
Esta é uma semana de aniversários para mim. Amanhã completo 7 anos de vida aqui na Europa, e ontem completei o meu primeiro aninho de vida na Bélgica. Sim, há exatamente um ano eu desistia dos ensolarados "Buenos dias" e "Si us plau" e voltava para as terras chuvosas dos "goede morgen" e "alstublieft", se bem que aqui em Bruxelas largamente atenuados pelos mais frequentes "Bonjour" e "s´il vous plaît". Sem um tostão no bolso e muita esperança. Devo dizer que estou razoavelmente satisfeito com a minha vidinha aqui em terras belgas, e se ainda tenho uma montanha de problemas para resolver (mas quem não as tem, não é mesmo?) e se tudo ainda está muito, muito longe do ideal, a verdade é que há muito tempo eu não tinha uma vida tão calma quanto hoje em dia, e isto é para mim uma conquista. Só de saber que eu provavelmente vou conseguir passar o ano inteiro sem precisar me mudar, levando em consideração que nos últimos 7 anos eu mudei de endereço nada menos do que 15 vezes (isso mesmo, uma média de uma mudança a cada 6 meses) entre 3 países e 5 cidades diferentes, já é um grande alívio.
A Bélgica é um país surreal. Não me espanta que um dos mestres do surrealismo, René Magritte, fosse belga. Como recentemente falou um dos políticos locais a respeito da mais nova crise política que assola o país no momento, Magritte devia se sentir mesmo em casa na Bélgica. Já falei um pouco a respeito das excentricidades locais, mas não custa explicar um pouco mais. Estou em um dos menores países da Europa, menor que a Holanda e um pouco maior que o estado de Alagoas. Uma população de 10 milhões de habitantes, ou seja, como se fosse a cidade do Rio de Janeiro. E Bruxelas tem um milhão e meio de habitantes. Só que neste espaço pequenininho e povoado se misturam 3 culturas diferentes – no norte os flamengos de língua neerlandesa, no sul os valões de língua francesa, e no extremo leste uma pequena população de língua germânica. Isso sem contar na minoria de origem árabe, que em Bruxelas é quase metade da população. Some-se a isto os mais ou menos 100.000 habitantes de Bruxelas de origem européia (vindos de outros países europeus) e aí tem-se uma idéia da diversidade local.
Pois bem, este caldeirão linguístico e cultural serve de comida para muita confusão. A presença das instituições européias em Bruxelas é assunto para aclamados debates contra e a favor pelas comunidades locais. Só que estas também vivem brigando entre si, e com maior veemência. As duas maiores comunidades, a flamenga e a francófona, não concordam com quase nada e vivem brigando por quase tudo. Uma briga propagada pela mídia e atiçada pela política local. O que torna a formação do governo federal Belga, majoritária e obrigatoriamente formado por estas duas comunidades, uma verdadeira obra de arte. A arte do surreal. Como pode um país tão pequeno, tão desimportante na escala mundial, numa época de globalização e interdependência econômica internacional, e ainda mais servindo de sede para as principais instituições européias, perder tanto tempo com assuntos como separatismo, regionalização de políticas, fronteiras linguísticas (é mais ou menos assim: desta linha pra cá fala-se holandês, desta linha pra lá fala-se francês, aqui no miolinho pode falar as duas, e todo mundo tem que obedecer…)?
A Bélgica parece ser um país que gosta de remar contra a maré. Enquanto no mundo inteiro as diferentes nações têm se esforçado para unir esforços em torno de metas comuns, aqui o separatismo entre as duas principais regiões que formam o país é o tema mais frequente do noticiário. As eleições federais ocorreram há quase 90 dias atrás e até agora um novo governo ainda não foi formado porque os partidos vencedores não conseguem chegar a um acordo. Isto mesmo, a Bélgica já está há três meses sem governo. Tudo na mesa de negociações é motivo de disputa. A mídia deita e rola, se aproveitando da situação para vender manchete. Se numa recente pesquisa de opinião 60% da população flamenga se mostrou contra o separatismo e pela união do país, a notícia que sai nos jornais é: 40% da população flamenga é pró-separatismo! É, a verdade sempre pode ser vista sob o aspecto que lhe cai melhor. Enquanto isto a população, cansada, espera uma resolução. E a vida continua. Porque a verdade é que com ou sem governo, com ou sem ministros, com ou sem rei, a administração pública continua funcionando, do mesmo jeito de antes: devagar e sempre.
