
Vou fazer uma confissão agora: eu estou sendo infiel! Estou indo para a cama com até quatro indivíduos diferentes, e durante o dia ainda me pego me aventurando com outros dois. Nenhum deles conseguiu me conquistar até agora, então continuo pulando a cerca descaradamente… Por quê isto está acontecendo? Sempre consegui ter relações monogâmicas, mas de uns tempos pra cá não estou conseguindo, simples assim… estou tão volátil como a mulher na ária de Rigoletto, mudo de tom e de pensamentos como uma pluma ao vento. Será que é a vontade de falar línguas diferentes? Cada um deles é de uma nacionalidade diferente, então não consigo me definir… quero todos ao mesmo tempo agora… Pelo menos até o final de semana passado eu ainda estava conseguindo me contentar com os dois ou três que já estavam na área, mas desde a sexta feira última quando B esteve em casa e me apresentou a outros três moços que trouxe consigo, não resisti. Deixei os anteriores de lado, e já fui pra cama com pelo menos dois destes novos quatro amores da minha vida. É claro que eu estou falando dos meus livros.
Para ser mais exato: desde que eu terminei a leitura de White Teeth, de Zadie Smith, estou me aventurando na leitura de vários livros diferentes, sem ter me fixado até agora em nenhum deles. Tudo começou com a leitura de Todas las Famílias Felices, um livro de contos do escritor mexicano Carlos Fuentes, sobre a vida moderna na Cidade do México. Estou gostando, mas livro de contos tem esta característica básica, as histórias são curtas e portanto a leitura pode ser parada e continuada a qualquer momento. Deveria ter insistido na relação, mas aí pintou um outro livro de contos na parada, e eu não resisti à curiosidade, o tema era daqueles que envolve rapidinho, sabe?. Era uma coletânea de textos sobre growing up and being gay (escrevo em inglês porque devido a uma função neurolinguística muito estranha no meu cérebro, há certos assuntos sobre os quais eu consigo me expressar melhor em inglês que em português, vai entender), presente de um amigo, e eu comecei a folhear só de curiosidade, e quando vi já estava no quarto ou quinto conto.
Daí pronto, a bruxa da infidelidade literária só estava esperando a vez, e com dois livros de contos na área, foi a festa, a porta estava aberta para qualquer novidade. O primeiro a entrar foi Le Père Adopté, de Didier van Cauwelaert, um escritor francês de descendência belga. Este é um livro sobre o pai do escritor e a relação entre ambos; ela leitura consigo entender que é uma semi biografia. Estou ainda no comecinho, mas há um pequeno problema, a língua. Eu estava vindo de White Teeth, tipicamente anglo-saxônico na agilidade e modernidade da narrativa e das situações, cheio de malícia e de humor, e de repente me encontro de volta na literatura francesa convencional. O francês é uma língua que eu adoro de ouvir e falar, mas ler em francês me cansa um pouco, é uma língua rebuscada demais, todos os acentos, todos os verbos, todas as palavras incomuns... Eu tenho a impressão que grande parte dos autores franceses frequentemente têm um penchant (para imitar-los) para a erudição desnecessária, usam palavras que poderiam ser evitadas, metáforas elaboradas, este tipo de coisas. Até hoje o único escritor contemporâneo (eu estou falando aqui apenas de literatura contemporânea, portanto estou excluindo todos os clássicos) que eu realmente gostei de ler em francês foi Milan Kundera, talvez porque, sendo tcheco de nascimento, o francês não é a sua língua materna e portanto imagino que ele não tenha este vício de erudição. Ou pelo menos, eu me identifico com as metáforas do Milan Kundera mais do que com as do Didier, sei lá. Em todo caso, estou enfrentando o rapaz, que tem sido meu companheiro de metro no vai e vém do trabalho. Uma rapidinha por dia não faz mal a ninguém. Tomo como lição um livro que eu li no início deste ano (esqueci o nome, esqueci o autor, não sei onde está… desculpem a falha, mas não consigo me lembrar agora) que era assim também, semi auto biográfico, e uma linguagem um pouco pretensiosa no início, mas depois eu acabei gostando.
