
Há muito tempo atrás eu resolvi que nunca teria filhos. Foi uma decisão racional e ponderada, tomada depois de muita reflexão. Eu simplesmente decidi que não deveria contribuir para a chegada de nenhuma nova alma neste mundo. Parafraseando Machado de Assis no final de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", não quero transmitir a ninguém o legado de nossa miséria humana. Se um dia o meu instinto paternal for mais forte, eu poderia até adotar uma criança, mas jamais contribuirei para a renovação da espécie. Isto para evitar de qualquer forma que um dia eu pudesse vir a ser, conscientemente ou não, propositalmente ou não, co-responsável pelo infortúnio de quem quer que fosse, principalmente de um filho ou filha. O fato é que os meus pais erraram muito comigo, e alguns destes erros eu carreguei nas costas por muito tempo, por todas as consequências que cada um deles criou na minha personalidade e no meu caminho pela vida, e por toda a dificuldade com a qual eu hoje em dia lido na tentativa incansável – um dia hei de conseguir – de me livrar de todas estas consequências e colocar tudo isto para trás de uma vez por todas.
Então eu decidi que não queria correr o risco de um dia cometer as mesmas falhas, as mesmas omissões. E mantenho a minha decisão até hoje. Pois sei que a maioria dos erros cometidos pelos meus pais foram não foram causados de propósito, muito pelo contrário. Tenho certeza de que tanto como eu, eles gostariam que tudo tivesse sido diferente. Eles gostariam de ter acertado, como gostariam. E se erraram, foi por pura imaturidade, inexperiência, incapacidade de lidar com a situação. Todos somos humanos, todos cometemos erros. E por ter compreendido isto, eu já os deixei de culpar, o que foi um grande passo na minha evolução neste planeta. É um grande alívio poder colocar uma mágoa de lado, enterrar algo e seguir em frente. Mas uma coisa é perdoar o criminoso, outra é aprender a conviver com as consequências do crime. Quando se tem as pernas amputadas, não é uma prótese que vai resolver a situação. A prótese ajuda, mas as pernas não voltarão.
Ontem foi o Dia dos Pais no Brasil. Eu estava hoje de manhã fazendo a minha leitura semanal de blogs (uma maneira suave de começar a semana, antes de encarar o batente dos projetos pendentes), folheando de um blog ao outro, e a maioria deles invariavelmente fazia a alusão à data. Engraçado que quase todos eram blogs femininos, e todas as autoras declaravam o amor a seus pais (complexo de Elektra básico?). Eu que já assumi o meu complexo de Édipo básico (adoro a minha mãe, que pra mim está sempre acima do bem e do mal), mas que continuo a ter uma difícil relação com o meu pai (dificuldade esta que, tenho que admitir, é muito mais imposta por mim do que causada por ele) não deixei de sentir uma certa invejazinha (no bom sentido), uma inveja daqueles que nutrem e usufruem de um sentimento que eu não conheço, o do amor paterno, na sua mais absoluta e plena forma.
Eu não telefonei para o meu pai ontem. Não que eu tenha me esquecido. Pelo contrário. Como todos os anos, eu me lembrei, e passei o domingo inteiro pensando no meu pai. Mas não telefonei. Não o fiz pelo medo de me sentir ridículo, fantasiando uma história de amor entre pai e filho que na verdade não existe, porque o sentimento não existe, pelo menos não na medida que EU queria. Porque é claro que o meu pai me ama. Mas a maneira dele de amar um filho, não é a maneira com a qual eu gostaria de ser amado pelo meu pai. Porque o meu pai ama com distância e indiferença, é o amor frio daquele que dá um tapinha nas costas do filho e diz "filho; eu te amo", e volta para a leitura do jornal, sem se dar conta de que o filho à sua frente está ferido ou chorando. Isto é no meu entender o oposto do que deveria ser uma relação de pai e filho. A minha mãe é o contrário, ela me ama com cobrança e drama e sentimentalismo e ressentimento. Ela que também já errou tanto comigo, ela que se arrepende tanto de seus erros e que infelizmente se culpabiliza (sem necessidade) por muitas das coisas que já aconteceram comigo. É talvez mais duro de se lidar, mas é um amor mais palpável, mais real, por assim dizer.