Eu desconfio que é exatamente esta falta de união nacional e esta bagunça administrativa que fazem da Bélgica, e especialmente de Bruxelas, um lugar tão fácil de se viver para quem é estrangeiro. Rapidamente a gente consegue se adaptar ao ritmo local. Aqui praticamente todo mundo é ou se sente estrangeiro, mesmo os locais, então ao final estamos todos em casa. Bruxelas se parece um pouco com a França, um pouco com a Holanda, um pouco com a Alemanha e um pouco com a Inglaterra, só para no final não se parecer com lugar algum. E ao mesmo tempo é a somatória de tudo isto e um pouco mais. É só andar pelas ruas do centro de Bruxelas, ou pelo bairro Europeu (onde fica a sede da Comissão) para se notar que esta é uma cidade absolutamente cosmopolita. Bruxelas pode ser pequena para quem está acostumado com Londres ou Paris, pode ser feia para quem vem de Amsterdam ou Praga, pode ser monótona se comparada a outras capitais, mas provinciana, isto ela não é de modo algum. Aqui ouve-se todo tipo de línguas, vê-se todo tipo de gente, fala-se sobre todo o tipo de assunto. Come-se todo o tipo de comidas, do kebab à feijoada. Veste-se todo tipo de roupas, desde o brechó da esquina à Chanel do Blvd. de Waterloo. Lê-se desde o El País da Espanha até o Volkskrant da Holanda. Então aqui só não se sente em casa quem não quer. Se a Bélgica é um país surreal, e Bruxelas a sua capital, eu diria que este é de uma forma igualmente surreal o país com o qual todo estrangeiro sempre sonhou. Diferente de tudo aquilo que você sempre quis, e ainda assim feito na medida certa para você. Se somos todos estrangeiros neste pequeno país de sonhos e pesadelos de Alice, eu diria que eu como estrangeiro nunca me senti tão local.
A Bélgica é um país surreal. Não me espanta que um dos mestres do surrealismo, René Magritte, fosse belga. Como recentemente falou um dos políticos locais a respeito da mais nova crise política que assola o país no momento, Magritte devia se sentir mesmo em casa na Bélgica. Já falei um pouco a respeito das excentricidades locais, mas não custa explicar um pouco mais. Estou em um dos menores países da Europa, menor que a Holanda e um pouco maior que o estado de Alagoas. Uma população de 10 milhões de habitantes, ou seja, como se fosse a cidade do Rio de Janeiro. E Bruxelas tem um milhão e meio de habitantes. Só que neste espaço pequenininho e povoado se misturam 3 culturas diferentes – no norte os flamengos de língua neerlandesa, no sul os valões de língua francesa, e no extremo leste uma pequena população de língua germânica. Isso sem contar na minoria de origem árabe, que em Bruxelas é quase metade da população. Some-se a isto os mais ou menos 100.000 habitantes de Bruxelas de origem européia (vindos de outros países europeus) e aí tem-se uma idéia da diversidade local.
