
Mudei o nome do blog. Aliás, não mudei, apenas o adaptei. No início era só Eternal Chaos of the Critical Mind, em alusão ao filme do qual já falei, até porque no início eu pensei que eu fosse escrever em inglês. Assim eu poderia me comunicar não só com amigos e parentes no Brasil e brasileiros no exterior, mas também com todos os meus amigos estrangeiros que não dominam a língua de Camões. E também porque de alguma forma 7 anos de vida no exterior e outros tantos convivendo com estrangeiros dentro de casa (um dia explico) transformaram o inglês para mim em uma forma muito especial de primeira língua estrangeira; eu diria que em alguns casos chegaria mais perto do título de segunda língua mãe. Não que o meu domínio da língua de Shakespeare seja fabuloso, estou bem aquém disto e tenho consciência das minhas limitações. Mas é que de alguma forma, sobre alguns assuntos, é mais fácil para mim escrever em inglês do que em português. Para falar de meus sentimentos, por exemplo. Parece incrível, mas eu acho que eu consigo expressar os meus sentimentos melhor em inglês, ainda que seja um inglês de estrangeiro, que em português. Isto porque a maioria dos meus relacionamentos até hoje foi com estrangeiros. Eu me sinto estranhamente falso quando tento falar de meus sentimentos em português. Na minha mente não cola.
Mas no final o amor à língua pátria falou mais alto e eu acabei optando pelo português mesmo, e desde então tem sido um exercício de linguagem para mim, este de escrever em português. Estava desacostumado. Desde as minhas provas na faculdade de Direito, e lá já vão uns bons 15 anos, que eu não escrevia textos longos ou realmente "pensados" em português. Na Arthur Andersen eu era considerado como tendo nível de inglês alto, e portanto só me davam textos de consultoria mais elaborados pra escrever quando era em inglês, ou para traduzir do inglês. Eu tinha até um dicionário de termos técnicos, que me ajudou muito na época, acho que está em uma das minhas caixas de livros espalhadas pelo mundo. Depois quando saí da Arthur tive uma curta carreira de tradutor e na época utilizei também um dicionário de gírias de inglês, que também tenho até hoje. Depois entrei na Air France e foi o francês que eu comecei a usar, mas o francês falado, coloquial, do dia-a-dia. E então fui para a Holanda, e enfrentei dois anos de mestrado em inglês, e o resultado disto é que também para muitos assuntos didáticos ou ligados à área de Relações Internacionais, eu conheço os termos em inglês e não em português – conceitos como Realism, appeasement, nuclear deterrence, liberal intergovernmentalism… eu não tenho a menor ideia de como se explica isto tudo em português.
Enfim, resumo da ópera, cá estou eu escrevendo em português, deixando de lado os meus amigos estrangeiros e os meus sentimentos mais íntimos e me concentrando no meu rastro verde-amarelo (parafraseando a amiga de uma amiga, uma frase que achei hilária e nunca esqueci), ou o que restou dele. E estou fazendo isto em português do Brasil mesmo, que tem sim muitas diferenças em relação ao português de Portugal. É a mesma língua, isso sem dúvida, mas com inúmeras particularidades. Sei bem disto depois de trabalhar um ano junto com uma colega portuguesa que sentava à minha frente no escritório em Amsterdam e com a qual eu naturalmente conversava em português. A gente se divertia muito no início com as diferenças de linguagem de um e outro, depois nos acostumamos; ela me dizia que tomava o comboio e depois o autocarro para chegar à oficina, e eu respondia que no meu caso para chegar ao escritório (que não é a secretária) eu só tomava um ônibus, pois morava no centro de Amsterdam e portanto não precisava tomar trem, percebeu? Ai que giro, todas estas peculiaridades do português. Estou lendo agora a Trilogia de Nova York do Paul Auster, e estou lendo a tradução para o português, e é o português de Portugal. Eu me divirto lendo o livro e pensando como o tradutor teria escrito tal frase se fosse brasileiro e não português.
E já que estou escrevendo em português, achei que fosse mais natural ter um título em português também. Continuo fiel ao título original, porque se é o primeiro que me veio à cabeça quando resolvi entrar nesta onda chamada blog, é provavelmente por que é o mais fiel àquilo que eu tinha em mente quando resolvi começar a escrever aqui. Mas achei que ficava um pouco estranho, aquele título lá em cima, todo soberbo em inglês, o conteúdo aqui em baixo todo em brazuca mesmo. Então resolvi optar por um título em português também, e fiquei pensando qual título eu poderia usar. Não quis fazer uma mera tradução para o português porque achei que não ia ficar interessante. Pensei como eu poderia traduzir em uma única frase o sentido disto tudo aqui. E de repente o título veio da forma mais natural possível, pois não poderia ser mais óbvio – Papo comigo mesmo, porque este blog nada mais é do que um papo comigo mesmo.
