
Este final de semana fui a uma cerimônia que mistura mais do que qualquer outra os avanços da sociedade do nosso tempo com as tradições mais arraigadas em nossa cultura: um casamento gay. Foi um amigo de M que se casou com o namorado, com quem já vive junto há mais de dois anos. Na Bélgica, assim como na Holanda e outros países da Europa, o casamento como instituição já deixou de ser somente a união entre um homem e uma mulher, e todo mundo pode casar com quem bem quiser. E assim fizeram Michel e Peter, em grande estilo (que engraçado, acabei de me lembrar que eu também tenho um casal de amigos gays na Holanda que também se chamam Michel e Peter, estes inclusive já estiveram no Brasil e conhecem até mesmo a minha mãe e a minha irmã…).
Pois bem, o Michel e o Peter belgas se casaram no sábado em Sint Pieters Leeuw, uma cidadezinha nos arredores de Bruxelas. A festa durou o dia inteiro. Primeiro houve a cerimônia do casamento civil propriamente dita, na prefeitura da cidade, a qual perdemos porque (infelizmente ou felizmente, sei lá), nos confundimos na leitura do convite. Depois de celebrado o ato, houve a recepção, em uma agradável casa de recepções, que durou a tarde e a noite inteiras. Para começar um breve cocktail, seguido de um almoço à francesa, elegantíssimo, com lugares marcados. Um buffet delicioso composto de entrada, prato principal a base de peixe e camarões, e um bolo de morangos e chocolate branco delicioso de sobremesa. E champagne, muito champagne, champagne para quem quisesse, o dia inteiro. Depois do almoço um ligeiro descanso. No final da tarde, uma pausa para o café, e à noite a festa virou discoteca. No final um ótimo DJ (residente da La Demence, a maior festa gay de Bruxelas, e amigo de Michel) colocou a pista de dança em movimento, e quando nós finalmente viemos embora, já lá pela uma da madrugada, a festa ainda estava a todo vapor.Foi muito bom.
Este não foi o primeiro casamento gay ao qual eu fui. No ano passado eu já tinha ido a um, na Holanda. Klaudyus, um amigo meu, holandês de origem franco-romena, se casava com Renato, brasileiro-italiano. Fizeram uma festa animadíssima em um salão de festas no centro de Amsterdam. A festa era temática, o tema da festa era "Sonho de Uma Noite de Verão" e todos deveriam ir a caráter. Eu e M fomos vestindo camisas coloridas e floridas, e chapéus com arranjos de flores na cabeça. Houve gente com ainda maior criatividade – Becky, inglesa, foi vestida de fada madrinha, literalmente, com asinhas e tudo, e Brian, americano, foi vestido de árvore… só pra dar uma ideia da fauna que povoou a festa, um cocktail regado a muito champagne y otras cositas más. No caso de K e R a cerimônia oficial foi no mesmo salão, de forma que pudemos acompanhar a festa do início ao fim, inclusive um momento lúdico organizado por Brian em que os convidados tinham que responder a perguntas sobre o casal, e vice-versa… algumas perguntas pra lá de picantes, tudo aquilo o que você não espera ouvir em uma festa de casamento. Engraçadíssimo, ousadíssimo, moderníssimo. Independente de ser um casamento gay ou não, a festa de K e R foi sem dúvida uma das mais originais às quais eu já fui convidado.
Mas se a festa de K e R no ano passado primou pela originalidade, a de M e P, embora igualmente divertida e agradável, foi no rumo oposto. No casamento de K e P não havia quase família mas amigos, muitos amigos. Por outro lado, no de M e P haviam todo o tipo de parentes de primeiro, segundo e terceiro grau, muitas tias, muitas velhinhas, muitas crianças. E poucos, bem poucos amigos, eu diria que praticamente só os mais chegados. A festa foi tradicionalíssima. Só faltou vestido de noiva, por razões óbvias. De resto, se não fosse a homossexualidade dos noivos, nada poderia diferir entre esta e uma cerimônia de casamento "normal" (detesto usar esta palavra, porque para mim ninguém é "normal"; mas enfim, é o único meio de me fazer entender).