Pois bem, eu estava já me aventurando na leitura de livros e contos em espanhol, inglês e francês, e eis que então chega a minha amiga B e me presenteia com mais três livros! Desta vez dois em português (um do próprio irmão escritor, Horácio Indarte, semi biográfico, e outro traduzido da célebre Trilogia de Nova York do Paul Auster que eu nunca li). E para completar a orgia, um Salman Rushdie em holandês!!! Isto mesmo, estou lendo Fúria em holandês (Woede). Agora a coisa degringolou mesmo. Porque se eu com o francês tenho aquela implicânciazinha para ler, com o holandês é o oposto. Eu não gosto muito de falar e muito menos de ouvir o holandês (eu me forço a assistir o telejornal holandês para não perder o ouvido), mas estranhamente é uma língua na qual eu gosto de ler. O holandês é uma língua simples e sem muitas firulas, talvez por isto eu tenha a impressão de que a leitura flui mais rapidamente, ainda que eu tenha que consultar o dicionário com mais frequência. E o Paul Auster, este nem se fala, já é há muitos anos um dos meus autores favoritos, desde que li The Invention of Solitude, e amei.
Portanto, a bruxa da leitura infiel está solta lá em casa. Ontem eu fui pra cama com o Horácio Indarte (pela foto na contracapa o único deles com o qual eu talvez pudesse considerar a hipótese de realmente ir parar na cama, he he, mas enfim, eu já sou comprometido, este tipo de aventuras já não faz parte da minha vida…), anteontem com o Salman Rushdie, na noite anterior com o Paul Auster, e enquanto isto o Didier continua me acompanhando ao trabalho e o Carlos Fuentes me faz companhia nas tardes de domingo. E o que é pior, eu me deito com um mas não consigo parar de pensar nos outros… eu gosto de todos eles, cada um a seu modo. Não consigo me decidir por nenhum em específico. Eu já me peguei também até mesmo pensando na possibilidade de tirar da prateleira os que eu já tenho e ainda não li… e com toda esta salada linguístico-litarária, no final já não consigo mais falar nenhuma língua direito, a confusão de todas as noites está começando a se refletir no meu cotidiano e eu estou trocando as bolas direto… neguinho diz merci e eu replico com um graag gedaan… too many authours, so little time… Meu Deus, eu não era assim, aonde isto vai parar?
Para ser mais exato: desde que eu terminei a leitura de White Teeth, de Zadie Smith, estou me aventurando na leitura de vários livros diferentes, sem ter me fixado até agora em nenhum deles. Tudo começou com a leitura de Todas las Famílias Felices, um livro de contos do escritor mexicano Carlos Fuentes, sobre a vida moderna na Cidade do México. Estou gostando, mas livro de contos tem esta característica básica, as histórias são curtas e portanto a leitura pode ser parada e continuada a qualquer momento. Deveria ter insistido na relação, mas aí pintou um outro livro de contos na parada, e eu não resisti à curiosidade, o tema era daqueles que envolve rapidinho, sabe?. Era uma coletânea de textos sobre growing up and being gay (escrevo em inglês porque devido a uma função neurolinguística muito estranha no meu cérebro, há certos assuntos sobre os quais eu consigo me expressar melhor em inglês que em português, vai entender), presente de um amigo, e eu comecei a folhear só de curiosidade, e quando vi já estava no quarto ou quinto conto.
