
Uma das características básicas de Bruxelas é exatamente a falta de uma característica básica. Há cidades como Paris, Amsterdam, ou mesmo o Rio de Janeiro, que envolvem facilmente o turista com a sua simetria harmônica, com a beleza arquitetônica ou a exuberância de suas paisagens. Os atributos destas cidades são óbvios, estão imediatamente disponíveis a quem quiser. São por assim dizer cidades fáceis de se apaixonar. Mas há outras cidades como Bruxelas – e eu incluiria neste segundo grupo também São Paulo, e talvez Milão, que ao contrário, assustam à primeira vista, tamanha é a feiura, bagunça ou falta de uniformidade com a qual se apresentam. Estas cidades na verdade escondem a maioria das suas preciosidades, talvez porque queiram preservá-las aos seus próprios moradores, estes sim muitas vezes inabaláveis amantes dos lugares onde moram, para geral incompreensão do turista mediano. Vai explicar como pode todo paulistano adorar São Paulo. Mas é a pura verdade, e todo mundo que mora ou já morou em São Paulo entende muito bem.
Assim é Bruxelas, uma cidade que por motivos históricos, políticos e geográficos carece de uma identidade comum e uniforme (só a título de curiosidade, o que nós estrangeiros chamamos de Bruxelas é na verdade uma região composta de 19 cidades diferentes, todas contíguas e cada uma tendo a sua administração própria, encabeçadas pela Ville de Bruxelles, que é o centrinho da cidade). Quem vem a Bruxelas apenas por um ou dois dias vai a Grand Place, tira foto no Manekken Pis e vai jantar na Rue des Bouchers, e se muito dá uma passada no Atomium e na sede da Comissão Européia, e depois vai embora, pensando que já viu tudo. Ledo engano, não viu nada. E quem fica uma semana dá voltas e voltas pela cidade, vai para fora do centro e nos arredores, e vê bairros lindos e bairros horrorosos, parques suntuosos e guetos fétidos, riqueza e pobreza misturadas em um grau poucas vezes visto por estes lados da Europa, e não entende nada. É porque Bruxelas é assim mesmo, não é para amadores nem principiantes. Bruxelas tem pérolas que só vai mostrando aos pouquinhos, àqueles que têm a manha de aceitar o desafio de passar uma temporada mais longa na capital Belga, ou a sorte de ter a companhia de um morador.
Eu tive a oportunidade de conhecer uma destas pérolas ontem à tarde. Aproveitando que era feriado na Bélgica (Ascensão de Maria, coisa de país católico europeu, o que eu adoro, pois na Holanda não tinha nada disso), resolvi aceitar o convite de uma amiga para sair de casa e ir com ela ao Museu Casa de Erasmo (aqui vai o link, http://www.erasmushouse.museum/), situado no bairro de Anderlecht. Este era há quatro, cinco séculos atrás um vilarejo afastado da cidade, e hoje em dia é o maior distrito de Bruxelas, e também um dos mais pobres, habitado primordialmente pela classe média baixa belga. Pois bem, a viagem até o museu não durou mais do que 10 minutos de carro, durante os quais fui presenteado com a rotineira feiúra da paisagem suburbana da cidade. E eis que de repente viramos uma curva e estamos de volta na Anderlecht do século XVI, ou o que sobrou dela. Uma bela igreja gótica medieval, e uma pracinha hiper simpática ladeada por casinhas coloridas e aconchegantes. Por trás, um centro cultural sediado em um antigo hospital, e mais adiante, junto à avenida, o museu-casa-parque onde o filósofo Erasmo de Rotterdam ficou hospedado durante um longo período. Estacionamos o carro, atravessamos o portão, ouvimos o barulho do vento soprando por entre as folhas das árvores frondosas ao redor… e voltamos no tempo.
Logo na entrada há um pequeno pátio com uma fonte, em frente ao qual podemos apreciar a arquitetura flamenga do casarão, datado de 1515. Entrando, são dois andares em perfeito estado, reproduzindo fielmente o que seria uma casa de campo naquela época. E dois salões repletos de quadros, móveis, utensílios, livros, tudo o que direta ou indiretamente fez parte da vida e da obra de Erasmo, que ali defendeu suas ideias perante vários editores. Inclusive cópias da primeira edição do Elogio à Loucura e de outros livros, onde podemos observar as páginas que foram objeto de censura, notas manuscritas do autor no pé das páginas, e os diferentes estilos de impressão usados na época. Tudo escrito em latim e grego, mas para os pobres mortais como eu, que não sei bulhufas de latim, um consolo: há uma terceira sala com cópias de edições mais recentes de sua obra, onde pude ver alguns trechos de seus livros em francês, inglês, holandês e até mesmo em hebraico. Infelizmente nada em português.
