
Dêem uma olhada no mapa ao lado. Não, não é mais um mapa sobre os lugares onde eu já estive. Também não é um mapa sobre os lugares que eu gostaria de conhecer. Não, muito pelo contrário. Este é na verdade o mapa dos lugares que eu deveria evitar. É um mapa que demonstra os países em que o homossexualismo ainda é visto pela lei como um ato criminoso e portanto sujeito a sanções. Você vê aí não só os "usual suspects" – Iran, Arábia Saudita, Sudão, aliás a maior parte dos países islâmicos, etc, mas também lugares menos previsíveis, como Costa Rica, as ilhas Maldivas e a Índia. E os países com a cor mais escura vão um pouquinho mais longe – neles o homossexualismo é punível com a pena de morte.
O histórico de homofobia destes países está no momento sendo inventariado pelo Ministério de Cooperação e Desenvolvimento externo da Holanda, uma ação louvável que tem como objetivo a longo prazo a melhoria das condições de vida da população homossexual em países que contam com ajuda financeira externa do governo holandês. Não é para tentar forçar a política social liberal dos holandeses nestes países (isso seria impossível), mas simplesmente para colocar o diálogo na pauta e agir proativamente em busca de um avanço geral no respeito pelos direitos humanos nestes países.
Mas a repressão ao homossexualismo existe não apenas nestes países, ela ocorre em grau maior ou menor no mundo inteiro, infelizmente. Este é um assunto sobre o qual eu poderia escrever um livro inteiro. Sobre como a sociedade reprime qualquer estilo de vida que fuja à norma padrão e as consequências que esta repressão aberta ou velada pode causar na vida de uma pessoa, mesmo depois de passada a situação causadora do problema. Eu por exemplo vivo desde sempre sob este estigma, da repressão e do preconceito. Não estou aqui querendo me fazer de vítima, pois já me acostumei com a situação. Mas gostaria que um dia estes handicaps que são causados gratuitamente e sem a menor razão na vida de uma pessoa fossem de alguma forma abolidos. É, pode ser pura utopia da minha parte.
Ontem eu estava conversando com a minha colega J aqui no escritório, e ela estava falando de sua vida de casada e etc, e em um dado ponto da conversa ficou impossível para mim de continuar sem ter que dar detalhes da minha vida pessoal – que eu sou gay, que eu tenho um namorado, etc, etd, etc. Eu tive que "abrir o jogo", e de imediato eu me senti mal a meu respeito, como sempre acontece quando tenho que fazer qualquer comentário a respeito da minha vida privada. Pois na verdade eu sempre procuro evitar o máximo possível de falar a respeito da minha vida pessoal, principalmente no trabalho. É como se eu tivesse de alguma forma que ter vergonha de mim mesmo, embora eu racionalmente saiba que eu não precise. Não que eu achasse que ela iria reagir mal à notícia, pois eu já sei que felizmente no princípio do século XXI aqui na Europa e entre a geração dos 30, homossexualismo não é mais tabu. Mas uma coisa é saber disso racionalmente, outra coisa é sentir isso dentro de si. O problema de se conviver por muito tempo com um preconceito é que ele acaba criando raízes dentro da gente, ele se instala no nosso subconsciente e fica difícil de visualizar a vida sem ele. Ele passa a fazer parte da gente, mesmo que a gente não queira.
O Brasil sempre foi um país muito conservador, a minha família sempre foi muito conservadora, e desde muito cedo eu aprendi que o melhor a fazer era me esconder, passar despercebido, sumir… evitar ao máximo possível qualquer comentário sobre a minha vida privada. Isso já tinha começado na escola, quando eu era vítima de chacota dos meus colegas (eu era o mais novo, o mais magrinho, o mais tímido), e como também era vítima de abuso sexual, eu achava que eu merecia a chacota, e ficava calado, e aceitava tudo. Hoje em dia eu sei que ninguém tinha como saber o que estava acontecendo, mas na época eu só conseguia pensar "eles (os meus colegas) sabem o que está acontecendo, eu mereço os insultos, é melhor eu ficar calado para não piorar". Eu não tinha praticamente a quem recorrer para pedir qualquer ajuda. Meus pais haviam praticamente me abandonado, eu era criado pela minha avó, que trabalhava muito e com quem eu não me sentia à vontade o suficiente para falar de tamanho problema (outra geração, hiper católica, etc). E o meu avô, esse nem sequer falava comigo, pois via em mim a figura do meu pai, que ele detestava. Eu era tratado de "menino" e a minha irmã era " menina". Esta foi a minha bela infância.
