaram a insistência e a preocupação de minha avó. Eu virei ateu da mesma forma. Vai ver, estava escrito nas estrelas.
E eis que estou em Bruxelas, e essa é a semana do Círio, e apesar de mim e de tudo e de todos, me deu uma vontade enorme de ir a uma igreja e agradecer à Virgem Maria, a Santo António e a Jesus Cristo por tudo de bom que eu possa ter conseguido este ano, e proteção em relação a tudo de ruim que venha a acontecer. Assim, sem mais nem menos. E não tinha feito isso ainda, até que hoje, ao ir ao banco no horário de almoço, passei por uma igreja simpática, toda de tijolinho e de uma torre só, em frente a uma pracinha, igual à igreja com a qual eu sonhei por anos a fim, tempos atrás (já contei a alguém a respeito,). E eu resolvi entrar na igreja. Entrei, acendi uma vela, e parei e me sentei e rezei. E senti então uma paz renovadora. É, eu não sou mais católico, aliás, eu abomino a igreja católica. É, eu tenho dúvidas da existência de Deus. É, eu paquero com o budismo. É, eu não procuro mais respostas e tento aceitar a vida como ela é, de forma que religião é algo que se tornou descartável para mim. Mas a minha fé na Virgem Maria é de alguma forma irracional totalmente indestrutível. Por mais que eu tenha tentado, eu não consigo me livrar dela. E nem quero. Pelo contrário. Quero agradecer a ela por tudo de bom que me tenha acontecido, e quero pedir a ela a proteção contra tudo de ruim. Quero a piedade que Maria encarna, melhor que qualquer outro símbolo religioso. Porque se por um lado Deus é insensível às nossas dores, por outro a dor de Maria é uma dor muito humana, uma dor concreta, palpável, e terrível. E se eu tenho piedade por Maria, ela há de ter por mim também.
Eu nasci em uma família hiper católica. Minha avó materna tem uma estátua de Santo António enorme no quarto, e reza todos os dias pela manhã, quando se levanta. Seu filho, meu tio, leva o nome de António, assim como eu. E todas as filhas têm o nome de Maria, sempre seguido por um nome começando pela letra S. Todos os domingos a minha avó vai à missa das 9 da manhã na igreja de Sant´Anna, uma bela igreja barroca no centro de Belém. Quando eu era criança houve uma época em que eu morava com os meus avós, e todo domingo era dia de missa, sempre contra a minha vontade. Eu e minha irmã detestávamos ter que levantar mais cedo para ir à missa justamente em um domingo, e fingíamos que ainda estávamos dormindo, na tentativa de ser poupados. A minha avó andava de um lado para o outro na sala do pequeno apartamento onde morávamos, enquanto se preparava para a missa, e reclamava sozinha "esses meninos não querem ir a missa, eles vão crescer ateus!" Às vezes ela deixava passar, mas na maior parte dos casos ela não se conformava, ia lá e nos acordava, e nos empurrava com ela para a missa. A igreja era linda, mas eu tinha medo de uma estátua de Cristo enorme que havia bem na entrada, carregando a cruz. E havia também uma estátua de Verónica, ao lado, que me impressionava muito, e uma de Sant´Anna, é claro, mais ao fundo. Eram tantas estátuas e imagens de santos dentro e fora da igreja…
Minha mãe já não era tão católica assim, ela nunca ia à missa. Mas em todo caso tinha, como tem até hoje, uma fé católica muito grande. Quando criança, ia sim à missa com a minha bisavó, e no caso dela era pior, porque a missa era às 5 da manhã. Acho que isso deve ter cansado a minha mãe, ela raramente ia à missa depois de adulta. Mas até hoje ela sabe cantar uma música em latim, que aprendera na época de criança, e que começa com algo como "tantum ergum sacramentum…". Isso ficou gravado pra sempre na memória da minha mãe. Minha tia Sílvia, que é para mim e minha irmã como uma segunda mãe, era mais aplicada, ela ia mais frequentemente à igreja, no seu caso a igreja de Santo António, perto do apartamento onde ela morava. E minha tia organizava também as novenas de Nossa Senhora na época do Círio de Nazaré. A imagem da santa ia até a casa dela e havia uma reza conjunta, todas as irmãs e primas e amigas e vizinhas da minha tia rezando juntas em volta da estátua da Virgem Maria.
Eu fiz o ginásio em colégio católico, o Colégio Marista de Belém, e como o nome já indica, a devoção à Maria é enorme naquela escola. Para mim foi um pouco estranho no início de me habituar à rotina de aulas de religião e missas regulares dentro da escola, eu que tinha feito o primário em uma antiga escola americana, presbiteriana de origem e laica de fato. Havia também uma igreja naquela escola, mas ela era simples e estava sempre fechada. Já a igreja do Colégio Nazaré, o Marista, era ampla, bonita, estava sempre ornamentada e ali haviam missas frequentes. Eu me lembro do funeral de um colega de escola, o André, que morreu em um acidente de carro aos 15 anos, e de como me impressionou o aspecto desolado do pai dele, que chorava sem parar, olhando para a imagem da Virgem Maria e provavelmente se perguntando "por quê"?
