
E nestes dias de luto oficial (como já decretado por minha amiga B) pelo falecimento não só de Bergman como também de Antonioni, fica difícil de evitar a comparação entre o cinema de ontem e o cinema de hoje, e em geral, entre o mundo das artes de ontem e o mundo das artes de hoje, sem entrar estado melancólico pelo caminho que vai traçando a humanidade neste princípio do novo milênio.
Parafraseando Ruy Castro, estou com saudades do século XX. Nostalgia pura de um tempo em que a cultura de massa ainda não existia. Em que a palavra arte era mais habitualmente ligada à ideia da qualidade estética ou à instigação conceitual do que ao simples sucesso comercial. Neste sentido sou um elitista puro. Podem me chamar de arrogante se quiserem, mas eu me junto ao grupo do hilário, irritante e saudoso Paulo Francis. A democracia pode ser o melhor (ou o menos pior) sistema político do mundo, mas que a consequente massificação da cultura acabou com o mundo das artes, fica difícil de se negar.
Alguém do nosso tempo já parou um dia para pensar como devia ser uma delícia a vida no Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, por exemplo? A gente ia caminhando para a praia de Ipanema, sem medo de assalto nem de arrastão. Encontrava no caminho com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e uma vez na praia ia pegar um sol junto com a Marieta Severo ou a Leila Diniz. E na hora de ir ao cinema, podia escolher entre os últimos lançamentos de Fellini, Bergman, Truffaut, ou Buñuel. Se era assim no Rio, imagina como devia ser em Nova York ou em Paris (sem querer soar deslumbrado, mas enfim, eram e continuam sendo os principais centros difusores da cultura ocidental). Hoje em dia vamos de carro à Barra, encontramos as mais novas atrizes-modelos da Globo ou do BBB, e vamos ao cinema para ver… não, não vamos mais ao cinema, pegamos o último filme de ação para ver em dvd.
Vejam o que aconteceu com a música. Pensemos nos anos 50. Quem eram as maiores divas daquele tempo? Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Dinah Washington, Sarah Vaughan… cantando os sucessos de Cole Porter e dos Gershwin. Havia a turma que era pró Ella e a turma que era pró Billie, em função da preferência pela técnica da primeira ou pela emotividade da segunda. E hoje em dia, quem lidera as paradas? Vejamos… Jennifer Lopez? Britney Spears? Pussycat Dolls? Eu vou ser sincero, já faz alguns anos que eu deixei de ouvir a qualquer tipo de rádio pop. Não tenho mais ouvido pra isso. Fora a grande Madonna (que sempre vou gostar), fora os poucos grupos britânicos que se esforçam em manter a soul music alive, o resto tem o mesmo valor de um Fifty Cent. Nome muito bem dado, por sinal. Já diz tudo. Hoje em dia quando ligo o rádio, ponho direto na emissora de música clássica. É mais seguro.
E a pintura, então? Dessa não sobrou nada. Hoje de manhã eu estava vendo uma dessas apresentações de powerpoint que são enviadas por e-mail, esta era uma sobre Dora Maar, uma das esposas de Picasso, e eu resolvi abri para ver (coisa que eu quase nunca faço). Que maravilha, que quadros expressivos. Belos e tocantes. O século XX nos deu as obras de Picasso, Dali, Miro, Mondriaan, Paul Klee, Magritte…o que sobrou disso tudo? Poderíamos dizer que o advento da fotografia matou a pintura, desviou o seu rumo, mas será mesmo que é isso? Para começcar, a pintura de Picasso, Dali, Mondriaan ou Magritte jamais poderia ser considerada como meramente pictórica. E mesmo pensando em fotografia, e nos grandes mestres da fotografia… Cartier Bresson, Robert Doisneau, Richard Avedon… todos se foram. Todos do século XX. Ficou o grande Sebastião Salgado, talvez para nos lembrar que a fotografia é a última forma de arte plástica ainda viva. Até quando?
E temos o cinema. O que sobrou? Quem ainda produz filmes de qualidade? Quem ainda vai assisti-los? Quantos cinemas de arte não fecharam nos últimos anos, por falta de público? Eu tenho que pensar um bocado para chegar à conclusão de que atualmente há apenas três diretores de cinema que me fazem sair de casa e ir em direção à sala escura sem pestanejar – Almodóvar, François Ozon e Lars von Trier. Por eles eu ainda me dou ao trabalho. Com o último em depressão e sem trabalhar, só restam os outros dois. E o bom e velho Woody Allen, que perdeu muito da sua criatividade mas que ainda mantém o seu charme. Últimos expoentes de qualidade daquela que já foi a sétima arte.Ok, Zhang Yimou. Ok, Ang Lee. Ok, Stephen Frears, talvez... é, talvez o cinema ainda tenha chance, ainda há vida inteligente em volta, mas está cada vez mais raro, cada vez mais difícil.
