Friday, August 17, 2007

O Eremita


Deve ter algo de errado comigo mesmo. Ultimamente eu não consigo me entusiasmar com praticamente nada. Nenhum convite para sair me empolga; nenhum plano para sair de casa atrai a minha atenção. É não é que eu seja um chato total que não curta absolutamente nada (ou pelo menos eu não quero acreditar que seja assim). Quando eu finalmente resolvo sair e fazer alguma coisa que realmente valha a pena, quando alguém me puxa pra fora de casa ou algo assim, quando pinta um convite que por educação eu não posso recusar, eu sempre acabo me divertindo. Como na visita ao Museu Casa de Erasmo, que eu fui no início meio que por obrigação e depois adorei. Eu nunca me sinto entediado quando sinto o estímulo intelectual de uma boa conversa aliado ao prazer físico de uma caminhada sob o sol, por exemplo. Mas é que na maior parte das vezes eu simplesmente não tenho vontade de fazer nada que me tire da rotina caseira, a título de precaução. Não sou eu que sou chato, eu estou apenas me poupando da chatice alheia (ou pelo menos quero acreditar nisso), e faço isso me escondendo atrás da minha rotina. Ah, a rotina. Essa sim, eu adoro, cada vez mais. Nada como um dia depois do outro para me deixar de bem com a vida. Adoro dias totalmente previsíveis e idênticos uns aos outros, e se for em sequência, melhor ainda. E para mim felicidade é quando eu consigo passar um final de semana inteiro sem por os pés na rua. Com sol no meu terraço e 21 graus, por favor.

Tudo bem, há exceções, é lógico. Eu com certeza me entusiasmaria muito com, por exemplo, um convite para uns 10 dias em um resort 5 estrelas nas Ilhas Maldivas, com tudo pago. Um final de semana em Nova York ou em Paris. Pode me convidar, eu garanto que consigo arrumar as minhas malas em meia hora. E o meu passaporte está em dia. Sempre gostei de viajar e vou continuar gostando. Agora, como eu sei que o mais perto que eu vá chegar de tal proposta é um finalzinho de semana em Oostende e olhe lá, e dividindo as contas, então eu nem levanto do sofá. Fico lendo o meu livro e ou zapeando a tv mesmo. Ok, levanto para preparar o jantar, ir ao banheiro, etc, estas atividades básicas e necessárias. Mas se o telefone toca, eu sou capaz de ficar sentado e deixar o telefone tocando, só pra não correr o risco de ser convidado pra sair. O quê, ter que sair e ver gente, quando eu posso ficar sozinho numa boa? Eu estou dizendo, só pode ter algo de errado comigo.

Também não é pura preguiça. Eu sei que sou preguiçoso, mas se fosse só preguiça eu não iria pra academia também. Eu malho religiosamente 3 vezes por semana, sempre às segundas, quartas e sextas, depois do trabalho, por uma hora e meia. Tenho a minha rotina de exercícios e só falto quando estou doente ou algo parecido. Na academia, não procuro fazer nem melhor nem pior do que de costume. Não exagero no esforço físico, mas também não faço corpo mole. Sei que minha condição física está neste sentido superior à maioria. Posso não ser nenhum Adónis – já tentei ser um dia e desisti – mas sei que também estou longe de fazer feio na praia, não tenho barriga e tenho os músculos todos em seus devidos lugares. Não, não é preguiça.

É falta de interesse mesmo, pura e simplesmente. Acho que estou ficando exigente demais, elitista demais, excludente demais. É, chato demais, pode ser, mas será mesmo que sou eu o chato? Eu procuro nunca incomodar os outros com o que quer que seja. Só peço um favor quando realmente inevitável, só convido pra sair quando tenho algo realmente interessante pra propor, só ligo pra alguém quando tenho um assunto concreto para tratar. Mas sinto que nem todo mundo tem a mesma humildade, elegância ou discrição. Pessoas que eu mal conheço vêm querendo jogar as suas vidas em cima de mim à primeira oportunidade. E eu acabo não conseguindo achar graça em quase nada do que me é apresentado como sendo a última novidade. O papo da maioria das pessoas, este então me dá um tédio tremendo. Sempre as mesmas histórias, os mesmos assuntos, os mesmos problemas (falta de dinheiro, falta de namorado/a, falta de férias, falta de sexo, falta de sol, falta de tempo, falta de sono, falta de sei lá o quê, enfim, falta de problemas). Quando me convidam pra sair, me levam pra algum terraço no centro e começam a mesma ladainha, eu me pergunto: " – sério que você me tirou da minha casa pra isso??" Vocês já notaram que o papo da maioria das pessoas que a gente não conhece muito bem, que não são nossos melhores amigos, na maior parte das vezes pode ser dividido em dois grupos: o que quer provar que suas vidas são infinitamente piores que a sua (como sofrem, coitadinhos!) ou que quer mostrar que suas vidas são absolutamente mais interessantes (como são lindos e gostosos e bem sucedidos!). Ah, me dá um tempo… então acabo ficando em casa. Seguramente feliz.