E como o meu colégio era católico e era marista, participava todos os anos da procissão do Círio de Nazaré, que quem acompanha o blog da minha irmã ("tudo o que eu aprendi", veja o link ao lado) já sabe que se trata da maior manifestação religiosa do mundo, e já sabe que é uma data que não passa incólume a nenhum paraense, onde quer que ele esteja no mundo. Eu adorava participar da procissão, e ia todos os anos no bloco da escola. No dia marcado – sempre o segundo domingo de Outubro - eu acordava mais cedo, punha o uniforme, e tomava o café da manhã reforçado que a minha mãe preparava. Daí a minha mãe me dava carona até o local mais perto da aglomeração. E de lá eu seguia sozinho, a pé, primeiro até o início da romaria, depois já dentro do bloco da escola, acompanhando a procissão inteira até o fim. Uma época da qual eu tenho muitas saudades, e a minha mãe certamente, mais ainda. Tenho a impressão de que os nossos pais, ou as nossas mães pelo menos, nunca conseguem aceitar totalmente o fato de que os filhos cresceram e se foram, a viver suas vidas.
Pois eu cresci e me fui, e nunca mais fui à missa, e fui me decepcionando com a igreja católica, e fui me desligando aos pouquinhos. Mas a devoção à Nossa Senhora persistia. Em São Paulo eu sempre procurava ir a uma igreja qualquer na época do Círio, só para sentar e rezar e agradecer por tudo e pedir proteção por mais um ano. Eu morava perto da Catedral Ortodoxa, no Paraíso, então era ali mesmo que eu ia, sem em importar de estar na igreja "errada". Ia, rezava, e saía. Fiz isto durante todos os anos em que morei na capital paulista. Eu não ia nunca à missa, mas eu sempre rezava para Nossa Senhora na semana do Círio.
Depois, na Holanda, minha vida deu tantas reviravoltas e tudo mudou tanto… eu entrei em contato com a calvinista mentalidade holandesa, a mais materialista do mundo, dominante em um belo país onde já não há mais igrejas, uma vez que metade da população é oficialmente ateísta e as igrejas fecharam por falta de público, tornando-se museus, salas de recepção, escritórios. E aprendi a duvidar da existência de Deus, pois não consigo entender um "Deus" que permita tanta injustiça e tanta miséria neste mundo infeliz. Se fosse mesmo Deus teria que ser piedoso e se fosse piedoso não permitiria tudo isso, nem que seja a título de lição. Porque uma coisa é deixar o próprio filho sem comer um dia para aprender o valor da comida, outra coisa é deixar ele morrer de fome. Se não tem piedade de nós, não merece ser Deus.
E aprendi algumas coisas sobre a filosofia budista, que me parece racionalmente falando a mais correta (sublimação do desejo, me parece mesmo a única chave para se alcançar a paz de espírito), e me desiludi ainda mais com a igreja católica, e passei por momentos difíceis onde eu perguntei ao Deus que todos adoram "por quê?" E nunca obtive resposta porque este Deus é cego e surdo e mudo. E como diz me amiga A, deixei de acreditar em religião, pelo simples motivo de que deixei de procurar respostas. Simplesmente procuro aceitar a vida como ela é e com o que ela nos traz; tento aproveitar ao máximo possível os momentos bons, e tento conviver com os momentos ruins. Não sei o que vem depois, e nem quero saber. A vida é aqui e agora, e não na eternidade. É, de nada adiantaram a insistência e a preocupação de minha avó. Eu virei ateu da mesma forma. Vai ver, estava escrito nas estrelas.
E eis que estou em Bruxelas, e essa é a semana do Círio, e apesar de mim e de tudo e de todos, me deu uma vontade enorme de ir a uma igreja e agradecer à Virgem Maria, a Santo António e a Jesus Cristo por tudo de bom que eu possa ter conseguido este ano, e proteção em relação a tudo de ruim que venha a acontecer. Assim, sem mais nem menos. E não tinha feito isso ainda, até que hoje, ao ir ao banco no horário de almoço, passei por uma igreja simpática, toda de tijolinho e de uma torre só, em frente a uma pracinha, igual à igreja com a qual eu sonhei por anos a fim, tempos atrás (já contei a alguém a respeito,). E eu resolvi entrar na igreja. Entrei, acendi uma vela, e parei e me sentei e rezei. E senti então uma paz renovadora. É, eu não sou mais católico, aliás, eu abomino a igreja católica. É, eu tenho dúvidas da existência de Deus. É, eu paquero com o budismo. É, eu não procuro mais respostas e tento aceitar a vida como ela é, de forma que religião é algo que se tornou descartável para mim. Mas a minha fé na Virgem Maria é de alguma forma irracional totalmente indestrutível. Por mais que eu tenha tentado, eu não consigo me livrar dela. E nem quero. Pelo contrário. Quero agradecer a ela por tudo de bom que me tenha acontecido, e quero pedir a ela a proteção contra tudo de ruim. Quero a piedade que Maria encarna, melhor que qualquer outro símbolo religioso. Porque se por um lado Deus é insensível às nossas dores, por outro a dor de Maria é uma dor muito humana, uma dor concreta, palpável, e terrível. E se eu tenho piedade por Maria, ela há de ter por mim também.



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