Aqui é o espaço em que eu coloco pra fora todos os meus pensamentos, as minhas ideias, os meus sentimentos, as minhas neuras e encucações, enfim, todos os flashes de inteligência e de loucura, de emoção ou de razão, que povoam a minha mente (aqueles que eu quero publicar, diga-se de passagem, porque tem coisas que é melhor deixar no escuro mesmo… keeping in the darkness what belongs to the darkness). É acima de tudo um papo comigo mesmo. Por que se é claro que eu uso o blog pra me comunicar com a minha família e com meus amigos, o mais correto é que eu o uso primordialmente pra conversar comigo. É uma tentativa de resumir o "eu" em palavras e textos. É a tentativa de traduzir o caos que impera na minha mente, crítica e aberta em relação a quase tudo (ou pelo menos é assim que eu gosto de me definir… posso estar imensamente errado e não passar de um idiota). Eu não tenho nenhuma pretensão literária nem nada do tipo. Isto aqui é apenas um diário de bordo, pensamentos e ocorrências na minha viagem solitária pelo planeta Terra e pela existência que me coube. Como bom Amsterdammer eu atualmente duvido da existência de Deus, vejam só o quão bem ingeburgerd eu estou (sei que pouca gente vai entender o que eu quis dizer aqui…). Mas se é que há algo parecido a um Deus neste Universo, eu acho que ele está um pouquinho dentro da cabeça de todos nós, e sendo assim, arrumar os nossos pensamentos na casa que é o nosso cérebro, seria uma maneira de chegar mais perto deste Deus, e do que for que ele reservou pra gente. E esta arrumação interna é uma experiência que se revela não só necessária, extrair das trevas o que há de luz, mas também um tanto divertida, quando compartida com outras cabeças pensantes, iluminar uns aos outros. E por isto que este é um papo comigo mesmo – mas pode ser com você também, se você quiser.
Mas no final o amor à língua pátria falou mais alto e eu acabei optando pelo português mesmo, e desde então tem sido um exercício de linguagem para mim, este de escrever em português. Estava desacostumado. Desde as minhas provas na faculdade de Direito, e lá já vão uns bons 15 anos, que eu não escrevia textos longos ou realmente "pensados" em português. Na Arthur Andersen eu era considerado como tendo nível de inglês alto, e portanto só me davam textos de consultoria mais elaborados pra escrever quando era em inglês, ou para traduzir do inglês. Eu tinha até um dicionário de termos técnicos, que me ajudou muito na época, acho que está em uma das minhas caixas de livros espalhadas pelo mundo. Depois quando saí da Arthur tive uma curta carreira de tradutor e na época utilizei também um dicionário de gírias de inglês, que também tenho até hoje. Depois entrei na Air France e foi o francês que eu comecei a usar, mas o francês falado, coloquial, do dia-a-dia. E então fui para a Holanda, e enfrentei dois anos de mestrado em inglês, e o resultado disto é que também para muitos assuntos didáticos ou ligados à área de Relações Internacionais, eu conheço os termos em inglês e não em português – conceitos como Realism, appeasement, nuclear deterrence, liberal intergovernmentalism… eu não tenho a menor ideia de como se explica isto tudo em português.
Enfim, resumo da ópera, cá estou eu escrevendo em português, deixando de lado os meus amigos estrangeiros e os meus sentimentos mais íntimos e me concentrando no meu rastro verde-amarelo (parafraseando a amiga de uma amiga, uma frase que achei hilária e nunca esqueci), ou o que restou dele. E estou fazendo isto em português do Brasil mesmo, que tem sim muitas diferenças em relação ao português de Portugal. É a mesma língua, isso sem dúvida, mas com inúmeras particularidades. Sei bem disto depois de trabalhar um ano junto com uma colega portuguesa que sentava à minha frente no escritório em Amsterdam e com a qual eu naturalmente conversava em português. A gente se divertia muito no início com as diferenças de linguagem de um e outro, depois nos acostumamos; ela me dizia que tomava o comboio e depois o autocarro para chegar à oficina, e eu respondia que no meu caso para chegar ao escritório (que não é a secretária) eu só tomava um ônibus, pois morava no centro de Amsterdam e portanto não precisava tomar trem, percebeu? Ai que giro, todas estas peculiaridades do português. Estou lendo agora a Trilogia de Nova York do Paul Auster, e estou lendo a tradução para o português, e é o português de Portugal. Eu me divirto lendo o livro e pensando como o tradutor teria escrito tal frase se fosse brasileiro e não português.