Pois bem, este caldeirão linguístico e cultural serve de comida para muita confusão. A presença das instituições européias em Bruxelas é assunto para aclamados debates contra e a favor pelas comunidades locais. Só que estas também vivem brigando entre si, e com maior veemência. As duas maiores comunidades, a flamenga e a francófona, não concordam com quase nada e vivem brigando por quase tudo. Uma briga propagada pela mídia e atiçada pela política local. O que torna a formação do governo federal Belga, majoritária e obrigatoriamente formado por estas duas comunidades, uma verdadeira obra de arte. A arte do surreal. Como pode um país tão pequeno, tão desimportante na escala mundial, numa época de globalização e interdependência econômica internacional, e ainda mais servindo de sede para as principais instituições européias, perder tanto tempo com assuntos como separatismo, regionalização de políticas, fronteiras linguísticas (é mais ou menos assim: desta linha pra cá fala-se holandês, desta linha pra lá fala-se francês, aqui no miolinho pode falar as duas, e todo mundo tem que obedecer…)?
A Bélgica parece ser um país que gosta de remar contra a maré. Enquanto no mundo inteiro as diferentes nações têm se esforçado para unir esforços em torno de metas comuns, aqui o separatismo entre as duas principais regiões que formam o país é o tema mais frequente do noticiário. As eleições federais ocorreram há quase 90 dias atrás e até agora um novo governo ainda não foi formado porque os partidos vencedores não conseguem chegar a um acordo. Isto mesmo, a Bélgica já está há três meses sem governo. Tudo na mesa de negociações é motivo de disputa. A mídia deita e rola, se aproveitando da situação para vender manchete. Se numa recente pesquisa de opinião 60% da população flamenga se mostrou contra o separatismo e pela união do país, a notícia que sai nos jornais é: 40% da população flamenga é pró-separatismo! É, a verdade sempre pode ser vista sob o aspecto que lhe cai melhor. Enquanto isto a população, cansada, espera uma resolução. E a vida continua. Porque a verdade é que com ou sem governo, com ou sem ministros, com ou sem rei, a administração pública continua funcionando, do mesmo jeito de antes: devagar e sempre.
Eu desconfio que é exatamente esta falta de união nacional e esta bagunça administrativa que fazem da Bélgica, e especialmente de Bruxelas, um lugar tão fácil de se viver para quem é estrangeiro. Rapidamente a gente consegue se adaptar ao ritmo local. Aqui praticamente todo mundo é ou se sente estrangeiro, mesmo os locais, então ao final estamos todos em casa. Bruxelas se parece um pouco com a França, um pouco com a Holanda, um pouco com a Alemanha e um pouco com a Inglaterra, só para no final não se parecer com lugar algum. E ao mesmo tempo é a somatória de tudo isto e um pouco mais. É só andar pelas ruas do centro de Bruxelas, ou pelo bairro Europeu (onde fica a sede da Comissão) para se notar que esta é uma cidade absolutamente cosmopolita. Bruxelas pode ser pequena para quem está acostumado com Londres ou Paris, pode ser feia para quem vem de Amsterdam ou Praga, pode ser monótona se comparada a outras capitais, mas provinciana, isto ela não é de modo algum. Aqui ouve-se todo tipo de línguas, vê-se todo tipo de gente, fala-se sobre todo o tipo de assunto. Come-se todo o tipo de comidas, do kebab à feijoada. Veste-se todo tipo de roupas, desde o brechó da esquina à Chanel do Blvd. de Waterloo. Lê-se desde o El País da Espanha até o Volkskrant da Holanda. Então aqui só não se sente em casa quem não quer. Se a Bélgica é um país surreal, e Bruxelas a sua capital, eu diria que este é de uma forma igualmente surreal o país com o qual todo estrangeiro sempre sonhou. Diferente de tudo aquilo que você sempre quis, e ainda assim feito na medida certa para você. Se somos todos estrangeiros neste pequeno país de sonhos e pesadelos de Alice, eu diria que eu como estrangeiro nunca me senti tão local.



3 comments:
rapaz, seus textos estão cada dia melhores, impressionante...cada vez que venho aqui ler seu blog perco a vontade de escrever no meu, rsrsrsrs.
Oi Beth,
Obrigado, mas não faça isso não, vc é minha inspiração diária...
E a minha inspiração diária é você ;-)
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