Então sem ter a quem recorrer e sem saber o que fazer, eu criei uma muralha de defesa em torno de mim, e nunca deixava ninguém se aproximar. Eu me afastei de todos os meus amiguinhos de escola. E tentava agradar todo mundo, para compensar o meu "defeito". E assim se formou um padrão de comportamento em mm. E anos depois, quando descobri a minha homossexualidade já no final da adolescência, a sensação de isolamento e incompreensão só piorou. Eu fui me afastando de tudo e de todos, até vir parar onde parei. Sempre na defensiva, sempre escondendo o jogo, sempre desconfiado, sempre com medo da reação dos outros. Sim, porque a reação dos outros fere sim, e muito, principalmente quando a gente já não tem a melhor impressão de si mesmo. As pessoas não têm noção de como um comentáriozinho maldoso, se proferido com a constância das águas que batem numa pedra, pode sim danificar de maneira irreparável a auto-estima de alguém.
E eis que hoje em dia, aos 36 anos, eu sou um homem feito, eu tenho o meu trabalho, eu tenho a minha casa, eu ganho o meu salário, eu tenho o meu namorado, eu tenho a minha vida, cheia de problemas como todo mundo. Alguns problemas que poderiam ter sido evitados se tudo tivesse sido diferente; mas enfim; a vida não volta atrás e é assim com todo mundo, né? Cada um carrega a sua cruz. Mas apesar de ter a minha vida mais ou menos sob controle, e apesar de ter aprendido que eu não preciso mais agradar a todo mundo o tempo todo, eu continuo tendo problemas para falar abertamente sobre qualquer detalhe da minha vida privada. Eu continuo sentindo a necessidade de ter que "esconder o jogo" (escrever aqui no blog é diferente, pois escrever é como uma catarse, e aqui eu posso desabafar e evitar o confronto direto ao mesmo tempo). Não importa que eu seja financeiramente independente, não importa que eu não seja mais o patinho feio da escola, não importa que eu tenha talvez alcançado, se não em feitos concretos, pelo menos em experiências de vida, talvez muito mais que a maioria de meus antigos colegas de escola, eu continuo a sentir a mesma dificuldade em me relacionar com as pessoas, em me abrir naturalmente e sem receios, eu continuo a me sentir sem graça e sem defesa, como um menino que fez algo de errado, eu continuo a sentir vergonha e desconfiança como ontem quando, ao falar sobre a minha privada para a minha colega, eu não pude evitar o seguinte pensamento, rápido como um flash:
-"Bah, como eu queria um dia conseguir falar de mim sem ter que me sentir assim como eu eu estou me sentindo agora… como eu queria um dia não sentir mais medo das pessoas."
O histórico de homofobia destes países está no momento sendo inventariado pelo Ministério de Cooperação e Desenvolvimento externo da Holanda, uma ação louvável que tem como objetivo a longo prazo a melhoria das condições de vida da população homossexual em países que contam com ajuda financeira externa do governo holandês. Não é para tentar forçar a política social liberal dos holandeses nestes países (isso seria impossível), mas simplesmente para colocar o diálogo na pauta e agir proativamente em busca de um avanço geral no respeito pelos direitos humanos nestes países.
Mas a repressão ao homossexualismo existe não apenas nestes países, ela ocorre em grau maior ou menor no mundo inteiro, infelizmente. Este é um assunto sobre o qual eu poderia escrever um livro inteiro. Sobre como a sociedade reprime qualquer estilo de vida que fuja à norma padrão e as consequências que esta repressão aberta ou velada pode causar na vida de uma pessoa, mesmo depois de passada a situação causadora do problema. Eu por exemplo vivo desde sempre sob este estigma, da repressão e do preconceito. Não estou aqui querendo me fazer de vítima, pois já me acostumei com a situação. Mas gostaria que um dia estes handicaps que são causados gratuitamente e sem a menor razão na vida de uma pessoa fossem de alguma forma abolidos. É, pode ser pura utopia da minha parte.
Ontem eu estava conversando com a minha colega J aqui no escritório, e ela estava falando de sua vida de casada e etc, e em um dado ponto da conversa ficou impossível para mim de continuar sem ter que dar detalhes da minha vida pessoal – que eu sou gay, que eu tenho um namorado, etc, etd, etc. Eu tive que "abrir o jogo", e de imediato eu me senti mal a meu respeito, como sempre acontece quando tenho que fazer qualquer comentário a respeito da minha vida privada. Pois na verdade eu sempre procuro evitar o máximo possível de falar a respeito da minha vida pessoal, principalmente no trabalho. É como se eu tivesse de alguma forma que ter vergonha de mim mesmo, embora eu racionalmente saiba que eu não precise. Não que eu achasse que ela iria reagir mal à notícia, pois eu já sei que felizmente no princípio do século XXI aqui na Europa e entre a geração dos 30, homossexualismo não é mais tabu. Mas uma coisa é saber disso racionalmente, outra coisa é sentir isso dentro de si. O problema de se conviver por muito tempo com um preconceito é que ele acaba criando raízes dentro da gente, ele se instala no nosso subconsciente e fica difícil de visualizar a vida sem ele. Ele passa a fazer parte da gente, mesmo que a gente não queira.
