Thursday, August 23, 2007

Postcards from the West


Comecei a assistir ontem à série de reportagens God Warriors, pela Christiane Amanpour da CNN. O primeiro episódio foi sobre o fanatismo judaico; seguem hoje o fanatismo muçulmano, e na sexta o fanatismo cristão. Eu não esperava muito da qualidade jornalística de uma série produzida pela CNN, mas devo confessar que fiquei surpreso. Foram duas horas de documentário e eu não consegui levantar da cadeira nem para ir ao banheiro, de tão interessante que estava. A Christiane Amanpour conseguiu chegar na raiz do problema, isto é, a manutenção das colónias hebraicas na Cisjordânia, a crença generalizada dos colonos judaicos de que aquela terra lhes pertence pelo direito Divino, e o principal, a enorme influência que grupos de interesse em Washington conseguem manter sobre a política externa norte-americana, e o consequente suporte financeiro a Israel. Parabéns para a Christiane. Estou curioso para ver as partes dois e três, sobre os fanáticos muçulmanos e cristãos, que devem abordar com certeza a atual problemática migratória na Europa.

Quem anda pelas ruas do centro de cidades como Bruxelas ou Amsterdam hoje em dia não tem como negar: o islamismo faz parte do atual panorama europeu. Foi-se o tempo em que a população da Holanda ou da Bélgica era composta somente de loirinhas comendo queijo ou velhos bigodudos se fartando na cerveja e nos mariscos. A profusão de imigrantes de origem turca ou árabe, a quantidade de moças andando com véuzinho nas ruas e a miríade de lanchonetes vendendo kebap em cada canto são inegáveis. E se no interior destes países a porcentagem de população imigrante ainda é bem pequena, nas maiores cidades ela chega a 50%. Isto mesmo, metade. Basta dizer que o nome de batismo masculino mais utilizado nos cartórios de registro nos últimos dois anos tanto em Amsterdam como em Bruxelas foi… Mohammed. E se a população muçulmana cresce, o mesmo pode ser dito em relação ao racismo e à xenofobia na Europa do século XXI. Há um clima cada vez maior de desconforto e desconfiança entre a população local e aquela de origem estrangeira e principalmente islâmica.

Eu me sinto às vezes em uma situação um tanto paradoxal em relação a tudo isso. Pois se sou por um lado também estrangeiro e terceiro-mundista na origem geográfica, sou cristão e homossexual na origem sócio-cultural. Isto faz com que eu consiga me identificar, até certo ponto, com as duas correntes que se formam, cada vez mais antagônicas (antagonismo este que no meu ponto de vista é sistematicamente atiçado pela mídia, de maneira totalmente irresponsável, apenas pra vender manchete): a dos defensores do sociedade multicultural e a dos defensores da manutenção dos valores ocidentais, implicando na assimilação dos valores locais pelos estrangeiros. Eu me sinto mal quando leio notícias que falam de ataques racistas contra a população estrangeira, como recentemente em uma cidadezinha na Alemanha. Mas também me sinto ofendido e revoltado quando vejo por exemplo que os índices de violência contra homossexuais em Amsterdam têm crescido, devido aos ataques provocados na maior parte por grupos de adolescentes marroquinos. E esta espiral mútua de violência e agressão chegou a um nível em que simplesmente não dá mais pra se fingir que o problema da imigração (e das falhas na integração dos imigrantes) não existe, como foi feito durante muitos anos pelos governos europeus. Continuemos assim, tapando o sol com a peneira, e a quantidade de Abou Jajahs (militante do movimento árabe islâmico radical na Bélgica) e Geert Wilders (militante do movimento cristão-liberal radical na Holanda) só vai aumentar.

A verdade dos fatos como ela é (ou pelo menos como eu a vejo): os europeus são infelizmente em muitos casos ainda racistas e xenófobos. Isto decorre em função da total ignorância e desinteresse do europeu médio em relação ao resto do mundo (e por acaso não é assim com as populações de classe média baixa no mundo inteiro? Por que haveria de ser diferente por aqui?). E enquanto este resto do mundo ficou lá onde sempre esteve, no resto do mundo, ele não incomodou. Mas agora que o resto do mundo começa já na porta ao lado, na atendente do supermercado ou no condutor de ônibus, ele incomoda, e muito. Jan eet niet wat Jan niet kennt, diz o ditado holandês (João não come o que não conhece). Seria portanto necessário que os governos europeus se engajassem de uma maneira mais ativa no combate ao racismo e numa melhoria da percepção do imigrante por parte da população local, e das vantagens que a imigração traz ao contexto geral da Europa. Por quê isso não acontece? Falta de vontade política, temo eu. No final das contas, populismo dá voto e querer pedir ao João ninguém do subúrbio que seja mais tolerante e receptivo em relação ao vizinho turco é problema eleitoral na certa. A manutenção do status quo é sempre a saída mais fácil nestes casos.