Eu sei o que posso esperar da minha mãe; Eu sei que posso contar com ela nos momentos difíceis da minha vida. Ela vai espernear no início, vai chorar e se descabelar, mas depois ela se acomoda e vem ao meu socorro, acima de qualquer outra coisa. Já o meu pai é sempre uma incógnita. Ele diz que vai me ajudar e que estará sempre ao meu lado e que por mim mata e morre… e depois passa meses sem me dar um telefonema sequer, nem no dia do meu aniversário. Se eu ligo e deixo recado, ele sempre se esquece de retornar a ligação. Quando ele liga, é porque a minha irmã o lembra de me telefonar. (E aí eu penso; o senhor que diz que por mim mataria e morreria, porque não vive um pouquinho por mim também? Eu gostaria que o senhor não só matasse e morresse por mim, mas também vivesse por mim de vez em quando). Ele já esteve ao meu lado em momentos em que eu não esperava, já me surpreendeu de maneira magnânima. Mas também já me decepcionou terrivelmente ao falhar em ocasiões em que eu jamais imaginaria que ele falharia. O meu pai é como um estranho para mim. E por tabela, a noção de um pai adorado pelos seus filhos, é algo estranho para mim. Assim como algo escrito em japonês, chinês ou coreano. Você pode me dizer o que está escrito, mas eu vou continuar sem saber ler. Eu nunca sei o que esperar do meu pai. Então na dúvida, já aprendi que o melhor é não esperar nada.
Eu não espero nada do meu pai. E também acho que ele já não espera nada de mim. Eu sei que ele tem problemas, e ele sabe que eu tenho problemas, mas a relação não vai pra frente nem pra trás. É o que é. Um amor verdadeiro, mas frio, distante, indiferente. Um telefonema a mais ou não, seja Dia dos Pais ou qualquer outro dia, não vai mais fazer diferença. Então eu não liguei ontem. Poderia ter ligado… mas não deu vontade. Não por raiva, nem por tristeza, nem nada disso. Eu não estou com raiva do meu pai, eu não tenho nenhuma mágoa concreta (pelo menos não conscientemente), eu não estou procurando por briga nem nada disso. Se eu o visse hoje, se eu o encontrasse por acaso no meio da rua, eu conversaria com ele normalmente, e eu o abraçaria e o beijaria. Mas ontem eu não liguei. Eu não liguei por pura indiferença, talvez para fazer jus à característica básica de nossa relação. Se eu tivesse ligado, a verdade é que isso não iria fazer a menor diferença, nem para mim, nem para o meu pai, e eu sei disto muito bem. Eu gostaria que fosse diferente, mas não é. E foi por isso que eu senti esta invejazinha de todas as Elektras do mundo.
Então eu decidi que não queria correr o risco de um dia cometer as mesmas falhas, as mesmas omissões. E mantenho a minha decisão até hoje. Pois sei que a maioria dos erros cometidos pelos meus pais foram não foram causados de propósito, muito pelo contrário. Tenho certeza de que tanto como eu, eles gostariam que tudo tivesse sido diferente. Eles gostariam de ter acertado, como gostariam. E se erraram, foi por pura imaturidade, inexperiência, incapacidade de lidar com a situação. Todos somos humanos, todos cometemos erros. E por ter compreendido isto, eu já os deixei de culpar, o que foi um grande passo na minha evolução neste planeta. É um grande alívio poder colocar uma mágoa de lado, enterrar algo e seguir em frente. Mas uma coisa é perdoar o criminoso, outra é aprender a conviver com as consequências do crime. Quando se tem as pernas amputadas, não é uma prótese que vai resolver a situação. A prótese ajuda, mas as pernas não voltarão.