O Brasil sempre foi um país muito conservador, a minha família sempre foi muito conservadora, e desde muito cedo eu aprendi que o melhor a fazer era me esconder, passar despercebido, sumir… evitar ao máximo possível qualquer comentário sobre a minha vida privada. Isso já tinha começado na escola, quando eu era vítima de chacota dos meus colegas (eu era o mais novo, o mais magrinho, o mais tímido), e como também era vítima de abuso sexual, eu achava que eu merecia a chacota, e ficava calado, e aceitava tudo. Hoje em dia eu sei que ninguém tinha como saber o que estava acontecendo, mas na época eu só conseguia pensar "eles (os meus colegas) sabem o que está acontecendo, eu mereço os insultos, é melhor eu ficar calado para não piorar". Eu não tinha praticamente a quem recorrer para pedir qualquer ajuda. Meus pais haviam praticamente me abandonado, eu era criado pela minha avó, que trabalhava muito e com quem eu não me sentia à vontade o suficiente para falar de tamanho problema (outra geração, hiper católica, etc). E o meu avô, esse nem sequer falava comigo, pois via em mim a figura do meu pai, que ele detestava. Eu era tratado de "menino" e a minha irmã era " menina". Esta foi a minha bela infância.
Então sem ter a quem recorrer e sem saber o que fazer, eu criei uma muralha de defesa em torno de mim, e nunca deixava ninguém se aproximar. Eu me afastei de todos os meus amiguinhos de escola. E tentava agradar todo mundo, para compensar o meu "defeito". E assim se formou um padrão de comportamento em mm. E anos depois, quando descobri a minha homossexualidade já no final da adolescência, a sensação de isolamento e incompreensão só piorou. Eu fui me afastando de tudo e de todos, até vir parar onde parei. Sempre na defensiva, sempre escondendo o jogo, sempre desconfiado, sempre com medo da reação dos outros. Sim, porque a reação dos outros fere sim, e muito, principalmente quando a gente já não tem a melhor impressão de si mesmo. As pessoas não têm noção de como um comentáriozinho maldoso, se proferido com a constância das águas que batem numa pedra, pode sim danificar de maneira irreparável a auto-estima de alguém.
E eis que hoje em dia, aos 36 anos, eu sou um homem feito, eu tenho o meu trabalho, eu tenho a minha casa, eu ganho o meu salário, eu tenho o meu namorado, eu tenho a minha vida, cheia de problemas como todo mundo. Alguns problemas que poderiam ter sido evitados se tudo tivesse sido diferente; mas enfim; a vida não volta atrás e é assim com todo mundo, né? Cada um carrega a sua cruz. Mas apesar de ter a minha vida mais ou menos sob controle, e apesar de ter aprendido que eu não preciso mais agradar a todo mundo o tempo todo, eu continuo tendo problemas para falar abertamente sobre qualquer detalhe da minha vida privada. Eu continuo sentindo a necessidade de ter que "esconder o jogo" (escrever aqui no blog é diferente, pois escrever é como uma catarse, e aqui eu posso desabafar e evitar o confronto direto ao mesmo tempo). Não importa que eu seja financeiramente independente, não importa que eu não seja mais o patinho feio da escola, não importa que eu tenha talvez alcançado, se não em feitos concretos, pelo menos em experiências de vida, talvez muito mais que a maioria de meus antigos colegas de escola, eu continuo a sentir a mesma dificuldade em me relacionar com as pessoas, em me abrir naturalmente e sem receios, eu continuo a me sentir sem graça e sem defesa, como um menino que fez algo de errado, eu continuo a sentir vergonha e desconfiança como ontem quando, ao falar sobre a minha privada para a minha colega, eu não pude evitar o seguinte pensamento, rápido como um flash:
-"Bah, como eu queria um dia conseguir falar de mim sem ter que me sentir assim como eu eu estou me sentindo agora… como eu queria um dia não sentir mais medo das pessoas."



3 comments:
Eu te amo,viu menino? Ass: Menina!
Então só vou dizer uma coisa: de mim você não precisa ter medo ;-)
beijos
Você disse tudo cada um com sua cruz, não é fácil não é fácil, como é difícil!!!
Eu vivo um turbilhão desses sentimentos desde a minha adolescência, e hoje tenho 37 anos, e digo não é fácil, não sei se acham se deixam de achar, não tô nem aí, mas lá no fundo tudo isso incomoda.
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