Também é preciso que sejam encontradas formas de melhorar o acesso da população estrangeira ao mercado de trabalho. Uma reportagem de uma revista holandesa colocou recentemente o assunto à tona de maneira bem clara: os candidatos com nome de origem estrangeira são por vezes sistematicamente rejeitados por possíveis empregadores. Dois currículos exatamente iguais foram enviados para diversos processos seletivos, apenas com o nome do solicitante diferente. Os currículos com nomes de holandeses foram chamados para entrevistas; aqueles enviados sob o nome de um estrangeiro foram rejeitados. Há aí um problema evidente que precisaria ser resolvido, nem que fosse através de cotas de participação. Uma parcela da população à qual nunca se dá uma chance e que se sente estigmatizada pela sociedade sempre tende a se fechar em si mesma, em seu próprio mundinho, em suas próprias leis (eu entendo isto muito bem).E quanto mais difícil for o desenvolvimento económico dos imigrantes, maior a dificuldade de integração e aceitação mútuas. Mas uma vez, tenho a impressão que o problema e a solução são tão evidentes que apenas a falta de vontade política de mexer na colmeia justifica a atual situação.

Por outro lado, também ouso dizer, a população muçulmana é frequentemente de uma arrogância e de uma falta de respeito para com a população e os hábitos locais desconcertantes. Eu entendo que qualquer imigrante quando vai para um país novo deve fazer o máximo para se adaptar às normas locais – aprender a língua, inteirar-se a respeito de hábitos e tradições locais, comportar-se de maneira adequada. Faz parte (ou pelo menos deveria fazer) da adaptação humana ao meio ambiente. Ao final de contas ser estrangeiro é sempre uma opção; ninguém pode dizer que foi obrigado a emigrar para a Europa (mesmo os exilados, que poderiam ter ido para outro lugar… há sempre uma opção e uma escolha a fazer). Se eu opto por vir a Europa, ou a qualquer outro lugar, eu opto por me adaptar à cultura local. Assim como se eu for convidado para a casa de alguém, eu respeito os donos da casa. Ou pelo menos, se eu não estou gostando da festa, eu não incomodo, e fico quieto no meu canto. Ora, os muçulmanos têm aparentemente uma dificuldade para aceitar este princípio básico da convivência mútua de maneira cabal. Eles são tão apegados à própria cultura a aos próprios valores, são tão orgulhosos de suas próprias tradições, que chegam por vezes a rejeitar ostentosamente as normas mais elementares das sociedades ocidentais, quais sejam, as liberdades individuais, o secularismo, a igualdade entre os sexos. Eu acho que uma boa dose de humildade e do velho "simancol" não faria mal a estes indivíduos, que pelo jeito precisam ainda aprender que para ser respeitado é preciso respeitar primeiro.

Na minha situação específica, eu devo admitir que atualmente me sinto mais "ameaçado" (por falta de uma palavra melhor) pelo preconceito dos muçulmanos em relação às liberdades individuais típicas do Ocidente que pelo racismo dos europeus em relação aos estrangeiros. Talvez porque eu tenha a sorte de fazer parte de uma camada da sociedade mais estudada e mais esclarecida, e por morar no centro, estando portanto longe de possíveis problemas com a classe média baixa européia. Por outro lado nada impede que eu venha um dia a ser molestado ou atacado por um destes bandos de jovens marroquinos desocupados que passam as tardes perambulando pelo centro de Bruxelas ou Amsterdam e importunando os transeuntes, com a conivência calada de pais de família totalmente ausentes. Eu acho isto uma grande pena. Nós temos o privilégio de morar em um continente que passou por séculos e séculos de guerras, miséria, revoluções, para chegar ao nível em que chegou, onde as nossas vidas não mais são ditadas por um Deus qualquer mas pelo nossa capacidade racional, onde os cidadãos são respeitados em sua individualidade e onde as diferenças sociais são bem menores se comparadas a outros lugares no mundo. E de repente eis que no início do terceiro milénio estamos ainda a mercê de ignorantes e fanáticos religiosos que, independente dos motivos sócio-econômicos e/ou culturais que os motivem, colocam à prova e sistematicamente ignoram tudo o que foi conquistado até hoje em termos de liberdades individuais, respeito à vida privada e avanços na legislação.