Eu tenho vários amigos e conhecidos gays espalhados pela Europa ocidental que já são legalmente casados, ou têm planos de se casar. Muita gente tem escolhido pelo meio mais tradicional de se celebrar a vida a dois e eu me pergunto com frequência o porquê disto tudo. Depois da revolução sexual, do feminismo e da emancipação gay aqui na Europa (algo que infelizmente o Brasil ainda está a anos-luz de distância), o que leva um casal de homossexuais a querer celebrar a sua união estável da maneira mais anacrônica possível? Eu estou tentando não colocar nenhum julgamento pessoal de valor na questão, mas quando observamos os índices cada vez maiores de divórcios, mães solteiras e famílias desfeitas, não há como se negar que o casamento como instituição não é exatamente um espelho fiel da sociedade atual. Então por que essa necessidade do papel assinado? Morar junto simplesmente não é bem melhor e mais fácil? Já que hoje em dia a maioria acaba se divorciando de qualquer forma? Posso entender que o casamento seja usado por motivos práticos, como por exemplo para facilitar direitos de herança e de imigração, mas quando estas questões não estão na parada, então qual é a razão para imitarmos nossos pais e avós?
Eu próprio não tenho muita tendência para esta necessidade específica de casar de papel passado. Gosto da vida a dois (também gosto de morar sozinho…), mas assinar papel não é minha prioridade. O que não quer dizer que eu nunca o venha a fazer. Sei que por exemplo M é bem tradicional neste ponto, ele gostaria de passar por tudo isto. Então pode até ser que um dia eu entre de gaiato neste barco, mas será mais por vontade dele do que minha, será mais para agradar a ele do que por necessidade própria. Eu não vejo muito sentido na repetição de rituais de passagem como o matrimônio, batizado, essas coisas. No meu entender melhor seria que vivêssemos de acordo com o nosso tempo, e que ao invés de nos apegar a instituições talvez ultrapassadas, déssemos maior ênfase e importância ao que elas deveriam na verdade representar, qual seja, no caso do matrimônio, a união de dois indivíduos em busca de um objetivo comum, aprendendo a se respeitar mutuamente, e crescendo juntos ao longo da vida. Para não chegar à situação funesta de uma parente minha, casada na igreja e no cartório por 50 anos, e quando lhe perguntaram que tipo de festa gostaria para celebrar o aniversário de bodas, respondeu calmamente "eu não quero nada, porque não tenho nada para comemorar".
Mas a verdade é que bem ou mal há vários gays se casando, e muitos da maneira mais tradicional possível. Cada um deve saber o que lhe faz feliz, e se para os Ks, Rs, Ms e Ps da vida casar no papel na frente da vovó e da titia é o que lhes faz feliz, então que assim o seja. Quem sou eu afinal para dizer o que está certo e o que está errado? E quem foi que disse que é preciso ser moderno para ser feliz (muito pelo contrário, provavelmente)? E afinal de contas, o que é moderno e o que é antigo? De repente casar no papel, com toda esta onda de casamentos desfeitos, homens perdidos e mulheres independentes é mesmo moderníssimo, é o avant-garde avant-tout, é a ironia máxima da pós modernidade. Casar hoje em dia deve ser um ato revolucionário. Vamos todos ousar repetir o modelo à exaustão. Exatamente como os nossos avós. Por que? Eu não sei… mas desconfio que talvez a resposta para esta questão possa ser encontrada na final da festa do sábado, quando em um momento de música, dança e descontração, olhei em volta e me dei conta de que todos ali estavam se divertindo, e muito, desde as mães dos noivos até eu mesmo. Estávamos todos felizes, e curtindo a vida alegremente, sem pensar em problemas ou no dia de amanhã. Um momento raro de felicidade plena. Então deve ser isso, porque se esta festa de casamento, por mais anacrônica e demodé que seja, conseguiu proporcionar a todos nós ali presentes esse momento fugaz de felicidade plena, então esse casamento já valeu muito a pena, pelo menos para nós, convidados. E assim sendo, só posso esperar e torcer para que muitos casamentos como este ainda virão.