Mas o melhor mesmo do museu (como se a casa em si já não fosse o suficiente) é o jardim-parque, situado na parte de trás da propriedade. Este jardim é dividido em duas partes. A primeira parte é chamada de jardim das doenças, e é uma tentativa de reprodução do pomar de Erasmo. Erasmo era hipocondríaco e mantinha um vasto pomar para uso medicinal. Então temos ali todos os tipos de plantas medicinais, do boldo à alcachofra, cada uma para uma função ou parte do corpo diferente. E em seguida, há o jardim filosófico, construído a partir de uma área adjacente ao museu e incorporada a ele. No jardim filosófico o visitante é guiado por um caminho circular que nos faz passear por uma ampla área verde, repicada por pequenos lagos ou espelhos d´água. Cada um destes lagos contém em seu fundo a inscrição em letras de ferro de um dos adágios de Erasmo, provérbios de origem greco-latina anotados por ele ao longo da vida, alguns dos quais ainda em uso até hoje. É muito gostoso passear pelo jardim e ir procurando os adágios um a um. Reproduzo aqui os provérbios (em latim, acompanhados da minha tradução para o português, que adaptei das traduções para o francês existentes no local) que podem ser encontrados nos lagos do jardim:
Difficilia Quae Pulchra
(as belas coisas são difíceis)
Ubi Bene, Ibi Pátria
(a pátria é onde nos sentimos bem)
Aut Regem, Aut Fatuum Nasci Oportere
(Deve-se nascer Rei ou louco)
Ubi Amici, Ibi Opes
(Onde temos amigos, é lá que está a riqueza)
Civis Mundi Sum, Communis Omnium Vel Peregrinus Magis
(Eu sou um cidadão do mundo; minha pátria é qualquer lugar, para todos eu sou um estrangeiro)
Sidera Addere Caelo
(Adicione uma estrela ao céu)
Festina Lente
(Apresse-se lentamente).
Após uma hora de puro deleite e dolce far niente naquele pequeno jardim encantado, fomos avisados de que o museu estava fechando e que portanto estava na hora de ir embora. Uma pena, mas já tinha conseguido o efeito desejado: voltei para casa tranquilo e relaxado. Nada como uma boa dose de natureza misturada a uma aula de história e uma lição de sabedoria para deixar a gente em paz. Atravessei o jardim, entrei no carro, e voltei para o século XXI, sem pressa, agradecendo a Bruxelas por mais esta pérola com a qual fui presenteado.
Assim é Bruxelas, uma cidade que por motivos históricos, políticos e geográficos carece de uma identidade comum e uniforme (só a título de curiosidade, o que nós estrangeiros chamamos de Bruxelas é na verdade uma região composta de 19 cidades diferentes, todas contíguas e cada uma tendo a sua administração própria, encabeçadas pela Ville de Bruxelles, que é o centrinho da cidade). Quem vem a Bruxelas apenas por um ou dois dias vai a Grand Place, tira foto no Manekken Pis e vai jantar na Rue des Bouchers, e se muito dá uma passada no Atomium e na sede da Comissão Européia, e depois vai embora, pensando que já viu tudo. Ledo engano, não viu nada. E quem fica uma semana dá voltas e voltas pela cidade, vai para fora do centro e nos arredores, e vê bairros lindos e bairros horrorosos, parques suntuosos e guetos fétidos, riqueza e pobreza misturadas em um grau poucas vezes visto por estes lados da Europa, e não entende nada. É porque Bruxelas é assim mesmo, não é para amadores nem principiantes. Bruxelas tem pérolas que só vai mostrando aos pouquinhos, àqueles que têm a manha de aceitar o desafio de passar uma temporada mais longa na capital Belga, ou a sorte de ter a companhia de um morador.
Eu tive a oportunidade de conhecer uma destas pérolas ontem à tarde. Aproveitando que era feriado na Bélgica (Ascensão de Maria, coisa de país católico europeu, o que eu adoro, pois na Holanda não tinha nada disso), resolvi aceitar o convite de uma amiga para sair de casa e ir com ela ao Museu Casa de Erasmo (aqui vai o link, http://www.erasmushouse.museum/), situado no bairro de Anderlecht. Este era há quatro, cinco séculos atrás um vilarejo afastado da cidade, e hoje em dia é o maior distrito de Bruxelas, e também um dos mais pobres, habitado primordialmente pela classe média baixa belga. Pois bem, a viagem até o museu não durou mais do que 10 minutos de carro, durante os quais fui presenteado com a rotineira feiúra da paisagem suburbana da cidade. E eis que de repente viramos uma curva e estamos de volta na Anderlecht do século XVI, ou o que sobrou dela. Uma bela igreja gótica medieval, e uma pracinha hiper simpática ladeada por casinhas coloridas e aconchegantes. Por trás, um centro cultural sediado em um antigo hospital, e mais adiante, junto à avenida, o museu-casa-parque onde o filósofo Erasmo de Rotterdam ficou hospedado durante um longo período. Estacionamos o carro, atravessamos o portão, ouvimos o barulho do vento soprando por entre as folhas das árvores frondosas ao redor… e voltamos no tempo.
