Tuesday, September 18, 2007

É só uma piada...


Recebi hoje de manhã por e-mail uma piada vinda do Brasil. É uma dessas piadinhas que vai passando de um para o outro via e-mail, despretenciosamente, e em poucos minutos acaba sendo espalhada para o mundo inteiro. Na piada, a iminência de um acidente aéreo faz com que a tripulação decida atirar janela afora parte dos passageiros. A escolha de quem vai ser atirado primeiro é feita pelo comandante, por ordem alfabética. Assim ele vai chamando "Afro", depois "Blacks", depois "Caboclos", "De Cor", "Escuros", e por aí vai. Ao passo que o menininho preto sentado em uma das fileiras pergunta ai pai o que eles são afinal, e o pai responde, apressado " Zulus, meu filho, nós somos Zulus". O título da mensagem que acompanhou a piada era assim: "Racismo – muito boa".

Eu não deveria entrar no mérito da questão, se a piada é engraçada ou não. Eu particularmente não achei muita graça, mas vá lá, pode ser que alguém ache engraçado. O grau de humor de uma piada sempre depende dos ouvidos de quem a ouve, assim como a beleza, ou feiúra, está nos olhos de quem vê. Talvez seja o meu senso de humor que atualmente esteja longe do humor praticado no Brasil. Há alguns anos atrás, quando estive no Brasil pela última vez, eu me lembro de ter visto um episódio da série cômica "Os Normais", com Fernanda Torres e Luís Fernando Guimarães, na época um grande sucesso. Eu me lembro que não achei a menor graça no episódio inteiro. Pelo contrário, cheguei a me sentir constrangido com o baixo teor das propostas humorísticas. O que era para me fazer rir, me irritou. E não achei graça basicamente pelo mesmo motivo que não achei graça agora: todas as piadas tinham um cunho absolutamente discriminatório. Parece que no Brasil só se consegue rir daqueles que se quer discriminar.

Afinal de contas, o que podemos dizer de uma piada que começa com o título "Racismo – Muito boa"? Só pra início de conversa, o que há de bom no racismo?? Como alguém em sã consciência pode escrever tal coisa? Como é que alguém pode achar boa uma piada descaradamente racista? Eu só posso achar que o autor da piada é um louco ou um total idiota. Agora, mais do que isso, eu me sinto incomodado com o fato de que ninguém se incomoda. "Ah, é só uma piada", é o que diz a maioria. Eu sou tachado de chato e radical, aquele que não consegue achar graça de nada. E enquanto isto a piada vai passando alegremente de mão em mão, um e-mail atrás do outro. E a mensagem vai se espalhando facilmente: que não há problema nenhum em rir de alguém só pela sua essência. Seja alguém preto, viado ou judeu, podemos todos atirar pedras e rir, porque afinal, são só piadas.

Eu há alguns anos atrás me indispus com metade dos meus parentes por causa de uma situação decorrente de tais piadas. Nós tínhamos na minha família uma espécie de e-mail de grupo, que era usado para que todos os primos pudessem se comunicar entre si. O problema é que esse e-mail era diariamente invadido por uma série de piadas deste tipo, na minha opinião piadas de puro mau gosto. Alguns primos meus que se esbaldavam com piadas de cunho racista, homofóbico, misógino e fascista. Até que um dia eu reclamei, e enviei um e-mail ao grupo dizendo que tais piadas me onfendiam; que eu as achava de baixíssimo nível e que não queria mais recebê-las em meu e-mail. Ah, por que? Recebi uma onda de críticas. Eu era o crica, o Caxias, o chato que se incomoda com tudo. Eu me calei e nunca mais abri os emails provenientes do grupo.

Será mesmo que são só piadas? Não é por pudor nem por vontade de ser politicamente correto, mas eu me incomodo com tais piadas porque na minha opinião elas apenas reforçam a discriminação. Eu digo que não é justo dizer "ah, mas nós fazemos piadas a respeito de tudo e de todos". Porque as situações não são comparáveis. Pretos, Judeus e gays têm todo um histórico de discriminação que os torna extremamente sensíveis a este tipo de comentário. Como eu me lembro de ter lido uma vez, uma ativista negra que comentava a respeito: rir de pretos, judeus, ou gays, não é a mesma coisa que rir de um piada de loira burra ou uma piada de português. Porque as loiras sabem que não são burras, e os portugueses sabem que não são otários, como as piadas querem nos fazer pensar (até porque se forem, o que será então dos "ishpertus" Brasileiros, colonizados por eles??) Ao passo que os negros serão sempre negros, os gays serão sempre gays, os judeus serão sempre judeus, não há nada o que fazer a respeito. Então no final a piada não foca uma característica hipotética e sabidamente falsa, no caso a burrice da loira ou a idiotia do português. Não, a piada de preto visa simplesmente ao preto na sua negritude, a piada de gay visa ao gay no seu homossexualismo e a piada de judeu visa ao judeu na sua condição religiosa. Não há subterfúgio que justifique a piada, ela vai na essência do ser de quem é discriminado. Você não é mais discriminado por ser hipoteticamente burro ou otário, você é discriminado por SER. Ser quem você é vira motivo de piada.