Pois bem, o Michel e o Peter belgas se casaram no sábado em Sint Pieters Leeuw, uma cidadezinha nos arredores de Bruxelas. A festa durou o dia inteiro. Primeiro houve a cerimônia do casamento civil propriamente dita, na prefeitura da cidade, a qual perdemos porque (infelizmente ou felizmente, sei lá), nos confundimos na leitura do convite. Depois de celebrado o ato, houve a recepção, em uma agradável casa de recepções, que durou a tarde e a noite inteiras. Para começar um breve cocktail, seguido de um almoço à francesa, elegantíssimo, com lugares marcados. Um buffet delicioso composto de entrada, prato principal a base de peixe e camarões, e um bolo de morangos e chocolate branco delicioso de sobremesa. E champagne, muito champagne, champagne para quem quisesse, o dia inteiro. Depois do almoço um ligeiro descanso. No final da tarde, uma pausa para o café, e à noite a festa virou discoteca. No final um ótimo DJ (residente da La Demence, a maior festa gay de Bruxelas, e amigo de Michel) colocou a pista de dança em movimento, e quando nós finalmente viemos embora, já lá pela uma da madrugada, a festa ainda estava a todo vapor.Foi muito bom.
Este não foi o primeiro casamento gay ao qual eu fui. No ano passado eu já tinha ido a um, na Holanda. Klaudyus, um amigo meu, holandês de origem franco-romena, se casava com Renato, brasileiro-italiano. Fizeram uma festa animadíssima em um salão de festas no centro de Amsterdam. A festa era temática, o tema da festa era "Sonho de Uma Noite de Verão" e todos deveriam ir a caráter. Eu e M fomos vestindo camisas coloridas e floridas, e chapéus com arranjos de flores na cabeça. Houve gente com ainda maior criatividade – Becky, inglesa, foi vestida de fada madrinha, literalmente, com asinhas e tudo, e Brian, americano, foi vestido de árvore… só pra dar uma ideia da fauna que povoou a festa, um cocktail regado a muito champagne y otras cositas más. No caso de K e R a cerimônia oficial foi no mesmo salão, de forma que pudemos acompanhar a festa do início ao fim, inclusive um momento lúdico organizado por Brian em que os convidados tinham que responder a perguntas sobre o casal, e vice-versa… algumas perguntas pra lá de picantes, tudo aquilo o que você não espera ouvir em uma festa de casamento. Engraçadíssimo, ousadíssimo, moderníssimo. Independente de ser um casamento gay ou não, a festa de K e R foi sem dúvida uma das mais originais às quais eu já fui convidado.
Mas se a festa de K e R no ano passado primou pela originalidade, a de M e P, embora igualmente divertida e agradável, foi no rumo oposto. No casamento de K e P não havia quase família mas amigos, muitos amigos. Por outro lado, no de M e P haviam todo o tipo de parentes de primeiro, segundo e terceiro grau, muitas tias, muitas velhinhas, muitas crianças. E poucos, bem poucos amigos, eu diria que praticamente só os mais chegados. A festa foi tradicionalíssima. Só faltou vestido de noiva, por razões óbvias. De resto, se não fosse a homossexualidade dos noivos, nada poderia diferir entre esta e uma cerimônia de casamento "normal" (detesto usar esta palavra, porque para mim ninguém é "normal"; mas enfim, é o único meio de me fazer entender).
Eu tenho vários amigos e conhecidos gays espalhados pela Europa ocidental que já são legalmente casados, ou têm planos de se casar. Muita gente tem escolhido pelo meio mais tradicional de se celebrar a vida a dois e eu me pergunto com frequência o porquê disto tudo. Depois da revolução sexual, do feminismo e da emancipação gay aqui na Europa (algo que infelizmente o Brasil ainda está a anos-luz de distância), o que leva um casal de homossexuais a querer celebrar a sua união estável da maneira mais anacrônica possível? Eu estou tentando não colocar nenhum julgamento pessoal de valor na questão, mas quando observamos os índices cada vez maiores de divórcios, mães solteiras e famílias desfeitas, não há como se negar que o casamento como instituição não é exatamente um espelho fiel da sociedade atual. Então por que essa necessidade do papel assinado? Morar junto simplesmente não é bem melhor e mais fácil? Já que hoje em dia a maioria acaba se divorciando de qualquer forma? Posso entender que o casamento seja usado por motivos práticos, como por exemplo para facilitar direitos de herança e de imigração, mas quando estas questões não estão na parada, então qual é a razão para imitarmos nossos pais e avós?