E já que estou escrevendo em português, achei que fosse mais natural ter um título em português também. Continuo fiel ao título original, porque se é o primeiro que me veio à cabeça quando resolvi entrar nesta onda chamada blog, é provavelmente por que é o mais fiel àquilo que eu tinha em mente quando resolvi começar a escrever aqui. Mas achei que ficava um pouco estranho, aquele título lá em cima, todo soberbo em inglês, o conteúdo aqui em baixo todo em brazuca mesmo. Então resolvi optar por um título em português também, e fiquei pensando qual título eu poderia usar. Não quis fazer uma mera tradução para o português porque achei que não ia ficar interessante. Pensei como eu poderia traduzir em uma única frase o sentido disto tudo aqui. E de repente o título veio da forma mais natural possível, pois não poderia ser mais óbvio – Papo comigo mesmo, porque este blog nada mais é do que um papo comigo mesmo.
Aqui é o espaço em que eu coloco pra fora todos os meus pensamentos, as minhas ideias, os meus sentimentos, as minhas neuras e encucações, enfim, todos os flashes de inteligência e de loucura, de emoção ou de razão, que povoam a minha mente (aqueles que eu quero publicar, diga-se de passagem, porque tem coisas que é melhor deixar no escuro mesmo… keeping in the darkness what belongs to the darkness). É acima de tudo um papo comigo mesmo. Por que se é claro que eu uso o blog pra me comunicar com a minha família e com meus amigos, o mais correto é que eu o uso primordialmente pra conversar comigo. É uma tentativa de resumir o "eu" em palavras e textos. É a tentativa de traduzir o caos que impera na minha mente, crítica e aberta em relação a quase tudo (ou pelo menos é assim que eu gosto de me definir… posso estar imensamente errado e não passar de um idiota). Eu não tenho nenhuma pretensão literária nem nada do tipo. Isto aqui é apenas um diário de bordo, pensamentos e ocorrências na minha viagem solitária pelo planeta Terra e pela existência que me coube. Como bom Amsterdammer eu atualmente duvido da existência de Deus, vejam só o quão bem ingeburgerd eu estou (sei que pouca gente vai entender o que eu quis dizer aqui…). Mas se é que há algo parecido a um Deus neste Universo, eu acho que ele está um pouquinho dentro da cabeça de todos nós, e sendo assim, arrumar os nossos pensamentos na casa que é o nosso cérebro, seria uma maneira de chegar mais perto deste Deus, e do que for que ele reservou pra gente. E esta arrumação interna é uma experiência que se revela não só necessária, extrair das trevas o que há de luz, mas também um tanto divertida, quando compartida com outras cabeças pensantes, iluminar uns aos outros. E por isto que este é um papo comigo mesmo – mas pode ser com você também, se você quiser.



4 comments:
Parece incrível, mas eu acho que eu consigo expressar os meus sentimentos melhor em inglês, ainda que seja um inglês de estrangeiro, que em português. Isto porque a maioria dos meus relacionamentos até hoje foi com estrangeiros. Eu me sinto estranhamente falso quando tento falar de meus sentimentos em português.
Fantástico, finalmente alguém que me entende!!! fui casada 10 anos com um inglês e falei inglês em casa todos esses anos (juro que só sei brigar em inglês, rsrsrsrs). E agora ainda arrumei namorado holandês pra embolar ainda mais o meio de campo...às vezes misturo holandês e inglês com ele, porque consigo expressar algumas coisas mais facilmente na língua inglesa.
vida loca de quem mora fora, né? (ainda bem que você me entende).
(aqueles que eu quero publicar, diga-se de passagem, porque tem coisas que é melhor deixar no escuro mesmo… keeping in the darkness what belongs to the darkness).
adorei esta tirada, hehehe ;-)
Genial seu post! Não poderia ter sido melhor escrito. Se vc diz que tem dificuldades em exteriorizar sentimentos em português, imagino como deve ser sua performance em inglês....
Entre tantas reflexões que vc fez, uma me chamou especialmente a atenção e me fez pensar como a gente consegue ajudar o próximo revelando um pouco de nós mesmos...
"E esta arrumação interna é uma experiência que se revela não só necessária, extrair das trevas o que há de luz, mas também um tanto divertida, quando compartida com outras cabeças pensantes, iluminar uns aos outros."
Perfeito! :)
Concordo com a Andrea,
Se vc escreve melhor em inglês, fico imaginando como seriam seus textos.
Um beijo bem grande!
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