A minha mãe costumava dizer que com a idade a gente vai perdendo o interesse pelo cinema. Ela quando nova ia sempre assistir a todos os novos lançamentos de filmes de arte, isso na Belém do Pará dos anos 70, ela ia no Cineclube, na filmoteca da Aliança Francesa e coisas do gênero. Pois bem, a minha mãe me avisou, que com a passagem dos anos a gente vai perdendo o interesse pelo cinema, pois vai ficando mais exigente, vai achando os últimos lançamentos cada vez piores, até que pára de ir ao cinema. Eu, cinéfilo de carteirinha, me recusei na época a acreditar nela. Não, o meu interesse pelo cinema ia continuar sempre vivo, eu ia passar a minha vida inteira indo todo fim de semana ao cinema.
E me vejo hoje em dia, e eu quase nunca vou ao cinema. Raramente acho um filme que no meu entender valha a pena, e quando acho, até conseguir me programara para ir a uma sessão, o filme já saiu de cartaz. Porque os filmes de qualidade nunca ficam mais que duas ou três semanas em cartaz, tem que sair correndo para ver, quando sai um. Em compensação, os multiplex da vida estão sempre lotados, tiroteio vende pacas. Será que o cinema de hoje mudou mesmo, será que o público mudou, ou sou simplesmente eu que estou ficando velho e exigente demais? Vai ver é isso mesmo.Sei lá. Babel é um filme recente que me dá esperança sobre o futuro do cinema… mas quando a gente ver o grande Scorsese finalmente levar o seu Oscar por aquele que deve ter sido o mais medíocre de seus filmes, não tem como não se sentir desconcertado.
Ainda bem que eu gosto de ler. A literatura, essa ainda não morreu, pelo menos por enquanto. Viva o bom e velho livro de cabeceira.
Parafraseando Ruy Castro, estou com saudades do século XX. Nostalgia pura de um tempo em que a cultura de massa ainda não existia. Em que a palavra arte era mais habitualmente ligada à ideia da qualidade estética ou à instigação conceitual do que ao simples sucesso comercial. Neste sentido sou um elitista puro. Podem me chamar de arrogante se quiserem, mas eu me junto ao grupo do hilário, irritante e saudoso Paulo Francis. A democracia pode ser o melhor (ou o menos pior) sistema político do mundo, mas que a consequente massificação da cultura acabou com o mundo das artes, fica difícil de se negar.
Alguém do nosso tempo já parou um dia para pensar como devia ser uma delícia a vida no Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, por exemplo? A gente ia caminhando para a praia de Ipanema, sem medo de assalto nem de arrastão. Encontrava no caminho com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e uma vez na praia ia pegar um sol junto com a Marieta Severo ou a Leila Diniz. E na hora de ir ao cinema, podia escolher entre os últimos lançamentos de Fellini, Bergman, Truffaut, ou Buñuel. Se era assim no Rio, imagina como devia ser em Nova York ou em Paris (sem querer soar deslumbrado, mas enfim, eram e continuam sendo os principais centros difusores da cultura ocidental). Hoje em dia vamos de carro à Barra, encontramos as mais novas atrizes-modelos da Globo ou do BBB, e vamos ao cinema para ver… não, não vamos mais ao cinema, pegamos o último filme de ação para ver em dvd.
Vejam o que aconteceu com a música. Pensemos nos anos 50. Quem eram as maiores divas daquele tempo? Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Dinah Washington, Sarah Vaughan… cantando os sucessos de Cole Porter e dos Gershwin. Havia a turma que era pró Ella e a turma que era pró Billie, em função da preferência pela técnica da primeira ou pela emotividade da segunda. E hoje em dia, quem lidera as paradas? Vejamos… Jennifer Lopez? Britney Spears? Pussycat Dolls? Eu vou ser sincero, já faz alguns anos que eu deixei de ouvir a qualquer tipo de rádio pop. Não tenho mais ouvido pra isso. Fora a grande Madonna (que sempre vou gostar), fora os poucos grupos britânicos que se esforçam em manter a soul music alive, o resto tem o mesmo valor de um Fifty Cent. Nome muito bem dado, por sinal. Já diz tudo. Hoje em dia quando ligo o rádio, ponho direto na emissora de música clássica. É mais seguro.