Eu acabo concordando com a Ayan Hirsi Ali (ex-muçulmana, militante do movimento anti-islâmico na Holanda), que o islamismo crescente na Europa é sim uma ameaça às socidedades ocidentais, pela cota de fundamentalismo religioso que ele traz consigo em doses cada vez maiores. E que deve ser combatido como tal, com toda a seriedade e veemência que for necessária. Antes a assimilação pura e simples pela população muçulmana dos hábitos ocidentais enquanto é tempo, que o possível retrocesso nos avanços sociais e culturais conseguidos com tanta dificuldade na sociedade européia. Por que se nada for feito, e levando em consideração por um lado o aumento das desigualdades entre ricos e pobres na Europa (e pobreza acarreta em ignorância, aqui e no mundo inteiro) e por outro as diferenças de crescimento demográfico entre as populações de nativos cristãos e de estrangeiros muçulmanos (os últimos têm crescido em taxas bem maiores que os primeiros) não é totalmente impossível de se visualizar um futuro em que a paisagem de boa parte Europa será marcada não só pelas moças com véuzinho e pelas lanchonetes de kebap a que eu me referi no início do texto, mas também por agressões físicas a homossexuais no meio da rua, espancamentos de mulheres casadas pelos seus maridos e seus filhos, casamentos forçados, assassinatos "em nome da honra", e todos os tipos de barbaridades e exageros cometidos por uma parcela infelizmente cada vez maior da também cada vez maior (e cada vez mais pobre) população muçulmana. E aí todas as liberdades que nós hoje em dia ainda gozamos aqui na Europa não serão mais do que lembranças de um tempo perdido, cartões postais de um lugar que não mais existirá, um lugar onde um dia nós ousamos ser nós mesmos, e não simples cobaias de Deus. Uma grande pena.

6 comments:

Beth Blue said...

A verdade dos fatos como ela é (ou pelo menos como eu a vejo): os europeus são infelizmente em muitos casos ainda racistas e xenófobos. Isto decorre em função da total ignorância e desinteresse do europeu médio em relação ao resto do mundo (e por acaso não é assim com as populações de classe média baixa no mundo inteiro? Por que haveria de ser diferente por aqui?). E enquanto este resto do mundo ficou lá onde sempre esteve, no resto do mundo, ele não incomodou. Mas agora que o resto do mundo começa já na porta ao lado, na atendente do supermercado ou no condutor de ônibus, ele incomoda, e muito.

Parabéns pelo texto! Estou para escrever sobre este assunto desde que comecei meu blog (vivo entre muçulmanos no meu bairro aqui em Amsterdam, verdade seja dita) mas só de pensar na problemática toda me dá uma preguiça danada...não, não existe solução a curto prazo para um problema que vem apenas se agravando há mais de 40 anos (e Gert Wilders é um idiota), mais precisamente desde que os primeiros gastarbeiders foram convidados para trabalhar nesta terra (ênfase em convidados).

Beth Blue said...

não é totalmente impossível de se visualizar um futuro em que a paisagem de boa parte Europa será marcada não só pelas moças com véuzinho e pelas lanchonetes de kebap a que eu me referi no início do texto, mas também por agressões físicas a homossexuais no meio da rua, espancamentos de mulheres casadas pelos seus maridos e seus filhos, casamentos forçados, assassinatos "em nome da honra", e todos os tipos de barbaridades e exageros cometidos por uma parcela infelizmente cada vez maior da também cada vez maior (e cada vez mais pobre) população muçulmana.

Isso já é realidade em Amsterdam, infelizmente...só um adendo, não são só os muçulmanos que batem em suas mulheres - homens brancos e cristãos cometem o mesmo ato mais do que se imagina ou do que a mídia gosta(ria) de publicar. Li tempos atrás uma matéria sobre violência doméstica e ela certamente não se restringe às populações muçulmanas...diga-se de passagem, Alemanha e Bélgica batem recordes de violência doméstica...E na Inglaterra o alcoolismo só agrava este quadro. Onde vamos parar...

Unknown said...

Adorei o seu blog, super centrado e bem articulado.Adicionei no meu...

Andrea Drewanz said...

Que mundinho esse o nosso, hein? É horrível ver para onde a humanidade está caminhando.
Bjs.

Labelle® Paz said...

Tem coisas que me assustam...

O pré-conceito me assusta...
A violência me assusta...
Constatar que ao invés de algumas comunidades evoluirem, regridem, me assusta...

Sim, estou "assustada" demais ultimamente e por mais otimista que eu possa ser, acho que a tendência é só piorar. Enfim...

Bebete Indarte said...

Antonio, fazia tempo que não lia seu blog, aliá não tenho escrito no meu, não por falta de assunto, mas por causa das férias.

Esse texto está muito bom, você conseguiu expressar o que eu sinto em relação a este tema complexo de quem apareceu primeiro o ovo ou a galinha.

Acho que quando você se cansar de trabalhar na Comissão Européia, pode muito bem mandar seu currículo a um grande jornal como articulista, tenho certeza que seria um sucesso de público, e muitas idéias iriam aparecer para você comentar, dar sua opinião, acho que tem mais a sua cara.

Continue sempre assim!
Beijos