Ontem foi o Dia dos Pais no Brasil. Eu estava hoje de manhã fazendo a minha leitura semanal de blogs (uma maneira suave de começar a semana, antes de encarar o batente dos projetos pendentes), folheando de um blog ao outro, e a maioria deles invariavelmente fazia a alusão à data. Engraçado que quase todos eram blogs femininos, e todas as autoras declaravam o amor a seus pais (complexo de Elektra básico?). Eu que já assumi o meu complexo de Édipo básico (adoro a minha mãe, que pra mim está sempre acima do bem e do mal), mas que continuo a ter uma difícil relação com o meu pai (dificuldade esta que, tenho que admitir, é muito mais imposta por mim do que causada por ele) não deixei de sentir uma certa invejazinha (no bom sentido), uma inveja daqueles que nutrem e usufruem de um sentimento que eu não conheço, o do amor paterno, na sua mais absoluta e plena forma.
Eu não telefonei para o meu pai ontem. Não que eu tenha me esquecido. Pelo contrário. Como todos os anos, eu me lembrei, e passei o domingo inteiro pensando no meu pai. Mas não telefonei. Não o fiz pelo medo de me sentir ridículo, fantasiando uma história de amor entre pai e filho que na verdade não existe, porque o sentimento não existe, pelo menos não na medida que EU queria. Porque é claro que o meu pai me ama. Mas a maneira dele de amar um filho, não é a maneira com a qual eu gostaria de ser amado pelo meu pai. Porque o meu pai ama com distância e indiferença, é o amor frio daquele que dá um tapinha nas costas do filho e diz "filho; eu te amo", e volta para a leitura do jornal, sem se dar conta de que o filho à sua frente está ferido ou chorando. Isto é no meu entender o oposto do que deveria ser uma relação de pai e filho. A minha mãe é o contrário, ela me ama com cobrança e drama e sentimentalismo e ressentimento. Ela que também já errou tanto comigo, ela que se arrepende tanto de seus erros e que infelizmente se culpabiliza (sem necessidade) por muitas das coisas que já aconteceram comigo. É talvez mais duro de se lidar, mas é um amor mais palpável, mais real, por assim dizer.
Eu sei o que posso esperar da minha mãe; Eu sei que posso contar com ela nos momentos difíceis da minha vida. Ela vai espernear no início, vai chorar e se descabelar, mas depois ela se acomoda e vem ao meu socorro, acima de qualquer outra coisa. Já o meu pai é sempre uma incógnita. Ele diz que vai me ajudar e que estará sempre ao meu lado e que por mim mata e morre… e depois passa meses sem me dar um telefonema sequer, nem no dia do meu aniversário. Se eu ligo e deixo recado, ele sempre se esquece de retornar a ligação. Quando ele liga, é porque a minha irmã o lembra de me telefonar. (E aí eu penso; o senhor que diz que por mim mataria e morreria, porque não vive um pouquinho por mim também? Eu gostaria que o senhor não só matasse e morresse por mim, mas também vivesse por mim de vez em quando). Ele já esteve ao meu lado em momentos em que eu não esperava, já me surpreendeu de maneira magnânima. Mas também já me decepcionou terrivelmente ao falhar em ocasiões em que eu jamais imaginaria que ele falharia. O meu pai é como um estranho para mim. E por tabela, a noção de um pai adorado pelos seus filhos, é algo estranho para mim. Assim como algo escrito em japonês, chinês ou coreano. Você pode me dizer o que está escrito, mas eu vou continuar sem saber ler. Eu nunca sei o que esperar do meu pai. Então na dúvida, já aprendi que o melhor é não esperar nada.