Daí pronto, a bruxa da infidelidade literária só estava esperando a vez, e com dois livros de contos na área, foi a festa, a porta estava aberta para qualquer novidade. O primeiro a entrar foi Le Père Adopté, de Didier van Cauwelaert, um escritor francês de descendência belga. Este é um livro sobre o pai do escritor e a relação entre ambos; ela leitura consigo entender que é uma semi biografia. Estou ainda no comecinho, mas há um pequeno problema, a língua. Eu estava vindo de White Teeth, tipicamente anglo-saxônico na agilidade e modernidade da narrativa e das situações, cheio de malícia e de humor, e de repente me encontro de volta na literatura francesa convencional. O francês é uma língua que eu adoro de ouvir e falar, mas ler em francês me cansa um pouco, é uma língua rebuscada demais, todos os acentos, todos os verbos, todas as palavras incomuns... Eu tenho a impressão que grande parte dos autores franceses frequentemente têm um penchant (para imitar-los) para a erudição desnecessária, usam palavras que poderiam ser evitadas, metáforas elaboradas, este tipo de coisas. Até hoje o único escritor contemporâneo (eu estou falando aqui apenas de literatura contemporânea, portanto estou excluindo todos os clássicos) que eu realmente gostei de ler em francês foi Milan Kundera, talvez porque, sendo tcheco de nascimento, o francês não é a sua língua materna e portanto imagino que ele não tenha este vício de erudição. Ou pelo menos, eu me identifico com as metáforas do Milan Kundera mais do que com as do Didier, sei lá. Em todo caso, estou enfrentando o rapaz, que tem sido meu companheiro de metro no vai e vém do trabalho. Uma rapidinha por dia não faz mal a ninguém. Tomo como lição um livro que eu li no início deste ano (esqueci o nome, esqueci o autor, não sei onde está… desculpem a falha, mas não consigo me lembrar agora) que era assim também, semi auto biográfico, e uma linguagem um pouco pretensiosa no início, mas depois eu acabei gostando.
Pois bem, eu estava já me aventurando na leitura de livros e contos em espanhol, inglês e francês, e eis que então chega a minha amiga B e me presenteia com mais três livros! Desta vez dois em português (um do próprio irmão escritor, Horácio Indarte, semi biográfico, e outro traduzido da célebre Trilogia de Nova York do Paul Auster que eu nunca li). E para completar a orgia, um Salman Rushdie em holandês!!! Isto mesmo, estou lendo Fúria em holandês (Woede). Agora a coisa degringolou mesmo. Porque se eu com o francês tenho aquela implicânciazinha para ler, com o holandês é o oposto. Eu não gosto muito de falar e muito menos de ouvir o holandês (eu me forço a assistir o telejornal holandês para não perder o ouvido), mas estranhamente é uma língua na qual eu gosto de ler. O holandês é uma língua simples e sem muitas firulas, talvez por isto eu tenha a impressão de que a leitura flui mais rapidamente, ainda que eu tenha que consultar o dicionário com mais frequência. E o Paul Auster, este nem se fala, já é há muitos anos um dos meus autores favoritos, desde que li The Invention of Solitude, e amei.
Portanto, a bruxa da leitura infiel está solta lá em casa. Ontem eu fui pra cama com o Horácio Indarte (pela foto na contracapa o único deles com o qual eu talvez pudesse considerar a hipótese de realmente ir parar na cama, he he, mas enfim, eu já sou comprometido, este tipo de aventuras já não faz parte da minha vida…), anteontem com o Salman Rushdie, na noite anterior com o Paul Auster, e enquanto isto o Didier continua me acompanhando ao trabalho e o Carlos Fuentes me faz companhia nas tardes de domingo. E o que é pior, eu me deito com um mas não consigo parar de pensar nos outros… eu gosto de todos eles, cada um a seu modo. Não consigo me decidir por nenhum em específico. Eu já me peguei também até mesmo pensando na possibilidade de tirar da prateleira os que eu já tenho e ainda não li… e com toda esta salada linguístico-litarária, no final já não consigo mais falar nenhuma língua direito, a confusão de todas as noites está começando a se refletir no meu cotidiano e eu estou trocando as bolas direto… neguinho diz merci e eu replico com um graag gedaan… too many authours, so little time… Meu Deus, eu não era assim, aonde isto vai parar?



2 comments:
Hahahaha
De todos esses, só mando o Rushdie pra casinha do cachorro.
Ahá, gostou de White Teeth, afinal? E por incrível que pareça, eu li sobre essa coletânea sobre growing up being gay estes dias, pensei em vc.
Opa... Uma para te dar as mãos!
Somos dois infiéis literários.. Na minha mesinha de cabeceira estão três livros pela metade [todas as noites leio um pouquinho de cada, ou um pouquinho de um e nada dos outros]....
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