Quem no Brasil é branco, cristão e heterossexual não sabe o que é ser vítima de discriminação. Para estas pessoas é muito fácil deparar com uma piada destas, rir e a descartar, como se nada tivesse acontecido. "Ah, é só uma piada". Agora quem é vítima de discriminação sabe o quanto dói uma piadinha a mais, no meio de um oceano de piadinhas, disparadas todo o dia através de todos os meios de comunicação, e abertamente aceitas pela sociedade. Todas com a inocente intenção de divertir e nada mais. Inocente uma m*, digo eu. Inocente é acreditar que essas piadas não servem também para reproduzir um modelo de opressão e discriminação contra tudo e todos que fujam à ordem "normal". Ao final, é como se fosse permitido rir de pretos, judeus, gays, e de todos aqueles que sejam de uma forma ou de outra vítimas de discriminação. Tudo em nome da piada. E o que é pior, eles não podem nem sequer reclamar, porque afinal de contas, "são só piadas". Eles é que são chatos de reclamar.

Uma vez, também há anos atrás, em uma novela das oito uma personagem proferiu um comentário negativo em relação à minha cidade natal, Belém do Pará. Tinham falado em tom irônico e desdenhoso que Belém era o fim do mundo, ou algo assim. Eu já morava em São Paulo e fiquei supreso com a reação irada dos meus parentes, os mesmos que tinham me tachado de radical quando eu ousei reclamar de uma das piadas homofóbicas que tinha recebido. Eles estavam indignados, ofendidos, revoltados, e planejavam aderir a um boicote à Globo, por causa da piada. Eu comentei simplesmente: "Ué, por que este alvoroço todo agora? Afinal de contas, é só um comentário de novela… " – "Ah não; mas este tipo de comentário não pode, isto é discriminação pura", foi a resposta. Daí que eu repliquei: "pois quer saber de uma coisa? Eu acho bom que pelo menos uma vez na vida vocês se vejam colocados na posição de discriminados, assim sentem na pele como é, pelo menos uma única vez, e talvez possam aprender algo com isto". Pronto, o mundo caiu. Como é que eu ousava dizer que "achava bom que alguém fosse discriminado"?

Ah, mas é só uma piada.

5 comments:

Unknown said...

Eu já ouvi essa piada muitas vezes por aqui e concordo que ela é extremamente racista. Aliás concordo com tudo o que vc falou.É mais ou menos assim: um dia me perguntaram o que doeria mais se eu soubesse que falaram de mem: gorda, burra ou chata. Daí eu disse que gorda, pois burra eu sei que eu não sou, chata eu até gosto de ser mas se eu estivesse gorda não daria pra fazer nada na hora, só uma dieta depois...
Os portugueses não são burros como as loiras sabem que também não são.Portanto não se incomodam com as piadas. Mas piada que discrimina alguém só pela essência é mesmo o fim. As vezes a gente até ri, sem se lembrar do mal que estamos proferindo. Realmente eu concordo com vc e acho que não dá mais para dizer que não fez por mal. Não fez por mal mas fez, né? As pessoas tem de tomar mais cuidado com o que dizem mesmo, pelo menos isso...

Andrea Drewanz said...

Oi Antonio.
É incrível como as pessoas tendem a perceber o mundo através de sua própria ótica e quase sempre com uma visão unilateral dos fatos. Tento sempre que possível passar para o outro lado, para ver o que o outro sente ou pensa e daí tiro minhas conclusões e reavalio minhas opiniões. Esse exercício é tão simples e rende ótimos resultados. A gente aprende que ninguém é dono da verdade e que não vale a pena rir nem menosprezar ninguém, só por causa das diferenças.
Afinal, quem pode dizer que é normal ou perfeito?

Beth Blue said...

Concordo em gênero, número e grau (como sempre, aliás)!

E mais, acho o cúmulo da covardia as pessoas dizerem o que bem entendem, magoarem os outros e depois se saírem com: foi só uma piada (uma brincadeira). Gosto de pessoas que não precisam se esconder atrás de piadas de mau-gosto pra dar sua opinião!

Labelle® Paz said...

Sempre tem um 'espírito de porco' para rotular A ou B de alguma coisa...

Bebete Indarte said...

Piadas brasileiras, esse humor discriminatório brasileiro, também não consigo achar graça nenhuma.
Achei certa vc querer dar uma lição nos seus familiares de Belém, mas sei que muitas piadas são feitas, na base do "dane-se o outro", e numa superioridade que denota inferioridade e ignorância.
Assisti um filme brasileiro na Patropi(uma loja de artesanato indígena em Amsterdã), era a história de Caramuru em comédia.
Fora o cenário ser belíssimo, é clichê acima de clichê, rir pra mim que sou brasileira ficou difícil, e pros gringos, impossível.
Nesse sentido o Brasil é atrasado, chauvinista, sexista, homofóbico, racista, regionalista, bairrista...

Lembro-me de um fato ridículo, quando cheguei em SP vinda dos Pampas(mentira vim da capital), o termo "baiano" era usado, pros nordestinos pobres, porteiros de prédios, motoristas, faxineiros(as), operários da construção civil...fiquei estupefata com o fato, com a discriminação afinal a "Bahia" é uma terra tão linda, mas lembrei-me de coisa pior, no sul, fazer "baianada" é "negrice", ou seja, tão racista quanto, tão atrasado quanto.
Acho que o termo deve ter sido proibido, é uma "negrice", mas a baianada continua.

Aqui na Europa é diferente, a piada é séria...a xenofobia.