Eu não espero nada do meu pai. E também acho que ele já não espera nada de mim. Eu sei que ele tem problemas, e ele sabe que eu tenho problemas, mas a relação não vai pra frente nem pra trás. É o que é. Um amor verdadeiro, mas frio, distante, indiferente. Um telefonema a mais ou não, seja Dia dos Pais ou qualquer outro dia, não vai mais fazer diferença. Então eu não liguei ontem. Poderia ter ligado… mas não deu vontade. Não por raiva, nem por tristeza, nem nada disso. Eu não estou com raiva do meu pai, eu não tenho nenhuma mágoa concreta (pelo menos não conscientemente), eu não estou procurando por briga nem nada disso. Se eu o visse hoje, se eu o encontrasse por acaso no meio da rua, eu conversaria com ele normalmente, e eu o abraçaria e o beijaria. Mas ontem eu não liguei. Eu não liguei por pura indiferença, talvez para fazer jus à característica básica de nossa relação. Se eu tivesse ligado, a verdade é que isso não iria fazer a menor diferença, nem para mim, nem para o meu pai, e eu sei disto muito bem. Eu gostaria que fosse diferente, mas não é. E foi por isso que eu senti esta invejazinha de todas as Elektras do mundo.



5 comments:
Oi Antonio!
Li seu texto e fiquei emocionada. Emocionada porque no ano passado, meu marido não recebeu ligação dos filhos nem no dia dos pais, nem no aniversário dele (que é exatamente duas semanas depois).
Acontece que os meninos não ligaram por um único motivo: sentem muita falta do pai mas não dão o braço a torcer porque o pai mora distante e casou com outra pessoa. Sim, são imaturos.
Não estou dizendo que esse é o caso e nem estou julgando o que li, mas estou escrevendo porque estou ao lado de um homem que faz o que pode e o que não pode pelos filhos, mas eles não reconhecem por mágoa...
Esse ano foi diferente. Estão mais próximos, ligaram cedinho para o pai, e acredito que se sentem mais leves por terem se re-aproximado.
Abraços grátis são sempre bem vindos e fazem um bemmmm danado!
Engraçado que quase todos eram blogs femininos, e todas as autoras declaravam o amor a seus pais (complexo de Elektra básico?)
Bem, então eu sou a exceção. Minha relação com meu pai não apenas é distante como praticamente inexistente. Nem me dei ao trabalho de ligar pra ele, que aliás não me liga há mais de 6 meses (quando eu disse que não tinha dinheiro ele nunca mais ligou, as simple as that).
Confesso que ainda tenho de aprender a lidar com esta mágoa porque a verdade nua e crua é que me sinto orfã de pai e mãe (o meu maior vínculo com o Brasil deixou de existir com a morte dela há 8 anos). Não chega a surpreender o fato de eu nunca mais ter ido ao Brasil desde então :-(
O meu pai é como um estranho para mim. E por tabela, a noção de um pai adorado pelos seus filhos, é algo estranho para mim. Assim como algo escrito em japonês, chinês ou coreano. Você pode me dizer o que está escrito, mas eu vou continuar sem saber ler. Eu nunca sei o que esperar do meu pai. Então na dúvida, já aprendi que o melhor é não esperar nada.
Antônio, eu assino embaixo de suas palavras...sem tirar nem pôr (e sei exatamente como você se sente).
Apesar de sua história com seu pai não ser das mais felizes, fiquei emocionada com seu relato...
Vc tocou em assuntos tão sérios, mas com tanta sinceridade e habilidade que me fez questionar sobre os meus próprios relacionamentos familiares. Este trecho (entre outros tantos) foi excepcional para mim...
"É um grande alívio poder colocar uma mágoa de lado, enterrar algo e seguir em frente. Mas uma coisa é perdoar o criminoso, outra é aprender a conviver com as consequências do crime."
Parabéns pela sua capacidade de transformar sentimentos em palavras.
Oi Antonio,
Suas palavras, sensações, emoções e a falta delas inclusive, são idênticas às minhas. Seu texto cabe exatamente para a minha realidade. É impressionante mas vivo a mesma situação. Entendo perfeitamente tudo o que você disse.
Dali
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