Monday, August 6, 2007

Preguiça, esta eterna companheira


Estamos todos felizes aqui na Bélgica porque o verão finalmente chegou e mais do que isso, chegou bem no final de semana. Se Julho foi só chuva e decepção, Agosto entrou com tudo. Foram dois dias de muito sol e muito calor neste final de semana que passou. Alias continuam sendo, porque pelo menos por enquanto o verão persiste. Mas aqui é a Bélgica, então não adianta esperar muito das condições climáticas, tudo pode mudar dentro de 5 minutos. O lance é aproveitar o momento. Aproveitar o momento… e eu passei o final de semana inteiro em casa. Sofrendo de um mal bem conhecido: a preguiça do final de semana. Dois dias de sol e calor, sábado e domingo. E eu não fiz NADA.

Eu tenho uma teoria para os finais de semana. Eu acho que os dias estão invertidos. A gente deveria começar o final de semana com o domingo, quando as lojas estão todas fechadas e a gente não tem outra opção a fazer além de descansar, aproveitar para recuperar as energias gastas durante a semana de trabalho. Daí apenas depois do domingo deveria vir o sábado, que nós poderíamos normalmente utilizar para fazer tudo aquilo o que precisamos fazer mas não temos tempo durante a semana. Porque da maneira atual é cruel, não é justo ter que passar a semana inteira correndo de cima para baixo, trabalhando de nove às seis, indo pra academia depois, na eterna batalha contra o relógio para conseguir preparar o jantar a tempo e ainda ir dormir em um horário razoável, e aí finalmente chega o final de semana, sábado de manhã, você louco para relaxar, e daí se lembra que ainda tem que fazer o supermercado?

Então bateu aquela preguiça este final de semana e eu não fiz nada, nem sequer saí de casa. Bom, o meu caso não grave quanto parece à primeira vista. Eu tenho terraço enorme no meu apartamento, portanto posso aproveitar o bom tempo do mesmo modo como se estivesse fora. Porque até pensei em um dado momento, "eu tenho que sair e fazer algo, aproveitar o dia", mas cheguei à conclusão de que muito provavelmente acabaria me dirigindo a um dos terraços da cidade – o que mais fazer em um dia de sol e calor em uma cidade sem praias nem grandes parques por perto como Bruxelas? E aí o comodismo falou mais alto. Por que eu vou me instalar em um dos terraços do centro se tenho na minha casa o meu próprio terraço, onde eu escolho a música, eu escolho a bebida, eu escolho a companhia e eu escolho a posição do guarda-sol? Então fiquei no meu terraço, me instalei lá o dia inteiro e aproveitei para avançar na leitura de um livro.

Domingo a mesma coisa, a preguiça chegou ao nível do stress. Este é o cúmulo da preguiça. Aquele nível em que você começa a se estressar de que não está fazendo nada, de que está se deixando levar pela preguiça, a preocupação aumentando à medida que a pilha de pratos sujos na cozinha vai subindo, mas ainda assim você não consegue mover um dedo sequer para resolver a situação. Eu voltei pro meu terraço. Em um dado momento o calor estava tão forte que eu não aguentei ficar ali, tive que ir para dentro do apartamento mesmo. Tamanho sol e calor lá fora, e eu dentro de casa, lendo. Se fosse inverno o meu final de semana não teria sido muito diferente. Deve haver algum fator de masoquismo ou de esquizofrenia nisso. A gente passa o ano inteiro reclamando que só chove e faz frio, e daí quando o calor finalmente chega, a gente reclama que está quente demais e vai pra dentro de casa. Como diz a minha amiga B, eu devo ser o ranzinza do ano mesmo. Nunca satisfeito com a situação, sempre irritado – e calor excessivo é algo que me irrita pra valer, me deixa sempre de mau humor. Eu acho que eu estou REALMENTE PRECISANDO DE FÉRIAS.

Eu pensei em ir ao cinema, mas é uma das leis não escritas da humanidade, "É proibido ir ao cinema em um dia de sol como estes". Então não fui. Cheguei a fazer planos de pegar um trem e ir até a praia no litoral belga, ver o mar e tal, mas depois desisti porque afinal de contas, o litoral belga está longe de ser um paraíso tropical, e pegar uma hora, uma hora e meia de um trem provavelmente lotado para ir dar numa praia daquelas… no, thanks. . Quando eu vi o telejornal no final do dia, fiquei feliz de ter ficado em casa. Nada menos que 30.000 (isso mesmo, TRINTA MIL) pessoas se dirigiram ao litoral belga neste domingo. Que bom que eu fiquei em casa. Afinal de contas qual é o relaxamento possível quando a gente tem que dividir o espaço na praia com outras trinta mil almas tão ávidas pelo mar quanto você? Eu acho que eu ia ter mais espaço na banheira da minha casa.

Daí ainda pensei que eu poderia aproveitar o tempo livre dentro de casa de maneira útil, afinal eu tinha que colocar a minha administração em dia, tinha que colocar alguns documentos em ordem. Mas novamente fui atacado por aquela preguiça típica de domingo à tarde, aquele estado letárgico que combina a certeza intelectual da necessidade da tarefa ("se não fizer hoje vai acumular durante a semana") com a absoluta impossibilidade física de cumpri-la ("me levantar da poltrona? Tá difícil…"). Eu fiquei olhando para aquela pilha de papéis devidamente esquecidos em um cantinho do armário, eu olhava para eles e eles pareciam olhar para mim de volta com um jeito arrogante e me perguntar, "aí, vai encarar?" É claro que eu não encarei. Voltei para a leitura do meu livro, que estava nos capítulos finais, e deixei a administração da papelada para fazer durante a semana. Ponto pra preguiça.

Resultado de tudo isso: eu estou entrando a segunda-feira tão branco como saí da sexta. A cozinha de casa está pior que New Orleans depois do Katrina. A geladeira por outro lado está tão vazia como o deserto do Sahara. O cesto de roupa suja está transbordando. A papelada de casa está la, virgem e intocada, como sempre... Eu não fiz nada, não vi ninguém, não pus os pés pra fora do apartamento. E terminei de ler o meu livro. Resumo do final de semana? Ah, foi ótimo.

3 comments:

Annix said...

Delícia!

Beth Blue said...

Porque até pensei em um dado momento, "eu tenho que sair e fazer algo, aproveitar o dia"...

Pois eu fui domingo pra Scheveningen com o F., eu e a população inteira da Holanda, diga-se de passagem!!! rsrsrsrs. A verdade é que ele mora mesmo em Haia, então é 20 minutos até lá. Caminhamos pela praia (casal de namorados né), jantamos em um restaurante árabe delicioso e depois ainda fomos tomar uns drinks num pianobar ali no calçadão (porque F. adora piano, ainda mais se for ao vivo).

De resto, meus fins-de-semana têm sido bastante agitados ;-)

Beth Blue said...

Por que eu vou me instalar em um dos terraços do centro se tenho na minha casa o meu próprio terraço, onde eu escolho a música, eu escolho a bebida, eu escolho a companhia e eu escolho a posição do guarda-sol?

Antônio querido...você me mata de rir!!! Mas olha, você está certíssimo, faça o que bem lhe der na telha e seja feliz.