Logo na entrada há um pequeno pátio com uma fonte, em frente ao qual podemos apreciar a arquitetura flamenga do casarão, datado de 1515. Entrando, são dois andares em perfeito estado, reproduzindo fielmente o que seria uma casa de campo naquela época. E dois salões repletos de quadros, móveis, utensílios, livros, tudo o que direta ou indiretamente fez parte da vida e da obra de Erasmo, que ali defendeu suas ideias perante vários editores. Inclusive cópias da primeira edição do Elogio à Loucura e de outros livros, onde podemos observar as páginas que foram objeto de censura, notas manuscritas do autor no pé das páginas, e os diferentes estilos de impressão usados na época. Tudo escrito em latim e grego, mas para os pobres mortais como eu, que não sei bulhufas de latim, um consolo: há uma terceira sala com cópias de edições mais recentes de sua obra, onde pude ver alguns trechos de seus livros em francês, inglês, holandês e até mesmo em hebraico. Infelizmente nada em português.
Mas o melhor mesmo do museu (como se a casa em si já não fosse o suficiente) é o jardim-parque, situado na parte de trás da propriedade. Este jardim é dividido em duas partes. A primeira parte é chamada de jardim das doenças, e é uma tentativa de reprodução do pomar de Erasmo. Erasmo era hipocondríaco e mantinha um vasto pomar para uso medicinal. Então temos ali todos os tipos de plantas medicinais, do boldo à alcachofra, cada uma para uma função ou parte do corpo diferente. E em seguida, há o jardim filosófico, construído a partir de uma área adjacente ao museu e incorporada a ele. No jardim filosófico o visitante é guiado por um caminho circular que nos faz passear por uma ampla área verde, repicada por pequenos lagos ou espelhos d´água. Cada um destes lagos contém em seu fundo a inscrição em letras de ferro de um dos adágios de Erasmo, provérbios de origem greco-latina anotados por ele ao longo da vida, alguns dos quais ainda em uso até hoje. É muito gostoso passear pelo jardim e ir procurando os adágios um a um. Reproduzo aqui os provérbios (em latim, acompanhados da minha tradução para o português, que adaptei das traduções para o francês existentes no local) que podem ser encontrados nos lagos do jardim:
Difficilia Quae Pulchra
(as belas coisas são difíceis)
Ubi Bene, Ibi Pátria
(a pátria é onde nos sentimos bem)
Aut Regem, Aut Fatuum Nasci Oportere
(Deve-se nascer Rei ou louco)
Ubi Amici, Ibi Opes
(Onde temos amigos, é lá que está a riqueza)
Civis Mundi Sum, Communis Omnium Vel Peregrinus Magis
(Eu sou um cidadão do mundo; minha pátria é qualquer lugar, para todos eu sou um estrangeiro)
Sidera Addere Caelo
(Adicione uma estrela ao céu)
Festina Lente
(Apresse-se lentamente).
Após uma hora de puro deleite e dolce far niente naquele pequeno jardim encantado, fomos avisados de que o museu estava fechando e que portanto estava na hora de ir embora. Uma pena, mas já tinha conseguido o efeito desejado: voltei para casa tranquilo e relaxado. Nada como uma boa dose de natureza misturada a uma aula de história e uma lição de sabedoria para deixar a gente em paz. Atravessei o jardim, entrei no carro, e voltei para o século XXI, sem pressa, agradecendo a Bruxelas por mais esta pérola com a qual fui presenteado.



1 comment:
Estive em Bruxelas, em 2004, e fiquei por um mês hospedada na casa de uma prima.
Conheci lugares lindos, vários parques e andei por uma plantação de narcisos que me lembro até hoje. Não sei se visitei este museu, mas estive em um parecido nos arredores da cidade, havia uma casa de chá e um mini zôo. Não consigo me lembrar o nome... Estive também em Gent e achei a cidade belíssima, com ótimo astral, bem jovem e alegre.
Apesar do que todos falam, gostei muito de Brussels e olha que peguei dias bem cinzentos!!!
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