E a pintura, então? Dessa não sobrou nada. Hoje de manhã eu estava vendo uma dessas apresentações de powerpoint que são enviadas por e-mail, esta era uma sobre Dora Maar, uma das esposas de Picasso, e eu resolvi abri para ver (coisa que eu quase nunca faço). Que maravilha, que quadros expressivos. Belos e tocantes. O século XX nos deu as obras de Picasso, Dali, Miro, Mondriaan, Paul Klee, Magritte…o que sobrou disso tudo? Poderíamos dizer que o advento da fotografia matou a pintura, desviou o seu rumo, mas será mesmo que é isso? Para começcar, a pintura de Picasso, Dali, Mondriaan ou Magritte jamais poderia ser considerada como meramente pictórica. E mesmo pensando em fotografia, e nos grandes mestres da fotografia… Cartier Bresson, Robert Doisneau, Richard Avedon… todos se foram. Todos do século XX. Ficou o grande Sebastião Salgado, talvez para nos lembrar que a fotografia é a última forma de arte plástica ainda viva. Até quando?
E temos o cinema. O que sobrou? Quem ainda produz filmes de qualidade? Quem ainda vai assisti-los? Quantos cinemas de arte não fecharam nos últimos anos, por falta de público? Eu tenho que pensar um bocado para chegar à conclusão de que atualmente há apenas três diretores de cinema que me fazem sair de casa e ir em direção à sala escura sem pestanejar – Almodóvar, François Ozon e Lars von Trier. Por eles eu ainda me dou ao trabalho. Com o último em depressão e sem trabalhar, só restam os outros dois. E o bom e velho Woody Allen, que perdeu muito da sua criatividade mas que ainda mantém o seu charme. Últimos expoentes de qualidade daquela que já foi a sétima arte.Ok, Zhang Yimou. Ok, Ang Lee. Ok, Stephen Frears, talvez... é, talvez o cinema ainda tenha chance, ainda há vida inteligente em volta, mas está cada vez mais raro, cada vez mais difícil.
A minha mãe costumava dizer que com a idade a gente vai perdendo o interesse pelo cinema. Ela quando nova ia sempre assistir a todos os novos lançamentos de filmes de arte, isso na Belém do Pará dos anos 70, ela ia no Cineclube, na filmoteca da Aliança Francesa e coisas do gênero. Pois bem, a minha mãe me avisou, que com a passagem dos anos a gente vai perdendo o interesse pelo cinema, pois vai ficando mais exigente, vai achando os últimos lançamentos cada vez piores, até que pára de ir ao cinema. Eu, cinéfilo de carteirinha, me recusei na época a acreditar nela. Não, o meu interesse pelo cinema ia continuar sempre vivo, eu ia passar a minha vida inteira indo todo fim de semana ao cinema.
E me vejo hoje em dia, e eu quase nunca vou ao cinema. Raramente acho um filme que no meu entender valha a pena, e quando acho, até conseguir me programara para ir a uma sessão, o filme já saiu de cartaz. Porque os filmes de qualidade nunca ficam mais que duas ou três semanas em cartaz, tem que sair correndo para ver, quando sai um. Em compensação, os multiplex da vida estão sempre lotados, tiroteio vende pacas. Será que o cinema de hoje mudou mesmo, será que o público mudou, ou sou simplesmente eu que estou ficando velho e exigente demais? Vai ver é isso mesmo.Sei lá. Babel é um filme recente que me dá esperança sobre o futuro do cinema… mas quando a gente ver o grande Scorsese finalmente levar o seu Oscar por aquele que deve ter sido o mais medíocre de seus filmes, não tem como não se sentir desconcertado.
Ainda bem que eu gosto de ler. A literatura, essa ainda não morreu, pelo menos por enquanto. Viva o bom e velho livro de cabeceira.



2 comments:
E temos o cinema. O que sobrou? Quem ainda produz filmes de qualidade? Quem ainda vai assisti-los? Quantos cinemas de arte não fecharam nos últimos anos, por falta de público? Eu tenho que pensar um bocado para chegar à conclusão de que atualmente há apenas três diretores de cinema que me fazem sair de casa e ir em direção à sala escura sem pestanejar – Almodóvar, François Ozon e Lars von Trier.
Antônio, assim você logo logo vai arrecadar o troféu Ranzinza do Ano,rsrsrs...concordo que os três diretores acima são mesmo la crème de la crème do cinema atual mas tem mais coisa boa por aí viu...é só ter paciência e saber separar o joio do trigo (ou perguntar pra Anna que ela sabe de tudo!!!).
beijos cinéfilos...
Muito bom post!
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