O meu avô, depois que ficou velho, nunca mais saiu de casa. Isso mesmo, nunca mais, com toda a gravidade da expressão. Para ser mais preciso, ele admitia ir ao bar do outro lado da rua para bater papo com o vizinho. Fora isso, nada. Ele nem sequer foi ao casamento das netas. Eu acho que ele se cansou da humanidade. Eu às vezes tenho medo de cair no mesmo destino – virar um eremita. O meu avô pelo menos já tinha passado dos 60, mas eu ainda nem sequer cheguei aos 40… estou novo demais pra isso. Quando eu morava em Leeuwarden, na Frísia, eu tinha um vizinho que também era assim. Ele não saía nunca de casa, só para ir ao supermercado, e tinha as janelas sempre fechadas. Pode ser que ele fosse um psicopata, sei lá, mas a verdade é que ele não fazia a menor questão de sair de seu mini castelo. Hoje em dia eu devo confessar, quando eu vejo este mundo aí fora, o tipo de gente que nos rodeia, as histórias que a gente é obrigado a enfrentar, as situações em que a gente se mete… eu o entendo muito bem.

Bom, o final de semana está chegando. Eu tenho duas possibilidades de atividades pairando. Uma é um festival de música latina na Place du Chatelain, aqui em Bruxelas. Outra alternativa é uma visita à cidade de Gent, uma das principais e mais bonitas cidades da região de Flandres, juntamente com uma amiga minha. Eu juro que eu quero conseguir sair de casa e ir ou ao festival de música ou a Gent, eu quero poder ir ao escritório na segunda feira com uma corzinha no rosto e uma história pra contar. Eu não quero ser um destes chatos que nunca fazem nada e cujas vidas passam em branco; eu não quero virar um eremita. Eu sei que tem muita coisa interessante para ver e para se vivenciar, e muita gente legal pra se conhecer. Tem que ter! Mas eu sei também que quando for chegando a hora, eu vou estar sentado no meu terraço, tomando o meu café, lendo o meu livro, e aí o telefone vai tocar, eu vou olhar para ele… e corro o risco de cair na mesma cilada de sempre, fingir que não escutei, voltar para a minha leitura (será que estou vivendo através dos livros?) e esquecer que faço parte deste mundo. Seguramente feliz. Cair na rotina, é chato, mas é tão bom… E até a segunda feira.

5 comments:

Cris Ambrosio said...

Eu entendo perfeitamente o que você está dizendo. Todo dia nos intervalos do colégio, em vez de ir falar com alguém eu enfio minha cara num livro e fico lá meio isolada do resto do mundo - eu faço isso mais ou menos pelas mesmas razões que você; na maioria das vezes os assuntos giram em torno de "vestibular & Cia." e é meio desagradável.

Acho que você tem que se apegar à idéia que existem pessoas por aí que vale a pena conhecer, pra não virar um eremita - está funcionando razoavelmente bem comigo.

bjs!

Labelle® Paz said...

Eu dispenso qualquer convite para ficar em casa, lendo um livro ou vendo um filminho, na minha cama.....

Sou meio de fases.... Tem momentos, em que não precisam nem comentar comigo sobre algum convite pela segunda vez. Estou lá, me divirto muito e faço questão de aproveitar cada segundo...

Em outros, prefiro ficar isoladinha, desligo os telefones e deixo apenas a secretária eletrônica ligada. Ninguém me acha. Ninguém me encontra. Fico eu comigo mesma, meu amor e nosso cantinho.

Bom final de semana!

Andrea Drewanz said...

Oi Antonio,
Não se sinta um eremita não...
Se isolar do mundo faz um bem danado, ainda mais se as companhias não são tão agradáveis e a leitura de um bom livro te completa.
"Antes só, do que mal acompanhado", já dizia o ditado.
Bjs.

Anonymous said...

Oi primo, adorei o seu depoimento e me identifiquei com grande parte dele, principalmente com a estória do telefone. Para vc ter uma idéia, os mais íntimos já sabem q não adianta me ligar em casa q eu nunca atendo. Se quiser falar comigo, q me ligue no celular e, se tiver sorte, eu atendo. Mas não acho q seja vontade de ficar só, mas sim de selecionar o que fazer, de ser senhor dos nossos destinos... Também adoro a minha rotina, o meu mini-castelo. Semana passada estive em Belém por 1 semana e no 3º dia já estava morrendo de saudades da minha casa, do meu controle remoto, dos meus livros e do meu vinho à minha disposição... No entanto, tbm arrumaria a minha mala em poucos minutos para ir à Paris ou ao Rio ;)) bjs Silvia

Bebete Indarte said...

Oi Antonio, como falam os holandeses estamos na mesma "golflengte"...no meu caso poderiam dizer meus conhecidos de outrora "quem te viu e quem te vê".

Mas não estou nem ai pras opiniões alheias, acho que o seu isolamento se deve, a uma mudança interior, seu desenvolvimento pessoal, não tem nada a ver com idade.

Eu me comunico cada vez menos com os outros porque simplesmente não acho nada interessante, acho os assuntos superficiais, e também sinto aquela máxima "já vi esse filme", e também popularmente falando "figurinha repetida não completa álbum".

É super chato que as pessoas ultimamente me inspiram tão pouco, nesse sentido possuo uma mente crítica também como você.

Fase ou não, você está completamente certo sobre os outros quererem competir o tempo todo. Eu mesmo me coloco às vezes numa posição de vítima, o que não tem nada a ver com minha personalidade, talvez seja por pura frustação.

Você pode ser tudo, mas menos chato...e fique tranquilo, sua elegância, finesse, educaçao, autenticidade, fará sempre com que os "outros" queiram ficar perto de você, aprendendo, dividindo, participando de sua "chatice".
A montanha irá até Maomé, pra tirar o seu sossego, hahahaha.