Eu próprio não tenho muita tendência para esta necessidade específica de casar de papel passado. Gosto da vida a dois (também gosto de morar sozinho…), mas assinar papel não é minha prioridade. O que não quer dizer que eu nunca o venha a fazer. Sei que por exemplo M é bem tradicional neste ponto, ele gostaria de passar por tudo isto. Então pode até ser que um dia eu entre de gaiato neste barco, mas será mais por vontade dele do que minha, será mais para agradar a ele do que por necessidade própria. Eu não vejo muito sentido na repetição de rituais de passagem como o matrimônio, batizado, essas coisas. No meu entender melhor seria que vivêssemos de acordo com o nosso tempo, e que ao invés de nos apegar a instituições talvez ultrapassadas, déssemos maior ênfase e importância ao que elas deveriam na verdade representar, qual seja, no caso do matrimônio, a união de dois indivíduos em busca de um objetivo comum, aprendendo a se respeitar mutuamente, e crescendo juntos ao longo da vida. Para não chegar à situação funesta de uma parente minha, casada na igreja e no cartório por 50 anos, e quando lhe perguntaram que tipo de festa gostaria para celebrar o aniversário de bodas, respondeu calmamente "eu não quero nada, porque não tenho nada para comemorar".
Mas a verdade é que bem ou mal há vários gays se casando, e muitos da maneira mais tradicional possível. Cada um deve saber o que lhe faz feliz, e se para os Ks, Rs, Ms e Ps da vida casar no papel na frente da vovó e da titia é o que lhes faz feliz, então que assim o seja. Quem sou eu afinal para dizer o que está certo e o que está errado? E quem foi que disse que é preciso ser moderno para ser feliz (muito pelo contrário, provavelmente)? E afinal de contas, o que é moderno e o que é antigo? De repente casar no papel, com toda esta onda de casamentos desfeitos, homens perdidos e mulheres independentes é mesmo moderníssimo, é o avant-garde avant-tout, é a ironia máxima da pós modernidade. Casar hoje em dia deve ser um ato revolucionário. Vamos todos ousar repetir o modelo à exaustão. Exatamente como os nossos avós. Por que? Eu não sei… mas desconfio que talvez a resposta para esta questão possa ser encontrada na final da festa do sábado, quando em um momento de música, dança e descontração, olhei em volta e me dei conta de que todos ali estavam se divertindo, e muito, desde as mães dos noivos até eu mesmo. Estávamos todos felizes, e curtindo a vida alegremente, sem pensar em problemas ou no dia de amanhã. Um momento raro de felicidade plena. Então deve ser isso, porque se esta festa de casamento, por mais anacrônica e demodé que seja, conseguiu proporcionar a todos nós ali presentes esse momento fugaz de felicidade plena, então esse casamento já valeu muito a pena, pelo menos para nós, convidados. E assim sendo, só posso esperar e torcer para que muitos casamentos como este ainda virão.



3 comments:
Adoro casamentos sinceros! Amor e festa tem tudo a ver...
E se somos convidados a participar... é ainda melhor!
É uma energia maravilhosa, que contagia a todos.
Quem sabe vc não é o próximo candidato!
Eu conheci meu marido num casamento e estamos juntos até hoje.
Bjs.
Eu estou tentando não colocar nenhum julgamento pessoal de valor na questão, mas quando observamos os índices cada vez maiores de divórcios, mães solteiras e famílias desfeitas, não há como se negar que o casamento como instituição não é exatamente um espelho fiel da sociedade atual. Então por que essa necessidade do papel assinado?
Eu sinceramente não entendo esta fascinação toda com casamentos...Eu mesma nunca fui ligada em tradição e papéis assinados, só casei pra garantir o passaporte britânico do meu filho (quem me conhece sabe bem disso). E não apenas faço parte de um grupo cada vez maior de divorciados como posso dizer que papel não é o mais importante numa relação (e não influi absolutamente em nada - muito pelo contrário).
Fui casada uma vez e prometi a mim mesma que foi a primeira e a última vez!!! Sorte que o namorado pensa exatamente como eu (ele também foi casado antes) então só espero não morder a língua de novo, rsrsrsrs. ;-)
Eu sou uma eterna apaixonada. Acredito na união de duas pessoas que se amam independente de papel, ou de morarem em casas separadas, ou de seguirem todas as "tradições"...
Afinal, o que importa é o sentimento envolvido independente do que a sociedade prega.
Agora, vou confessar: adoro ir a casamentos e todos os rituais da cerimônia... Adoro rever os amigos, adoro o clima, adoro tudo! O último que eu fui, com festas e pompas, foi o meu..... E lá se vão mais de três anos..
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